Jornal do Brasil

Segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Selvino Heck

Quando o inesperado acontece

Selvino Heck*

A Copa está como o Brasil. Ou o Brasil está como a Copa. Acontece o que menos se esperava ou o que não estava no horizonte de ninguém, como as erupções de junho de 2013, a juventude na rua, a mobilização popular. 

O aparentemente fraco vence o mais forte, gols e mais gols como nunca se viu numa Copa. Quem imaginaria a Costa Rica chegar aonde chegou, desbancando campeões mundiais? E o pequeno Uruguai derrotando a todo-poderosa Itália, quatro vezes campeã mundial e que, depois do primeiro jogo contra a Inglaterra, parecia ser uma das favoritas ao título? A Colômbia em primeiro, Inglaterra fora? E quem imaginaria a América Latina já garantida com um representante seu pelo menos na semifinal, quando nem terminou a primeira fase do mundial? 

Os analistas tentam explicar o que ninguém previu, nem sonhou, torcendo e retorcendo argumentos. 

Mais ou menos como o Brasil, que vinha numa toada, tudo parecia bem, tudo estava nos conformes. Bagunçou o coreto, e houve uma mexida geral no tabuleiro. 

E não ia dar tudo errado na Copa? Aeroportos, infraestrutura, tudo pela metade, tijolos à vista, obras inacabadas. Manifestações contra a Copa em todas as esquinas. Nem vai ter Copa, diziam alguns/muitos. Passaram alguns dias, e a manchete de um dos jornalões foi: “Prenúncio de que Copa seria ‘o fim do mundo’ não aguentou três dias. – Início do Mundial no Brasil reverteu expectativa da mídia internacional (e, grifo meu, de grande parte da mídia nacional) de que o evento seria desastroso para o país” (A Copa como ela é – Análise, Nelson de Sá, Folha de S.Paulo, 22/06/14, A 10, Poder). 

A alegria está nas ruas, desconcentração, argentinos aos borbotões em Porto Alegre, chilenos, holandeses, sul-coreanos, africanos, uruguaios, colombianos, alemães, japoneses confraternizando com brasileiros como se se conhecessem a vida inteira, fossem amigos e irmãos desde sempre, o Carnaval fora de época, duzentas mil caipirinhas, em baixo do sol que brilha, das festas de São João, do churrasco, do acarajé da Bahia, falando com gestos e paz todas as línguas do mundo, os hinos (não só o brasileiro) cantados a plenos pulmões por jogadores e torcida. Alegria principalmente pelo futebol bem jogado, dos muitos gols, como faz tempo não se via em nenhum lugar do planeta Terra. 

Está lindo o Brasil na Copa. Como está lindo o Brasil que se movimenta, que quer mais e melhor transporte, educação, sistemas de mobilidade urbana que funcionem, outro tipo de política e representação. 

Quando a vida, a realidade, a conjuntura, o futebol reservam surpresas, não é de se ficar triste, chorar, lamentar, ficar emburrado, ter medo. É porque o tempo não para, não parou, porque a história se movimenta, o povo sabe das coisas.  O importante é estar pronto, disponível, aberto para o novo. 

Passada a Copa, é aproveitar o clima e fazer o debate necessário: programas de governo, projetos de futuro, construir as mudanças urgentes e necessárias. Não com raiva ou ódio, mas com a determinação do time que quer e precisa ganhar coletivamente, que estuda as táticas e formula as estratégias para fazer os gols e mantém a permanente esperança de que o Brasil vai dar certo. 

Se deu/está dando certo no futebol e na Copa, por que não continuará dando certo em tudo mais?

*Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: brasil, Copa, favoritas, forte, fraco, gols, juventude, título

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