Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Selvino Heck

Não verei outra Copa no Brasil

Selvino Heck*

Os índios pataxós recepcionaram/abraçaram os jogadores alemães em Santa Cruz de Cabrália, Bahia. Nada mais simbólico do que é o futebol, e é uma Copa do Mundo. Ainda mais no Brasil, 64 anos depois de 1950. Nada melhor que tenham sido os pataxós a fazerem a recepção "oficial', com cantos, cocares, arcos e flechas no gramado de um campo de futebol. E na Bahia, onde aportaram os primeiros estrangeiros, europeus, portugueses. 

Estou me preparando de todo jeito para esta Copa. Espiritualmente, mentalmente, emocionalmente, até porque não deverei ver outra no Brasil. Não sou nada novo, mas não era nascido em 1950. Minha primeira Copa foi a de 1958, sete anos de idade, Brasil campeão do mundo pela primeira vez. A gente escutava os jogos no radião lá de casa, Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, que ocupava quase metade da sala. Mas o som era potente e ecoava pela casa inteira. (Através dele também se escutava semanalmente dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre, os famosos discursos de Brizola no início dos anos 1960 e o padre Ângelo Costa, de quem mais tarde tornei-me amigo nas quebradas da vida, desancando Roberto Carlos e sua "e que tudo mais vá pro inferno"). 

A Copa de 1950, mesmo depois do pentacampeonato, nunca saiu do imaginário inconsciente de brasileiros e brasileiras. Uma única Copa acontecida no Brasil, perdida em casa para os uruguaios do pequeníssimo Uruguai, 200 mil torcedores no Maracanã lotado! Uma tragédia. 

1958 e 1962 foram quase um passeio, no futebol e no país, até porque o Brasil passava por momentos dourados. O desenvolvimentismo de Juscelino com a construção de Brasília, as Reformas de Base de João Goulart, as mobilizações sociais, a juventude estudantil na rua com os CPCs (Comitês Populares de Cultura), as campanhas de alfabetização conscientizadora de Paulo Freire, efervescência econômica (tempos do maior salário mínimo da história brasileira), social, cultural.  

Ser campeão numa hora e ambiente desses só podia ser alegria pura, orgulho nacional, especialmente após a tragédia de 1950. Mas não fomos campeões no Brasil. 

Brasil campeão em 1970, tempos duros, anos de chumbo, ditadura, os presos políticos, inclusive a presidenta Dilma, estavam em dúvida se torceriam pelo Brasil. Mas quando a bola rolou no México, aquele time fantástico, ninguém deixou de torcer pelo Brasil, mesmo denunciando as torturas, as mortes, os assassinatos e os exilados no mundo com saudades do Brasil e da pátria amada. Mas não fomos campeões no Brasil. 

Brasil campeão em 1994, o país dando os primeiros passos da redemocratização, mas entrando em ventos neoliberais na economia e na política, depois de um "impeachment" que parecia libertador, num futebol e num time quase burocráticos, sem brilho, como estava, aliás, o país. Mas não fomos campeões no Brasil.  

2002, desemprego, concentração de renda, explosão social, privatizações a torto e a direito, país em baixa estima, no fundo do poço, mas a Seleção Brasileira leva o caneco. Mas não fomos campeões no Brasil. 

2014, finalmente a sonhada Copa no Brasil, em nosso chão, na pátria amada Brasil. Brasil diminuindo a desigualdade, enfrentando a fome, a miséria, a exclusão social, Brasil do emprego quase pleno, da recuperação do poder aquisitivo do salário mínimo. E Brasil  e povo brasileiro querendo mais democracia, exigindo as reformas que não saíram nos anos 1960, os jovens na rua por políticas públicas de qualidade e com participação social e popular. 

Visto, como sempre fiz desde 1958, a camisa do Brasil. Até porque sempre gostei de futebol, desde o São Luiz de Santa Emília, o mais querido, passando pelo Grêmio de Futebol Portoalegrense, terminando na Seleção. Visto a camisa porque sou a favor da festa, da alegria, do Carnaval, de romarias, de samba, de música popular brasileira. Quero ver a hospitalidade brasileira espalhar-se pelo mundo, o seu jeito de ver a vida, a sua capacidade de amar, o seu riso, a sua alegria, as suas muitas culturas, como os pataxós recepcionaram os alemães, que gostaram, entraram na dança e se disseram muito felizes por entrarem no clima do povo brasileiro. 

Se o Brasil vai ser campeão? Não tenho como saber, mas tenho fé e esperança. Se todos os problemas vão estar resolvidos? Certamente não. Os aeroportos serão melhores, até porque os brasileiros pobres e trabalhadores têm todo direito de viajar com segurança e conforto. Haverá melhorias na infraestrutura das cidades, na mobilidade urbana, o turismo será estimulado, assim como a economia. Mas a grande desigualdade social e econômica, da qual somos historicamente campeões, continua, as reformas continuam sendo necessárias, a começar pela reforma política, as políticas  públicas deverão ser cada vez mais democráticas, assim como os serviços públicos de saúde, educação, segurança devem ser melhorados e ampliados. 

Não verei outra Copa no Brasil. Mais que a Copa, porém, estou vendo e ainda verei  um Brasil nação, com soberania, com igualdade econômica e social, com oportunidades iguais para todos os brasileiros e brasileiros, com justiça social e democracia. 

Viva o Brasil campeão do mundo! No futebol e em tudo mais.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da Republica.

Tags: alemães, Bahia, cabrália, csmpeão, Jogadores, pataxós

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