Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Selvino Heck

Mamãe

Selvino Heck* 

“Und dann eine gute Reise. Pass dich auf – Então, uma boa viagem. Te cuida!”: é a última palavra de mamãe Lúcia, 87 anos, parada na varanda que separa cozinha e o resto da casa, aquelas construções antigas e amplas, cinco quartos, sala, cozinha grande, em Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, toda vez que saio de casa para Porto Alegre, aeroporto, Brasília, para retornar sabe-se lá quando. O que, aliás, não é novidade. Saí com onze anos de casa para o seminário, para nunca mais voltar definitivamente. (Papai Léo, quando vivo, fazia a mesma coisa que mamãe; era seu jeito de dizer que gostava de mim, que pensava em mim e ficava esperando meu retorno para breve).

Na última vez que andei por lá, feriadão de Páscoa, Sexta-Feira Santa, mamãe me surpreendeu. Queria ter chegado antes do almoço, para o "chima", a "caipa" e os peixes pescados no açude ao lado de casa. Engarrafamentos na estrada, quando cheguei ela estava na sesta sagrada. Quando se levantou, estendeu-me a mão solenemente, que é a forma de nos cumprimentarmos, nada de abraços ou beijos, perguntei em alemão, que é a língua cotidiana em que nos comunicamos desde sempre: "Alles gut?" – Tudo bem? (fazia três meses que não nos víamos. Ela respondeu, me surpreendendo: "Biss jetze noch alles gut – Até agora tudo bem".

Não tive como não concordar. A razão estava com ela. "Até aqui tudo bem", para todas e todos nós, que construímos a cada dia a nossa vida e a felicidade. O futuro, só Deus sabe.

Mamãe é desses troncos antigos e fortes no meio da floresta. Nem ventos, nem tempestades, chuva, frio ou calor os abalam facilmente. Resistem, dando sombra, deixando animais correrem sobre seus galhos, plantas crescerem sob as frestas de sol que deixam passar, mas sempre olhando do alto o que está acontecendo e cuidando do que os cerca.

Criou nove filhos bem criados, todos vivos. Eu, o mais velho, tenho dez anos a mais que a irmã Elma, a oitava. Oito filhos em dez anos! E trabalhando na roça entre um parto e outro, no meio da gravidez, alimentando todos o tempo todo, com ajuda da tia Leonida que, até o fim da vida, continuou morando junto, na casa da avó.  Por essas coisas, penca de irmãozinhos atrás de mim, deixei de tomar leite aos cinco, seis anos. Afinal, o leite tirado das vacas todo santo dia tinha de alimentar todos e todas, e ainda precisava sobrar alguns litros para entregar para o leiteiro que passava diariamente na porta de casa. Era o único dinheiro certo no final do mês naqueles tempos, anos 1950, 1960. Nunca mais tomei leite na vida.

Mamãe trabalhou duro a vida inteira. Santa Emília é uma pequena comunidade onde todos são agricultores familiares. Nos meus tempos de criança, plantava-se e colhia-se fumo, até hoje a principal cultura do município de Venâncio Aires, também conhecido como a Capital Nacional do Chimarrão. Depois, houve o tempo da soja. Mais adiante, criação de porcos. Finalmente, há algumas décadas, até hoje, o predominante são frutas e verduras, vendidas por meus irmãos mais novos às quartas e sábados na Feira do Produtor no centro da cidade, sem nunca deixar de ter galinhas, alguns porcos e algum gado para as necessidades de casa e madeira suficiente para alimentar o fogão a lenha nas noites pesadas de inverno.

Toda vez que ando por lá, eu e meu irmão mais novo insistimos que ela precisa movimentar-se mais, caminhar, fazer mais exercícios. Ela retruca dizendo que continua caminhando para os galpões, que vai recolher os ovos todos os dias, ainda cozinha, costura roupas, faz os serviços de casa. (Resistiu até onde pôde até concordar que uma vez por semana venha uma pessoa amiga da família fazer uma faxina geral da casa, que é muito grande).

Aos sábados, quando chego perto do meio-dia, ela já leu o jornal local, Folha do Mate, descobriu as fotos dos conhecidos, sabe dia e horários da missa. Minha tarefa e compromisso sagrados: fazer a caipirinha, bem doce, para ela tomar seus goles. (Toda vez que conto esta história ela "briga" comigo e me xinga, como toda mãe xinga o filho mais velho)   

E se dedica ao Totó, que sucedeu o Fiel, fica controlando seus passos, se está dormindo, se está amarrado de noite, se late ou não. E fica feliz com o neto Gabriel, de oito anos, que veio enfeitar a casa, corre para cima e para baixo, sobe no trator e no caminhão, e faz a alegria da avó, enquanto os outros netos e netas estão espalhados pelo mundo.

Outro dia, fomos juntos visitar a tia Matilde, irmã de mamãe, que vai fazer 97 anos agora em maio. As duas ficaram conversando sobre o passado, mamãe olhando as cores das unhas da tia Matilde e contando que papai não deixava que ela pintasse as unhas e os lábios. E ambas riam das histórias de quase um século, tudo sempre em alemão.

Felizes os que temos mamãe viva. Felizes também aqueles e aquelas que a têm na memória e no coração. Feliz Dia das Mães para elas e para todas e todos nós!

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: almoço, felicidade, páscoa, sexta-feira santa, viagem, vida

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