Jornal do Brasil

Sábado, 22 de Novembro de 2014

Selvino Heck

Toda vida é sagrada 

A vida é um bem sagrado e deve ser protegida de todas as formas. Qualquer vida. A do ser humano, a dos animais, a das plantas

Completei 63 anos faz poucos dias. Estou naquela fase da vida em que mais se conta o que e quanto ainda falta, menos o que ainda está por vir e acontecer ou o que já passou. Na Presidência da República é praxe fazer exames médicos no mês do aniversário para saber como andam as coisas e a saúde. A última palavra do médico que olhou números e resultados foi "você está muito bem". Seguiram, como sempre, as recomendações e promessas de cada aniversário ou início de ano: caminhar mais, praticar algum esporte, cuidar da comida e do trago, dormir bastante, trabalhar menos, curtir as coisas boas, conviver com a família e os amigos. Em geral, porém, a vida segue sua rotina, os anos vão se acumulando, as recomendações e promessas ficam na saudade.

Nesta idade, a notícia e informação do médico são de ficar alegre e feliz. Significa que dá para tocar em frente, que há ainda um tempo previsível de poder dedicar-se a transformar o mundo, construir sonhos, visitar utopias de uma sociedade justa, fraterna e igualitária.

Mas aí abro o jornal, ligo a televisão, navego na internet e vejo a história do Bê, Bernardo, o menino de Três Passos, Rio Grande do Sul, cidade de grandes lembranças de muito tempo atrás, seu cruel assassinato, e você quase descrê da vida e do ser humano. Ou escuta a história do DG, Douglas, assassinado quando tentava escapar do tiroteio, ou lembra da história do pedreiro Amarildo, que sumiu e ninguém mais viu, ou da Cláudia, aquela mulher arrastada e morta no camburão da polícia, e você quase perde a esperança.

A vida é um bem sagrado e deve ser protegida de todas as formas. Qualquer vida. A do ser humano, a dos animais, a das plantas. Mas principalmente o ser humano, as pessoas, qualquer pessoa.

Não é o que está acontecendo todos os dias: a banalidade dos fatos do dia a dia, a sucessão de mortes, a crueldade, os tiros que matam inocentes a torto e a direito, sem justificativa, sem explicação, nem antes nem depois.

A sociedade do comércio, do consumo e do espetáculo semeia valores que se desencontram com a solidariedade. Um gesto simples e espontâneo de um jogador de futebol, Daniel Alves, que descasca a banana e a come antes de chutar a bola do escanteio, justamente louvado em todo mundo, de imediato é transformado em ganhar dinheiro, ao invés de ser cantado como gesto de humanidade contra o racismo. Alguém se aproveita para vender camisetas, outro para fazer propaganda de algum produto. Não é a vida que está importando. Não é o racismo que está sendo repudiado. É o quanto alguém vai ganhar, lucrar, aumentar a conta no banco, enriquecer.

Toda vida é sagrada. A vida de todos os Bês, de todos os Amarildos, de todos os DGs, de todas as Cláudias, de todos os indígenas, de todos os líderes sindicais e comunitários que defendem a vida dos outros, de todos os sem-terra, de todos os mendigos, de todas as crianças, de todos os jovens negros e de periferia.

Estou fazendo 63 anos, estou vivo, estou bem. Não queria, não quero, não espero, não posso me acostumar. Vidas são para brilhar, vidas são para acontecer, vidas, a da planta, a da árvore, a dos bichos, a dos seres humanos, são para envelhecer com dignidade, tendo vivido tudo que sonharam, tendo cumprido todas as suas promessas, tendo deixado rastros de alegria, felicidade, amor. Jamais, rastros de dor, de discriminação, de preconceito, de sofrimento, de exclusão.

Não basta chorar. Não resolve lamentar, ficar triste. Em tempos de Copa do Mundo, quando as alegrias e as paixões se encontram na beleza do gol, na convivência das pessoas de todas as partes do planeta Terra, é preciso abrir um tempo de reflexão e perguntar-se sobre a vida, a de cada um, e a vida em comum. É tempo de caminhar junto, não apenas lado a lado. Tempo de olhar o outro, a outra, reconhecer-se nele, nela, tempo de dizer somos todos companheiros de jornada e queremos chegar unidos no seu final, tendo vivido e sorvido todas as gotas de beleza, caminhado todos os passos possíveis, rido todos os risos, amanhecido nas manhãs de sol e adormecido nas noites de ternura, sem ver o sorriso apagado antes do tempo, sem ter o sangue derramado antes do previsto, sem aceitar a vida ceifada antes da hora.

Toda vida é sagrada. Cuidemo-nos. Cuidemo-nos uns aos outros. Cuidemos da vida. Cuidemos da esperança e do futuro. 

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: animais, médico, Plantas, SAÚDE, ser humano, Terra

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.