Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Selvino Heck

A consciência do mundo 

Selvino Heck*

Citei outro dia três livros que fizeram minha/nossa cabeça nos anos 1970: Cartas da prisão, de Frei Betto, As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, e Jesus Cristo Libertador, de Leonardo Boff. Esqueci pelo menos dois fundamentais, entre outros tantos: Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez.

Há dois momentos mágicos na história da América Latina. Um representado pela literatura, especialmente a de língua espanhola, e pela música, em especial a de língua portuguesa, nos anos 1960/1970, outro pela política, esta em todo continente latino-americano, nos anos 2000.

Quem estava na rua e na luta na segunda metade do século 20 contra as ditaduras leu Pedro Páramo, de Juan Rulfo, os poemas libertários de Neruda e Thiago de Melo, Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, e, principalmente, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Eles falam de um povo e de um continente com sua altivez, coragem e mistérios. E inspiraram a buscar compreender a América Latina, a história do povo a partir dos dominados, as formas de resistência e organização, as profundezas da alma e pensamento de um continente.

Quem não cantou a plenos pulmões, e continua cantando hoje como Joan Baez há poucos dias, Caminhando e Cantando do Vandré: Vem, vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer? Quem não cantou os hinos de Chico, Milton, Gonzaguinha, Ivan Lins, Belchior, João Bosco e Aldir Blanc? E não chora hoje com O bêbado e a Equilibrista na voz de Elis, lembrando Betinho o irmão do Henfil? E com Mercedes Sosa entoa emocionado Graciasa la Vida, de Violeta Parra, e Te recuerdo Amanda, de Victor Jara, que teve as mãos cortadas e foi assassinado pela ditadura chilena? Tudo isso e muito mais nos anos 1960/1970, em meio às ditaduras e à repressão, alimentando a resistência popular. 

A presença política da América Latina começou com a revolução cubana nos anos 1950. O temor de que se espalhasse fez com que a direita e as elites nacionais e internacionais implantassem ditaduras em quase todos os países latino-americanos. Medo e reação feroz a Che, Fidel e aos guerrilheiros que poderiam descer das montanhas, medo da América Latina e do que ela podia produzir de história e esperança para o mundo.

 A primavera chilena de Salvador Allende deu alento nos anos 1970, assim como serviu de refúgio a quem precisava fugir do Brasil.

Depois, a revolução sandinista na pequena Nica empolgou e inspirou todas e todos.

 A América Latina finalmente começou a deixar de ser satélite dos ‘Amigos do Norte’ para ser esperança de um mundo em crise no final dos anos 1990 e anos 2000. À luz da história não é pouca coisa o que vem acontecendo. Lula, Chávez, Nestor Kirchner, Evo Morales, Michelle Bachelet, Rafael Correa, Dilma Rousseff, Pepe Mujica atravessaram fronteiras. Fizeram e fazem história e atravessaram fronteiras porque são fruto das histórias contadas, dos hinos cantados, das lutas do povo, da perseguição a lutadores e lutadoras, das mobilizações que nunca pararam, nem no exílio ou na clandestinidade.

É como disse Flávio Loureiro Chaves: “Nos anos 1970 a consciência do mundo residia na América Latina, naqueles escritores (e, grifo meu, músicos, artistas e letristas) que sabiam ler a crônica do continente pelas lentes do maravilhoso, do fantástico, traduzido numa determinada expressão simbólica. (...) Nesse momento, parece haver uma condensação de fatores que vai colocar a literatura latino-americana como consciência do mundo” (A América Latina como consciência do mundo – Zero Hora, Cultura, 19/04/14).

A América Latina saiu do gheto histórico. A América Latina fala para o mundo. Deixou de ser quintal. A América Latina descobriu-se América Latina, com suas cores, suas luzes, seu povo, suas dores, suas mil identidades, seus cheiros. E apresenta-se com projetos que iluminam o futuro e trazem esperança para outras latitudes do planeta Terra.

A América Latina é hoje a consciência do mundo. Fala de sonho, de utopia, do que pode vir a ser, de um outro mundo possível, urgente e necessário, do realismo mágico que Gabo expressava com palavras e imagens, Chico e Milton proferiam em versos, Mercedes e Elis e suas vozes poderosas cantanvam em Todo cambia, Hermano dame tu Mano, Cálice, Canção da América.

A consciência do mundo faz sair da pobreza e assumir sua dignidade. Faz ser protagonista e sujeito de direitos. Faz ser povo e continente. Consciência do mundo é dignidade, autonomia, voz própria, soberania. Nas palavras da escritora Elena Poniatowska, ao receber há poucos dias o Prêmio Miguel de Cervantes em Madri, “antes de Gabo éramos os condenados da terra. Mas, com seus Cem Anos de Solidão, ele deu asas à América Latina. E é esse grande voo que hoje nos envolve e faz com que nos cresçam flores na cabeça”. 

Selvino Heck é assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: baez, beto, boff, elis, galeano, garcía márquez, henfil, vandré

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