Jornal do Brasil

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

Selvino Heck

1º de abril de 1964: a repressão (3)

Selvino Heck*

Não fui preso, a não ser circunstancialmente, para ser fichado no Dops gaúcho, não participei da luta armada, não era de grupos de esquerda. Era frade franciscano, da Teologia da Libertação de Gustavo Gutiérrez, da educação popular de Paulo Freire. Mas não escapei impune à ditadura civil-militar instalada em 1º de abril de 1964.

Publiquei um poema no mural da Faculdade de Teologia da PUC-RS, Porto Alegre, em setembro de 1973, golpe militar no Chile, em homenagem a Salvador Allende. Eis o poema : ALLENDE VIVE!/ Uma bala mata o homem./ Uma bala não mata a ideia./Os dias são muitos,/incandescentes./Ardem na poeira do tempo./Nada como as horas que se sucedem,/os minutos e segundos,/ as batidas do coração que abraçam milhões./Sonhos são para serem sonhados./ Sonhos iluminam o horizonte./Sonhos são eternos. Há um tempo para cada coisa./ Há um tempo para a morte./ Há um tempo para a vida./ Latino-americanamente,/sobrevivemos./ Brasileiramente, vivemos e ressuscitamos Allende”.

Através do poema conheci João Pedro Stédile, formamos um grupo que começou a atuar no movimento estudantil, tornei-me representante do Diretório Acadêmico da Faculdade de Teologia (Dait) e representante geral dos alunos da universidade junto á Reitoria. Resultado, segundo anotações do V Comar do Ministério da Aeronáutica em 09/07/1976, em transcrição literal: “O organizador do livro de comemoração dos 750 anos da morte de São Francisco é o frei SELVINO HECK que, em 21 de novembro de 1975, quando aluno do Instituto de Teologia e Ciências Religiosas da PUC-RS, foi punido com 30 dias de suspensão das suas atividades acadêmicas pelo padre URBANO ZILLES, diretor daquele Instituto, por publicar panfleto (órgão de divulgação, do D.A.), onde ridicularizava autoridades da Igreja, do governo, professores e a direção da PUC-RS”.

Em 24 de dezembro de 1975, véspera de Natal, fui chamado pelo reitor, irmão José Otão, e comunicado que não teria matrícula em 1976 na PUC, eu e mais três alunos da teologia: frei Hermes Miolla, Paulo Vidor e Nínive Freitas. Era a maneira mais suave de expulsão e de não aplicação do Decreto 477, então vigente: recusar as matrículas dos alunos para o ano seguinte. Houve muita repercussão, Diretórios Acadêmicos da PUC fecharam em protesto, mas a decisão não foi revertida.

Formei-me em teologia em 1976, porque os franciscanos resolveram abrir sua Faculdade de Teologia só para mim. Mas em agosto, uma semana antes de ser ordenado diácono nas vilas da Lomba do Pinheiro, onde os franciscanos atuavam, as vestimentas  compradas e provadas, veio a notícia: dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre, vetara a ordenação do diácono frei Selvino Heck.

O fato, além do choque, obviamente levou a uma mudança radical. O objetivo da vida, de ser padre, para o qual me preparara por décadas, estava impedido. Tinha acabado o sonho. Fui morar como frade franciscano nas vilas populares da Lomba do Pinheiro, atuar com Comunidades Eclesiais de Base (CEBS), movimentos populares e trabalhar para sobreviver. Fui dar aulas de religião num colégio de religiosas. Registra o V Comar do Ministério da Aeronáutica: “Pertence à linha ‘progressista’ do clero. Em maio/77 foi surpreendido quando distribuía panfletos do Movimento Estudantil no interior do Colégio Nossa Senhora da Glória – Porto Alegre. Era na época instrutor do Ceta (Centro de Treinamento para a Ação), do referido colégio. Na época, redigiu o poema Oferenda (cópia anexa)”. Resultado: a direção do Colégio Nossa Senhora da Glória recebeu uma ordem/orientação da Polícia Federal: ou demite este professor ou ele será preso dentro do colégio. Fui demitido em setembro de 1977.

Outro registro da mesma época; “Em 24 ago 77, Selvino Heck foi detido na Praça Argentina, em Porto Alegre, por promover desordens. Na ocasião, instigava os universitários a não recuarem da polícia”. Fui colocado na parte de trás de um camburão, levado ao Dops,  fichado e liberado no mesmo dia. Até hoje não encontrei a ficha nem cópia das fotos tiradas.

Fui considerado subversivo também por ser escritor. O Grupo Veredas publicou o livro de poesias Em mãos, em 1977. Transcrição das informações do Dops gaúcho encaminhadas ao SNI: “CONFIDENCIAL. Exemplares do livro de poesias denominado Em mãos, de autoria dos escritores Humberto Guaspary Sudbrack, Umberto Gabbi Zanatta, Dilan D’Ornellas Camargo, José Eduardo Degrazia, Selvino Heck, Cesar Pereira, juntamente com outros elementos que se se uniram a este grupo, entre os quais Sérgio Conceição Faraco, Horácio Goulart, Paulo Kruel de Almeida, Suzana Kilpp, Aldir Garcia Schlee e Airton Aloísio Michels, estão sendo vendidos na LIVRARIA MISCELÂNEA, sita no Mercado Público. A apresentação é de Tarso Fernado Herz Genro, elemento pertencente à organização subversiva Ala Vermelha, do PCdoB. O seu lançamento oficial seria na sessão de autógrafos da Alfândega. O livro em questão traz conteúdo ideológico, com tendência esquerdista, daí se pode presumir tendo em vista a apresentação de Tarso Hernando Herz Genro”. Em tempo: Tarso Genro é hoje governador do Rio Grande do Sul e Airton Michels secretário de Segurança gaúcho.

Em 1979, fui convidado para ser professor de orientação religiosa do Colégio Anchieta, de Porto Alegre. Arquivos do Ministério da Aeronáutica: “O Serviço de Orientação Religiosa – SOR – do Colégio Anchieta (Porto Alegre), II Grau – 2º ano – tendo como titular o FREI SELVINO HECK, tem difundido doutrina contrária ao regime vigente, procurando inculcar ideologia que não a religiosa para o qual o mesmo estaria investido. A forma com que vinha ministrando o ensino de religião no dito colégio provocou considerável reação entre os pais dos alunos. O caso alcançou grande repercussão na opinião pública do Rio Grande do Sul e na imprensa, verificando-se manifestações em diferentes setores. No final do ano letivo de 80, a direção do Colégio Anchieta, pela insistente pressão exercida pela comissão representativa de pais contrários à linha pedagógica da escola, decidiu pelo afastamento do requerente”. Resultado final: em janeiro de 1981 fui chamado pelo diretor do Colégio Anchieta (eu estava em prédio ao lado, no Instituto Pastoral de Juventude, assessorando o Cajo (Curso de Assessores de Jovens), que me disse todo constrangido: “Teu caso foi levado para o padre Arrupe, superior geral dos Jesuítas, e ao Vaticano, e eu recebi ordens de te demitir”. Assim foi feito, sob protesto de alunos e de muitos pais, grande repercussão na imprensa local e nacional, demissão de professores em apoio, etc.

Junho de 1981, informe do Serviço Nacional de Informações: “PESSOAS LIGADAS À SUBVERSÃO NO RIO GRANDE DO SUL. Em anexo, encaminha-se para fins de arquivo relação das fichas contendo dados de qualificação, endereços e outros dados, das seguintes pessoas, em três ordens de prioridade, cujas atividades estão ligadas à subversão no Rio Grande do Sul”. Na prioridade 2, entre outros 82 nomes, estão Dilma Vana Rousseff Linhares e Selvino Heck.

O poema registrado como subversivo pelo SNI é Oferenda, escrito nos anos 1970: “Estou te apresentando, Senhor,/ os problemas do teu povo./Olha o lavrador/que vai todas as manhãs/ para a plantação./Contempla-lhe o rosto,/ os olhos cansados,/ a voz muda,/ o bater pesado do coração. Estou te apresentando, Senhor,/ os pedaços do teu povo,/ as costas vergadas,/ os ombros caídos/ duras mãos e duros pés,/ cercando o arado/ e a canga dos bois./ E não é tudo. O sol revela outras dores,/ Mais compridas e fundas./ O medo ronda cada dia;/ ninguém sabe se sobrevive./ A luta pesa sobre o corpo/ e mal se ousa abrir a boca/ e levantar a voz./ Te apresento, Senhor, a dor mais viva,/ o sangue correndo lentamente,/ o grito morto chorando escravo,/ o povo todo aprisionado,/ sem casa e sem esperança”.   

Eram os métodos da ditadura: perseguir, intimidar, reprimir, levar ao exílio, torturar, matar. Muitos e muitas sofreram muito mais que eu. Valem o registro e o conhecimento, para que nunca mais aconteça. Estamos todos vivos, ou melhor, nem todos e todas, construindo a democracia, a justiça.

Há mil outras histórias a contar, mas o espaço não permite. A vida e a luta continuam

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República;

Tags: democracia, dops, gutierrez, libertação, preso, vida. luta

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