Jornal do Brasil

Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Selvino Heck

1ºde abril de 1964: a consciência (2)

Selvino Heck *

                Comecei a descobrir a vida e o mundo na sua complexidade em 1971, com 20 anos. Hora e tempo de recuperar a alienação involuntária dos anos 1960.  Fui morar na comunidade franciscana de estudantes de teologia e filosofia da Rua Frei Germano, na capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, bairro Partenon. Era uma casa comum de moradia, que abrigava cerca de 15 frades, coisa nada comum para a época.  Íamos de Kombi todos os dias para o Seminário Maior de Viamão, curso de filosofia. Comecei a participar do Diretório Acadêmico Tristão de Ataíde (DATA), a publicar poemas no Caderno de Sábado do Correio do Povo, aprender a viver na cidade grande.

Um dos meus professores era o frei Cláudio Hummes, depois provincial franciscano, bispo de Santo André no tempo das greves do Lula, arcebispo de Fortaleza, cardeal e papável, um dos responsáveis de o papa Francisco ter escolhido este nome. Frei Cláudio Hummes, nas aulas de antropologia filosófica, foi o primeiro a me apresentar a diferentes visões de mundo, entre as quais a marxista.

A cidade grande, o acesso a informações, o convívio com pessoas, tudo fez mudar o pensamento, fez saber das coisas, compreendê-las: os freis dominicanos presos em São Paulo, os espaços em branco nas capas dos jornais por causa da censura, a resistência armada, as prisões, a cassação frequente de mandatos de parlamentares, a repressão, as perseguições,  as mortes, os assassinatos,  o exílio, a ausência de democracia. A ditadura, enfim, em toda sua crueza e crueldade. 

Neste tempo, havia uma experiência inédita e revolucionária. Em 1971, dois freis, Arno Reckziegel e Nilo Formentini, foram morar no meio do povo na Lomba do Pinheiro, um conjunto de vilas populares nos arredores de Porto Alegre e Viamão. Saem fora dos muros das casas paroquiais, das certezas dos rituais, do conforto. Acompanho a experiência e, depois de turbulências na vida e na política, acabo fazendo parte dela a partir de 1977. 

Em 1973, entro na teologia na PUC-RS. 11 de setembro de 1973, golpe militar no Chile, publico um poema em homenagem a Salvador Allende no mural da Faculdade. O poema é lido por um estudante de economia que estudava no mesmo prédio, chamado João Pedro Stédile. Conhecemo-nos, encontramos estudantes de outras Faculdades, formamos um grupo que organiza o movimento estudantil da PUC-RS, então de direita, o que terá grandes repercussões na minha vida e de muitos que participaram desta história. Acabo representante dos alunos no Diretório Acadêmico do Instituto de Teologia (DAIT) e representante geral dos alunos da Universidade junto à Reitoria.  

Muda a cabeça, muda o mundo. Dom Pedro Casaldáliga publica um documento sobre as dores da Amazônia em 1971: Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e marginalização social. Os bispos do Nordeste, profeticamente, dom Helder à frente, divulgam, em maio de 1973, um documento que é um grito: Ouvi os clamores do meu povo. A partir do Iº Encontro Latino-Americano de Bispos em maio de 1968, a Teologia da Libertação surge na América Latina, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) são a grande novidade, junto com as pastorais, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). A Igreja junto do povo, solidária com seu sofrimento, portanto contra a ditadura e a favor da democracia.

Três livros fazem minha/nossa cabeça. Cartas da prisão, de Frei Betto,  deram a dimensão política, ética e cristã/teológica dos que estavam na cadeia e sobreviviam física e espiritualmente. Era a Teologia da Libertação vivida na dureza da prisão, mas com fé e esperança. As Veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, traziam a dimensão da espoliação e da dependência histórica da América Latina, mas também a utopia latino-americana, com referências em Che, Fidel e a resistência do povo cubano. E da urgência da mudança, antes que todas as riquezas e o próprio povo fossem saqueados definitiva e irremediavelmente. Jesus Cristo Libertador, de Leonardo Boff, nos dava a dimensão humano-divina de Jesus. Eram, com a própria Bíblia, os livros que líamos, interpretávamos, rezávamos, as nossas bíblias do cotidiano e que nos orientavam no curso de teologia, na fé e nas práticas pastorais.

A Pastoral de Juventude, especialmente o Ceta (Centro de Treinamento para a Ação), um curso para jovens coordenado por irmãos maristas, forma militantes cristãos e lutadores. Organizamos o Curso de Base para jovens em três etapas. Rodamos o Rio Grande do Sul trabalhando com Grupos de Jovens, também fazendo sua cabeça e consciência. Mobilização social e conscientização à la Paulo Freire e Teologia da Libertação.

Os poemas publicados no Caderno de Sábado do Correio do Povo, principal jornal gaúcho, levam à aproximação com escritores gaúchos, formando uma Cooperativa, o Grupo Vereda, que lança um livro de poesia em 1977, Em mãos, poesias de denúncia da ditadura, da repressão, dos sofrimentos do povo, com amplo sucesso. Os jovens poetas denunciam e enfrentam a ditadura.

Minha conversão e consciência vão explodir e tornar-se definitivas a partir de 1977, depois de vários acontecimentos pessoais, que mudaram o curso da vida. Fui morar na Lomba do Pinheiro com frei Arno Reckziegel e outros frades. A luta do povo, a convivência diária com pedreiros, serventes de obra, domésticas, enfermeiras, trabalhadores que davam duro todos os dias, construíam suas próprias casas, mas não descuidavam dos outros, da comunidade, mudou definitivamente meu olhar. Inseri-me no trabalho de base: CEBs, pastorais, associações de bairro, oposições sindicais, luta por transporte público, escola, passagem barata, postos de saúde. Criamos um fundo de apoio à greve do ABC em 1979, Lula a grande referência, mesmo distantes mais de mil quilômetros.

A dimensão do dia a dia não era apenas a da denúncia da repressão, da falta de liberdade e democracia. Era sempre, junto e ao mesmo tempo, o anúncio do Reino, do sonho, da libertação, numa relação dialética, criadora e revolucionária.  Era luta, era formação, era organização do povo, tudo junto e ao mesmo tempo. Os anos 1970 eram para olhar o futuro, construí-lo e não ficar esperando o amanhã. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer":Caminhando, do Vandré, era um dos nossos hinos, cantado sempre por todas e todos em todos os lugares.

Baionetas, paus de arara, silêncio forçado, nada fez calar o povo e parar a história. As dores do povo, a falta de liberdade, mas também a esperança do amanhã acalentavam nossos sonhos e utopia de jovens que queriam mudar o Brasil, a América Latina e o mundo.-------

Tudo teve também um preço. Mas isso já é outra história.

Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: democracia, franciscano, liberdade, Mundo, seminário, viamão, vida

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