Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Selvino Heck

1º de abril de 1964: o Golpe (1)

Selvino Heck *

Eu tinha 12 anos, quase 13, no dia 1º de abril de 1964, e andava pelos amplos corredores do Seminário Seráfico de Taquari, Rio Grande do Sul, onde entrei em 1963. Saí direto da roça para a "cidade grande". Taquari tinha menos de 10 mil habitantes. Mas para quem saiu de Santa Emília, Venâncio Aires, morando numa pequena comunidade onde fazia pouco tinha chegado a luz elétrica, carro era artigo de luxo, tendo ido para a cidade uma ou duas vezes na vida, falando mais alemão que português, foi um acontecimento e tanto. Queria ser padre, com tudo que isso significava naquele tempo: sair das colônias, estudar, servir o povo como franciscano, ser alguém na vida, na compreensão de um guri dos anos 1960.

Dois acontecimentos marcaram o segundo semestre de 1963, repercutindo diretamente nos seminaristas em Taquari (e se repercutiram fortemente ali, repercutiram também nos católicos em geral): a vinda do padre Patrick Peyton ao Brasil e o assassinato do presidente Kennedy, primeiro presidente norte-americano que era católico.

Padre Peyton era um padre católico irlandês, da Congregação de Santa Cruz, pároco de Hollywood e fundador da Cruzada do Rosário em Família, movimento autorizado pela Igreja que visava unir as famílias em torno da oração. O slogan da Cruzada era Família que reza unida permanece unida. Segundo Hugh Willford, a visita do padre Peyton ao Brasil em 1963 teve também um sentido de pregação anticomunista e contou com o apoio da CIA, no contexto da Guerra Fria. Antes do Brasil, o evento-piloto da Cruzada foi em La Serena, Chile, em 1960, e custou 20 mil dólares, financiados pelo multimilionário católico de direita J. Peter Grace, que tinha interesses comerciais na América latina. Depois, padre Peyton esteve no México, em Caracas, Venezuela, onde atraiu 600 mil pessoas, depois Bogotá, Colômbia, com 1 milhão de pessoas e, finalmente, o Brasil.

Escreve Hugh Willford: “A Cruzada tinha desenvolvido em 1962 uma técnica de evangelização chamada Missão Popular, que envolvia o recrutamento local de técnicos que viajavam com equipamento para mostrar filmes religiosos feitos na Espanha, em projeções ao ar livre, com comentários de catequizadores laicos. À técnica foram acrescentados efeitos especiais espetaculares, desenvolvidos para apelar à população dos centros urbanos, como Rio de Janeiro, onde a famosa estátua de Cristo, no Corcovado, foi decorada com um rosário iluminado de 30 metros e uma cruz de sete metros de altura. Quando padre Peyton pregou na cidade, em 16 de dezembro de 1962, 1,5 milhão de brasileiros vieram ouvi-lo”. Padre Peyton participou da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em março de 1963.

A Cruzada aconteceu em Taquari no segundo de 1963, os filmes foram vistos por todos, houve grandes mobilizações na rua. E John Kennedy, o presidente popular, o católico de descendência irlandesa, é assassinado na mesma época. Comoção geral no seminário, lembro do nosso choro no pátio largo. Era como se alguém de casa tivesse sido assassinado.

Era este o espírito e o clima, antes e quando aconteceu o Golpe em 31 de março/1º de abril. Nos corredores do seminário, os freis ligaram o rádio, e a voz de Carlos Lacerda ribombava nos corredores: “O comunismo está chegando, é preciso prevenir-se contra ele”. Comunismo, por óbvio, nesta época, tempos de Guerra Fria, era o diabo, o demônio em pessoa, o que de mais ruim podia acontecer para as pessoas, o povo e o Brasil.

Adolescentes, nossas lutas eram internas. Os sonhos do cotidiano ligavam-se, além da preparação para ser padre, a democratizar as relações com os freis, revoltas sobre aulas e matérias.  O mundo pouco entrava no seminário. Minha maior manifestação política, além de começar a escrever, especialmente poesia, e coordenar o jornal mural O Observador, foi um texto, de 1968 — sim, 1968 — sobre a Primavera de Praga, condenando a invasão russa da Checoslováquia (de novo, o perigo vermelho). Eu estava então no segundo ano do assim chamado científico, enquanto o estudante Edson Luís era assassinado no Rio, houve a Passeata dos Cem Mil, o AI-5 na porta, prisões, torturas, assassinatos, exílio. Pouco ou nada disso atravessava as grossas paredes do Seminário Seráfico. E no mesmo segundo semestre de 1968 realizou-se em Medellin, Colômbia, a profética II Conferência dos Bispos da América Latina — A Igreja na presente transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II —, base da Igreja progressista e da Teologia da Libertação.

A cada 7 de Setembro, os seminaristas marchavam nas ruas de Taquari, exaltando a pátria. Eu tocava, mal, trombone na banda do seminário. Marcante mesmo foi uma visita do taquariense e presidente marechal Costa e Silva à sua terra, em 1969, Festa da Laranja e do Mel. Foi-lhe oferecido churrasco debaixo dos eucaliptos do seminário, nos fundos do campo de futebol. Nós, jovens seminaristas, disputávamos quem chegaria mais perto do presidente para servir-lhe carne assada. Éramos os serviçais da solenidade festiva. Em fotos do evento, aparece, ao lado do ditador, na sombra das árvores frondosas, dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre.  

Terminei o ensino secundário em 1969, tornei-me noviço franciscano em 1970, no Seminário São Boaventura, em Daltro Filho, então município de Garibaldi, Rio Grande do Sul. O acontecimento do ano, além de muita oração em preparação aos primeiros votos de franciscano — pobreza, obediência e castidade —, e de ter a tarefa de cuidar do chiqueiro e da criação de porcos, foi torcer pelo Brasil campeão da Copa do Mundo no México, primeira vez ao vivo na televisão. Em 1970, minha primeira eleição. Para não desmentir a história, dividi meus votos (eram eleitos dois senadores). Votei em Daniel Krieger, líder católico indicado pelos vigários, da Arena, partido da ditadura, e em Paulo Brossard, do MDB, de oposição. Foram eleitos Daniel Krieger e Tarso Dutra, ambos da Arena.

A consciência foi vir em seguida, a partir de 1971, na capital, Porto Alegre, estudante de filosofia no Seminário Maior de Viamão. Mas essa já é outra história, a ser ainda contada.

* Selvino Heck é assessor especial da Presidência da República.

Tags: dom scherer, padre peyton, roça, seminário, venâncio aires

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