Jornal do Brasil

Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Selvino Heck

Irmãos, irmãs ou mercadoria

Selvino Heck*

“Volta para a selva, seu negro macaco, ladrão, safado, imundo. Temos que matar todos, seus negros sujos. Márcio Chagas, tu é a escória do mundo, seu lixo, mal intencionado”. Assim o juiz de futebol Márcio Chagas da Silva foi recepcionado num jogo de futebol em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul. O jogador Arouca do Santos também sofreu  ofensas racistas em Mogi Mirim, São Paulo, assim como o jogador Tinga, em jogo do Cruzeiro de Minas, no Peru.

O racismo no Brasil, explícito ou disfarçado, não é nenhuma novidade. Assim como o preconceito. E muitas vezes se expressa em horas de comoção, quando não se consegue reprimir os sentimentos, ou em meio a multidões, onde os personagens se escondem no meio de outras pessoas. A escravidão brasileira, a mais longa de todas as escravidões, a que acabou mais tarde (pelo menos a formal e pública), deixou marcas profundas, encravadas na sociedade, na convivência diária, nas relações humanas e sociais. Como disse o jogador Tinga: “Preconceito é coisa que vivo em todos os momentos. É geral, e não é só o meu caso. Para quem nasce pobre, como eu, e negro, o maior preconceito é o social. A minha esposa é branca e é casada comigo há 18 anos. As pessoas olham para ela e olham para mim de um jeito diferente. No Brasil, a gente fala de igualdade, mas esconde o preconceito. A gente fica fingindo que todos são iguais”.

A Campanha da Fraternidade/2014, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Igrejas cristãs na Quaresma, tem muito a ver com estas manifestações racistas e preconceituosas em estádios e é absolutamente oportuna. Seu título é Fraternidade e tráfico humano e seu lema É para a liberdade que Cristo nos libertou(Gl, 5,1).

E há uma feliz coincidência. O filme vencedor do Oscar/2014 é 12 anos de escravidão, contando a história de Soloman Northup, um negro livre sequestrado nos Estados Unidos em 1841. Vendido como escravo, Soloman é obrigado a trabalhar durante 12 anos nas plantações do estado de Louisiana. Soloman não era escravo. Era homem livre como os demais brancos. Sabia ler e escrever, coisa que muitos brancos na época não sabiam. Não realizava trabalhos braçais como os escravos, era músico profissional. Mesmo assim, foi raptado e vendido como escravo, do mesmo jeito que os demais africanos que vinham para os EUA como escravos.

O texto-base da Campanha da Fraternidade diz: “A sociedade escravocrata legou ao Brasil, pós-Lei Áurea, uma estrutura que relega grande parte da população ao sofrimento da marginalização. (...) O combate a preconceitos e à discriminação nas mais variadas esferas deve integrar as ações de enfrentamento ao tráfico humano, pois eles dificultam o empenho de maior número de pessoas e organizações na superação desse crime”.

O tráfico humano, em 2014, pleno século 21, não é um problema menor. Para o papa Francisco, o tráfico de pessoas é uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas. Ele aparece e acontece através da exploração no trabalho — trabalhadores bolivianos e peruanos —, no tráfico para a exploração sexual — não só mulheres, também homens —, para a extração de órgãos, tráfico de crianças e adolescentes — roubo e venda de crianças para serem adotadas. Segundo disse dom Leonardo Steiner, secretário geral da CNBB, no lançamento da Campanha,estima-se que o tráfico humano envolva R$ 65 bilhões por ano.

Racismo, preconceitos, assim como o tráfico humano, não são, portanto, coisas do passado ou resíduos de uma sociedade colonial. Lúcio Centeno, do Levante Popular da Juventude e da Rede de Educação Cidadã, escreve em Acordando no Alabama dos anos 50: “Na sociedade brasileira recorrentemente emergem fatos que questionam a existência de uma igualdade jurídica entre brancos e negros, para não falar em uma igualdade ontológica (entre "humanos" e "subumanos" — ou macacos, grifo meu, como gritam e cantam torcedores nos estádios). As reiteradas denúncias de existência de trabalhadores vivendo ainda em situação análoga à escravidão são o exemplo mais óbvio dessa diferenciação. O caso do desaparecimento do pedreiro Amarildo no Rio de Janeiro tornou-se símbolo de uma prática policial bastante difundida nas periferias brasileiras, o tribunal de rua. Nestes 126 anos de abolição da escravidão, o processo de estratificação social se complexificou cada vez mais. O desenvolvimento capitalista em nosso país não suplantou uma estrutura social racializada. Pelo contrário, acoplou-se nela para enrijecer-se”.

O jogador Arouca disse belas palavras: “Tenho muito orgulho da minha origem africana, que o sujeito tentou usar para me ofender, dizendo que devo procurar alguma seleção da África, dando a entender que um negro não serve para defender o Brasil. Como se algumas das páginas mais bonitas da nossa Seleção não tivessem sido escritas por negros como Leônidas, Pelé e Romário”.

Em tempos de Copa do Mundo, a Campanha da Fraternidade nos chama a atenção para o fato de que o ser humano é destinado à liberdade. Não é mercadoria. É irmã. É irmão.

*Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: áfrica, jogador, orgulho, origem, palavras, seleção

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