Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Selvino Heck

A chuva que é uma bênção

Selvino Heck

O povo do Ceará e o povo nordestino têm sofrido muito com a falta de chuva nos últimos tempos. Mas agora, em janeiro de 2014, uma bênção de outro tipo andou caindo no Cariri e sertão nordestino. 

Li a mensagem do papa Francisco aos participantes do 13º Intereclesial de CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) com o tema Justiça e profecia a serviço davida - CEBs, romeiras do Reino no campo e na cidade. Chorei. Chorei de felicidade, em primeiro lugar. Chorei ao lembrar de décadas de histórias, alegrias e sofrimentos, até  um papa de nome Francisco  saudar e abençoar os participantes de um Encontro de CEBs, dando-lhes sua bênção,  que cai como chuva sobre o semiárido brasileiro. Chorei ao ler as palavras do papa aos romeiros e romeiras reunidos em Juazeiro do Norte, no Cariri, diocese do Crato, Ceará (primeira vez na história que um papa envia mensagem a um Encontro de CEBs): “Convido a todos a vivê-lo como um encontro de fé e de missão, de discípulos missionários que caminham com Jesus, anunciando e testemunhando com os pobres a profecia dos ‘novos céus e nova terra’, ao conceder-lhes minha bênção apostólica.”  

Em setembro de 1979, realizamos o 1º Encontro de CEBs do Rio Grande do Sul, em terras de Sepé Tiaraju, São Gabriel. Em 7 de setembro, os colonos que foram expulsos das terras indígenas de Nonoai, Norte do Rio Grande, ocuparam as fazendas Macali e Brilhante, Ronda Alta, inaugurando esta forma de luta pela terra e pela reforma agrária. Foi a primeira mobilização do que viria a ser, mais adiante, o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Lembro até hoje a manhã do dia 7 de setembro, Dia da Independência, quando, de manhã, na sala onde se realizava o encontro, foi dada a notícia para todas e todos. Alegria geral. Parecia uma bênção para as CEBs, que então estavam dando os primeiros passos de organização, unindo fé e realidade, Evangelho e vida nas terras gaúchas. 

Lembrei-me, agora, janeiro de 2014, dos grupos de base e de reflexão da Bíblia que reuníamos nas casas das famílias na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre, nos anos 1970/1980, para refletir sobre o Evangelho, a ligação da Boa-Nova com a vida, da fé com a realidade, sobre o Reino que estávamos construindo e que haveria de chegar. Saíamos das reflexões animados na fé e na luta, para ir na Associação de Bairro e lutar por água, postos de saúde, transporte de qualidade, escolas e creches, salários dignos, democracia. 

Atuávamos então quase na clandestinidade, tanto em tempos de Igreja Católica quanto em termos de sociedade. Eram tempos de ditadura. Relatório da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, remetido ao Serviço Nacional de Informações (SNI), diz o seguinte: “Data de emissão: 22/04/1983 - Assunto: VI Encontro de Comunidades Eclesiais de Base da Arquidiocese de Porto Alegre/RS. Texto: Com a presença de doze grupos de vinte participantes cada um, realizou-se em 19 e 20 de abril, no salão paroquial da Vila São Pedro, Porto Alegre, RS, o VI Encontro de CEBs. Na ocasião foi analisada a realidade através do tema Povo Unido, Semente de uma nova sociedade, chegando-se ao consenso de que o esforço pela organização popular seria o caminho a ser trilhado para melhorar as condições de vida da população. Na abordagem dos assuntos, os presentes, orientados por ‘animadores pastorais’, fizeram uso do método de análise preconizado por Puebla – Ver, Julgar, Agir. Entre os problemas levantados, ‘que mais inquietam a classe trabalhadora’, foi salientado o do salário mínimo (baixos salários). No estudo das causas e consequências dos problemas (Julgar), os presentes concluíram que ‘todos os membros da nossa sociedade devem ter os mesmos direitos, sem diferenças (sociedade igualitária e fraterna). Após as discussões quanto à ação a ser desenvolvida (Agir), para fazer frente às ‘injustiças contra os pobres’, baseados nos princípios da Teologia da Libertação e com o uso de estratégias de luta não violenta, os participantes do encontro decidiram que ‘a organização e a união dos trabalhadores é  a única saída que temos para buscar uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária, onde não existirão os extremos de riqueza e de pobreza”. 

1983, tempos de ditadura. 2014, tempos de democracia. Os participantes do 13º Intereclesial em Juazeiro do Norte, Ceará, escreveram na Carta ao Povo de Deus: “A esperança foi fortalecida. A perseverança e a resistência na luta foram confirmadas. O compromisso com a justiça a serviço do bem viver foi assumido. A vivência comunitária no terreiro do semiárido renovou nosso acreditar. Na circularidade do serviço, do canto, do testemunho, reafirmamos  o compromisso de ser CEBs: Romeiras do Reino, profetas da justiça que lutam pela vida, a serviço do Bem Viver, sementes do Reino e da sua Justiça, comunidades profetas  de esperança e da alegria do Evangelho”.  

É de chorar, olhando para trás, e relembrar os encontros de CEBs dos anos 1970/1980, monitorados pelos serviços de segurança e pelo SNI, sua esperança e suas conquistas. É de chorar, olhando para a frente, para o futuro com esperança, com fé, ainda no esforço de construir o Reino da Justiça, da fraternidade e da igualdade. É de chorar lendo o papa afirmar que “as CEBs trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam a Igreja. Todos devemos ser romeiros, no campo e na cidade, levando a alegria do Evangelho a cada homem e a cada mulher”. 

Imagino a alegria dos 5 mil participantes do 13º Encontro Intereclesial, irmanados no “testemunho do padre Ibiapina e do padre Cícero, da beata Maria Madalena do Espírito Santo Araújo e do Beato São Lourenço  e da memória da palavra de dom Hélder Câmara, a se fazer ouvir: Não deixem a profecia cair! Não deixem a profecia cair!”.  

A chuva, que é bênção, caiu. E fez brotar sementes, flores e frutos, corações e mentes.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: cariri, ceará, cebs, nordestino, povo, sertão

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