Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Selvino Heck

2014: o tempo voa

Selvino Heck

O fato mais importante em 2014, ao contrário do que a maioria pensa, não será a Copa do Mundo, a realizar-se de novo no Brasil depois de 64 anos, ou a eleição para presidente, a sétima depois de 1989. Em 2014, completam-se 50 anos do golpe militar de 1964. 

1964 foi um divisor de águas, num país com uma história de democracia frágil, quase inexistente. A República foi proclamada de cima para baixo. No Brasil, até 1934, as mulheres, metade dos brasileiros, não votavam, muito menos os analfabetos, grande parcela da população, e na República Velha só votavam os que tinham propriedade. Em 1948, os partidos de esquerda, que existiam há apenas três anos, foram colocados na ilegalidade, e só puderam voltar nos anos 1980. As centrais sindicais, proibidas, começaram a existir de fato em 1983 por força da mobilização dos trabalhadores. 

O golpe militar abortou uma democracia que começava a emergir nos anos 1960 e se afirmar, e a ditadura durou longos 21 anos. Hoje, 2014, pela primeira vez na história da nação brasileira, partidos políticos existem ininterruptamente por mais de 30 anos. Relembrar tudo isso em 2014, comemorar e fortalecer a democracia ainda relativamente nascente, são fatos políticos de não se esquecer (até porque as cassandras da direita continuam muito vivas). 

2013 vai marcar 2014 de forma especial. O povo foi às ruas, mesmo havendo recentes governos federais com inspiração popular, que fortaleceram a democracia, respeitaram os direitos do povo trabalhador, apostaram na cidadania e na participação popular. Como disse a presidenta Dilma na sua mensagem de Natal aos servidores: “As vozes dos que foram às ruas querem melhores serviços públicos, mais médicos, mais educação, mais transporte de qualidade, mais segurança. Cabe a todos nós, servidores públicos, responder a essas vozes”. 

A democracia não está pronta. Ela é jovem e está em consolidação. 2014, sem dúvida, será um ano importante. A Copa vai afirmar o Brasil ainda mais no mundo, país hoje respeitado, que espalha suas políticas e programas sociais para dezenas de países de todos os continentes. As eleições serão, de novo, um momento especial de debate e disputa de projetos de país e nação (ou ao menos se espera que assim seja). 2014 é o Ano Internacional da Agricultura Familiar, assim decretado pela ONU, momento especial num país onde 70% dos alimentos que vão à mesa de brasileiras e brasileiros vêm da agricultura familiar. Haverá um Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema político brasileiro. 

2014 deverá ser um ano para se pensar no futuro. As últimas décadas de democracia, de melhoria das condições de vida do povo brasileiro, em especial dos mais pobres e historicamente excluídos, colocam novos desafios e exigências. Poder consumir mais, ter casa, poder alimentar-se dignamente, ter emprego, renda e salário, ter serviços públicos de melhor qualidade não é suficiente. É preciso mais. 

Uma sociedade democrática só se sustenta se suas vozes são ouvidas. E estão sendo ouvidas, nas palavras da presidenta. Mas também só se sustenta se conseguir alimentar-se de utopias e valores correspondentes a essas utopias. A ainda terrível e vergonhosa desigualdade econômica e social, a criminalidade ainda tristemente presente precisam ser enfrentadas, e valores de justiça, solidariedade, cooperação, sentimento de comunidade, igualdade precisam dar um sentido de esperança ao povo brasileiro. 

Por isso, 2014, para além da Copa, das eleições, deverá ser um ano de consolidar a democracia, de afirmar a nação, de fazer do povo brasileiro sujeito de direitos, com direito a sonhar, com direito a construir a utopia, não apenas do ter, dos bens materiais, mas também do ser, do ser gente, do ser humano, do ser povo, do ser comunidade, do ser igual, sem discriminações de qualquer ordem, sem violência, ano de paz, ano de fraternidade. 

O tempo voa, é verdade. Por isso, é hora de agarrá-lo, de subir nas suas asas, de fazê-lo nosso, de todas e todos, da gente do bem, da verdade, da democracia. 

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: Copa, democracia, Eleições, golpe, MILITAR, Mundo, povo

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