Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Selvino Heck

Qunu, a aldeia da vida 

Selvino Heck*

Qunu é uma aldeia como tantas deste mundo. Esquecida, até dias atrás, longe de tudo. (Quase como minha Santa Emília, interior do interior do Rio Grande do Sul, onde tenho o quarto da casa de mamãe sempre reservado e um espaço garantido no cemitério). Segundo o jornalista português Mário Crespo, “a terra chama-se Qunu, no Transkei. Esta região da África é de uma beleza estranha. É no interior, praticamente sem florestas, e prolonga-se num imenso oceano de pastos verdes que ondulam até ao horizonte. Por todo lado há pequenos aglomerados de casas térreas imaculadamente brancas cobertas a colmo. Só há uma cidade, a capital provincial Umtata, que mesmo assim, em termos de dimensões europeias, não seria mais que uma vila. Nelson Mandela decidiu ir viver permanentemente em sua aldeia natal, Qunu. 

Quando alguém quer descansar de verdade, o melhor lugar é o cantinho da casa antiga da pequena aldeia onde nasceu. Lá estão as origens, as raízes mais fundas, as lembranças que acompanham a vida inteira. Lá estão o passado, o presente, o futuro.

Lá pode haver uma casa de tempos imemoriais. Lá está a laranjeira da qual se recolhiam os frutos, cuja sombra era o lugar da melhor soneca do mundo. Lá está a estradinha que conduz ao riacho dos banhos gelados e onde os lambaris faceiros fugiam dos anzóis e minhocas dos guris e gurias. Lá está o bosque que servia de esconderijo quando papai ou mamãe mandavam entrar e obrigavam a estudar. Lá está o potreiro do futebol de todos os finais de tarde. Lá está a escola, onde se armazenavam as primeiras letras e números. Lá está a igrejinha onde os salmos fluíam como um cântico de amor e alegria e que às vezes também servia de esconderijo. Lá está o campinho cheio de barro dos primeiros chutes e caneladas, pés descalços, na imensa vontade de viver e ser feliz. Lá está a árvore que servia de pinheirinho nos finais de ano, que papai tratava com todo cuidado e acompanhava cada centímetro do seu crescimento. Lá estão as pitangas, as goiabas, as ameixas, os pinhões, os figos, os abacaxis, os butiás, as bergamotas ao alcance da mão e do prazer de comer. Lá estão as vacas que dão o leite fresquinho todas as manhãs e as galinhas que põem ovos nos ninhos do quintal.

Lá estão o silêncio, as pequenas coisas que poderão tornar-se grandes, os prazeres maiores, o aconchego. 

Os compromissos da vida conformam-se na aldeia. Os sonhos primeiros são sonhados em Qunu. A aldeia faz nascer e levar valores e conhecimento para o mundo. A aldeia é o tempo, a aldeia é a história. 

Qunu é Ubuntu, esta palavra africana que significa humanidade, amizade, compaixão, solidariedade, perdão, irmandade, amor ao próximo, capacidade de entender e aceitar o outro. “Ter ou ser Ubuntu é lutar contra qualquer tipo de discriminação, ter cidadania ecológica, esforçar-se para melhorar a vida do outro, participar da vida do outro, respeitar a opinião alheia e não humilhar e oprimir. É ser e estar em sociedade, sendo humano e agindo e interagindo com outros seres humanos” (Fátima Reis). 

De madrugada, cinco da manhã, mãos sobre a barriga, no silêncio da noite, penso na aldeia Qunu, penso em Santa Emília: vejo rostos, vejo estradas de chão, fotos antigas, o horizonte. Penso o que foi, o que é, o que ainda será. 

Descansar na aldeia é o último passo de uma longa jornada. Como disse Mandela,  para ser feliz é preciso viver em coletividade, em harmonia com o que está à sua volta: Ubuntu. A aldeia, Santa Emília. A aldeia, Qunu.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da Repblica. 

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