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Sábado, 18 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Rio

Em cinco meses de intervenção, dados mostram que letalidade violenta cresceu em quase todo o Rio

Jornal do Brasil MARIA LUÍSA DE MELO (malu@jb.com.br)

Cinco meses se passaram desde que o presidente Michel Temer decretou uma intervenção federal no Rio de Janeiro, transformando o general Walter Braga Netto em “governador da segurança pública” do estado. A medida, no entanto, ainda não surtiu o efeito desejado de frear a violência, conforme mostram os índices do Instituto de Segurança Pública (ISP). Comparando os dados que compõe o indicador “letalidade violenta” de janeiro a maio deste ano, com o mesmo período do ano passado, contata-se que as mortes violentas subiram em quase todas as regiões do estado. Houve aumento de homicídios dolosos, lesões corporais seguida de morte, latrocínio e autos de resistência. 

No período de janeiro a maio deste ano, foram  registrados 3014 mortes em todo o estado, contra 2958 no ano passado. 

Uma análise dos números do Instituto denuncia uma explosão de mortes bárbaras no interior do Rio. Foram 827 casos deste tipo – 147 a mais do que no mesmo período do ano passado. Nesta região, este foi o ano com maior número de registros deste tipo desde 2003. O mesmo aconteceu com a região da Grande Niterói e Capital. A primeira teve crescimento de 26 casos, enquanto a segunda teve dez. A Baixada Fluminense, por sua vez, teve queda de 127 assassinatos.

Em fase mais recente da intervenção, militares patrulharam a cidade de Angra dos Reis, na Costa Verde

No topo da lista de delegacias com maior crescimento de mortes violentas está a 166ª DP (Angra dos Reis), no interior, com um salto de 46 para 80 mortes. Em segundo vem a 29ª DP (Madureira), com aumento de 18 para 51 casos. A 146ª DP (Guarus/ Campos), em terceiro lugar, cresceu de 55 para 88 casos, seguida pela 11ª DP (Rocinha): seus três casos de mortes violentas transformarem-se em 32. Da Grande Niterói vem o quinto lugar com a 71ª DP (Itaboraí), cujo registro de letalidade violenta aumentou de 56 para 84  casos.  

Morador de Angra dos Reis, o diretor artístico Davi Hadges, de 63 anos, conta que a população está sentindo na pele o que indicam os dados. Em fase mais recente da intervenção, que priorizou o combate à criminalidade fora da capital, Angra dos Reis foi priorizada por conta das constantes guerra entre facções. Mas as ações não parecem ter surtido efeito.“O crime não pára de crescer, sobretudo na periferia de Angra. Nas áreas mais centrais também há demonstrações de que somos reféns do crime. Há uma rua, no Centro, com a inscrição ‘apague o farol alto, assinado Comando Vermelho’”, conta Davi, que deixou a cidade litorânea há dois meses, depois de morar lá durante 40 anos. 

Leandro Nunes, morador de Campos. “Só na última sexta-feira, tivemos três mortos perto da minha casa. É notória a sensação de insegurança. As ocorrências nos levam ao terror. Um dos crimes que mais têm nos assustado são os assaltos à mão armada”, destaca.

Especialistas criticam estratégia 

Para o coronel da reserva Robson Rodrigues, ex-chefe do Estado maior da PM e doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), os dados comprovam que a estratégia de segurança pública continua equivocada. 

“Os baixos resultados da intervenção expuseram que a repressão sem inteligência não resolve nada. Cresceu o número de operações, mas não o de investigações. Há uma baixa taxa de elucidação de crimes”, critica. “Isso se confirma pelo plano estratégico da intervenção, que sequer cita a maior necessidade de investir em perícia”. Para o sociólogo João Trajano Sento Sé, do Laboratório de Análise da Violência, da Uerj, o crescimento de mortes após a intervenção não surpreende. “A abordagem da violência só com as ações militares não produz resultados desejáveis. Só se produz mortes”, detona.

Dinheiro não usado 

Apesar de o governo federal ter disponibilizado R$ 1,2 bilhão para gastos com a intervenção, só 8% do valor foi empenhado até agora. Isto é, R$ 97.400 foram reservados para uso. Deste montante, R$ 8 mil já foram efetivamente usados. 

Procurado através do gabinete da intervenção federal, o interventor Braga Netto não comentou o aumento do número de mortes. O gabinete também não informou com quê foram gastos os R$ 8 mil, nem porque um percentual tão baixo foi empenhado até agora.  



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