Jornal do Brasil

Sexta-feira, 22 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Rio

Dos 54 estabelecimentos comerciais da Rua da Carioca, 30 ainda resistem, com charme e criatividade

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

Ela já foi Rua do Egito, Rua do Piolho e Rua das Ciganas. Passou à Rua da Carioca em 1848, foi Rua São Francisco de Assis, Presidente Wilson e voltou a ser Carioca, em 1919, caminho usado pelos que iam buscar água límpida do rio de mesmo nome, proveniente da Floresta da Tijuca, no grande chafariz do largo vizinho, também chamado Carioca. Hoje, se um novo nome fosse introduzido para espelhar a crise vivida pela rua com seus 300m, no Centro do Rio, com quase tantas lojas fechadas (24) quanto as em funcionamento (30), poderia ser Rua da Resistência.   

A situação se agravou desde que o Opportunity Fundo de Investimento Imobiliário adquiriu, em 2012, 18 casarões que pertenciam à Ordem Terceira de São Francisco para fazer um shopping mantendo as fachadas tombadas do local. “A ideia para a rua é aumentar a frequência de consumidores e da sociedade carioca, com a sua recuperação como ponto histórico da cidade”, alega o grupo, que começou a cobrar um valor pelo aluguel que estaria inviabilizando a permanência de antigos comerciantes. Segundo o Opportunity, o projeto foi apresentado ao ex-prefeito Eduardo Paes, porém, a subsecretaria municipal de Meio Ambiente informa que ainda não abriu processo para licenciar o empreendimento. 

O arquiteto e urbanista Carlos Fernando Andrade, ex-superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), é categórico em relação ao plano: “Shopping é a negação do espírito de rua, sem janelas, sem relógio, todo voltado para dentro”. Ele atribui a importância da Carioca à manutenção de um conjunto razoavelmente homogêneo, de estilo eclético. “Este conjunto escapou do interesse da indústria imobiliária nos anos 30 e 40, deslocado para os bairros da Zona Sul. Desde os anos 60 o capital imobiliário do Centro parou de crescer. Depois, o interesse se voltou para a Barra da Tijuca. A seguir vendeu-se a ideia de que a cidade teria espaço para receber grandes empreendimentos corporativos. Hoje, o que acontece no Centro são um milhão de metros quadrados vazios. O Opportunity entrou nesse cenário ao investir numa área tombada, esquecida pelo capital imobiliário”, analisa Andrade. 

Castelinho mourisco, amarelo e bem conservado, que abriga há três anos a Casa do Choro, onde acontecem saraus três vezes por semana

Os que mantêm a resistência apelam para o charme e a criatividade, como o “Café do bom, cachaça da boa”, que mescla a boa qualidade dos produtos que lhe dão nome a um restaurante, com sebo, roupas e artesanato indianos antes comercializados em outras áreas do Centro. Lucy Galindo, 79 anos, formou-se em arquitetura, morou na Bolívia e, na volta ao Rio, com dois filhos, abriu uma livraria na Rua da Assembleia: “Depois, comprei este imóvel tombado, em 1972, que estava destruído, e o recupere”. 

Projeto do arquiteto Adolfo Morales de los Rios a pedido do rico português de Cintra, Conde de Sucena, o imóvel ganhou um plus depois que Yansel Galindo e sua mãe, Lucy, viajaram pela Europa em busca de inspiração. O resultado foi o acréscimo do bar e restaurante e das peças indianas, cheios de detalhes que remetem ao século passado, como o painel sépia copiado da Academia Brasileira de Letras, que reúne personalidades literárias a exemplo de João do Rio e Olavo Bilac. 

Nos tempos de revitalização da Carioca pela reforma de Pereira Passos, em 1905, a rua foi alargada com a demolição do Hospital da Ordem Terceira e ganhou cinemas e confeitarias, frequentados pela alta sociedade da época. O mesmo sobrado do Conde de Sucena tornou-se uma extensão da Confeitaria Cavé, ligada à loja da Rua Sete de Setembro por um portal hoje emparedado, e não demorou a surgir uma concorrente, bem em frente, a Confeitaria Lalê. “Havia a brincadeira: quem vê de cá, vê; quem vê de lá, lê”, recorda Lucy, que vê com bons olhos a instalação de um projeto como o do Opportunity para resgatar o público da Carioca.

Pérolas arquitetônicas 

O que resta de fascinante no endereço, remanescente dos áureos tempos, são dois cinemas em estilo art déco. O Iris, com três andares e 280 lugares, que parece saído de um museu, virou cinema pornô com shows de strip tease, algo que soa arcaico em tempos de internet, onde é possível escolher qualquer tipo de pornografia sem sair de casa. “O movimento é fraco. São cerca de 100 pessoas por dia, sempre os mesmos, poucos de terno, 99% homens. É raro entrar uma mulher”, relata o gerente Rodrigo Sampaio, há 15 anos no local. 

O mesmo não acontece com o ex-Cine Ideal, que conseguiu manter o glamour do passado, com uma casa de festas que “retrofitou” o imóvel no melhor estilo Belle Époque, cujo uso se alterna com o bistrô Leffiè. O prédio de 800 m², construído em 1905 pelo Visconde de Moraes, foi inaugurado em 1909 como cinema e em 1913 sofreu uma grande reforma, quando foi instalada a cúpula assinada por Gustave Eiffel, autor da Estátua da Liberdade, em Nova York, e da torre que levou seu sobrenome, em Paris. Era a grande novidade da época: abria-se durante as sessões para refrescar o ambiente. Hoje está desativada. O cinema pertenceu ao grupo Severiano Ribeiro e tornou-se uma disputada boate GLS, “Templo de house music”, por onde passou a cantora Anitta.   

Logo no início da rua, a primeira das quatro lojas que vendem malas, bolsas e mochilas, símbolo do variado e curioso comércio da rua, que sobrevive à crise econômica na cidade

Já o Bar Luiz, reduto da boemia carioca inaugurado em 1887 e desde 1927 na Carioca, sofreu em cheio os abalos da crise e, em particular, os fatores que afetaram a rua, com 60% de prejuízo nos últimos dois anos, o que o levou a reduzir os horários de funcionamento. Com uma recente mobilização dos clientes pelas mídias sociais, contudo, a casa ganhou novo fôlego. Entre os atrativos, a redução do preço da caldereta de chope de R$ 9 para R$ 6,50  a partir das 18h. “Voltou a fluir, houve um aumento de 40% na frequência. Agora, só fechamos após a saída do último cliente”, comemora Antônio Barbosa, por 20 anos funcionário da casa e, hoje, uma espécie de consultor. 

Comércio eclético 

Não poderia ser mais curioso e eclético — assim como o estilo arquitetônico predominante — o comércio da Rua da Carioca. Enquanto o Opportunity divulga um projeto arborizado do início ao fim, as árvores que existiam no local começaram a morrer depois que o tráfego foi invertido. É Michele Chistiane, aluna de cavaquinho da Casa de Choro, instalada há três anos no castelinho mourisco na Carioca, quem conta: “Só nesse quarteirão já se foram quatro árvores, os ônibus vêm em velocidade, batem e elas caem”. Pior, entretanto, é a falta de iluminação. “Contratamos seguranças nas noites de nossos saraus, mas é uma escuridão, fica muito perigoso”, afirma. 

No início da Carioca existem quatro lojas de malas, bolsas e mochilas. Há também duas agências bancárias e uma dos Correios, além de bares, lojas de material de construção, de roupa masculina e uma cutelaria. Sobre a Letícia Doces, destoa um prédio de nove andares, totalmente detonado, que exibe na janela do primeiro andar um anúncio para aumentar a potência sexual. 

Permanecem abertas seis lojas de instrumentos musicais, porém a mais icônica delas, a Guitarra de Prata, de 1887, frequentada por Noel Rosa e Pixinguinha, fechou as portas. Entre as remanescentes, pelo menos uma tem boas notícias. “Aqui há um fluxo interessante, inclusive de pessoas de fora do município. Houve até uma pequena melhora em relação ao ano passado”, contabiliza Ivan Paixão, gerente da Canto do Músico. Quase em frente, funciona um galpão que vai até a Sete de Setembro, batizado de Cláudia Flores. É um pequeno horto que comercializa plantas, flores, vasos e sementes provenientes de Holambra, em São Paulo. Segundo Cláudia Botelho, que ajuda a manter o negócio da família, a salvação são os serviços de ajardinamento e manutenção fornecidos a uma fiel clientela de condomínios, empresas e particulares. 

Já a Vesúvio, que acaba de escapar de despejo, se mantém a duras penas com a improvável mistura de guarda-chuvas e capas — quase inviabilizados pela invasão dos similares chineses oferecidos pelos camelôs — com guarda-sóis e cadeiras de praia. Segundo o proprietário, Armando Lauria Jr, o aluguel era depositado à Ordem Terceira da Previdência, e a ameaça veio do Opportunity. Hoje, sua maior queixa foi a suspensão, pela prefeitura, do estacionamento rotativo: “acabou com nosso sábado”. A prefeitura alega que a rua é uma BRS que prioriza o transporte público e que a redução de vagas ocorreu em todo o Centro da cidade. 

A Fundação Parques e Jardins promete enviar uma equipe ao local para verificar as condições de replantio das árvores. Sobre a iluminação, a Rioluz diz não ter encontrado irregularidades no serviço.

Um pouco de história 

A história da Rua da Carioca remonta ao ano de 1697, um caminho ao pé do Morro de Santo Antônio que atravessava o “areal”. As casas ficavam à direita, de frente para o convento. Em 1741, o convento cedeu uma faixa de terra do morro para a Ordem Terceira construir seu hospital. Após sua demolição, a rua passou a reunir do lado ímpar um conjunto de imóveis neoclássicos do tempo do segundo reinado e, do lado par, casarões da arquitetura eclética, hoje predominante. Em agosto de 1983, foi feito um tombamento provisório pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico (Inepac), que passou a ser definitivo em 1985. Em junho de 2013 o ex-prefeito Eduardo Paes criou o Sítio Cultural da Rua da Carioca. 



Tags: carioca, comercio, historia, lojas, rio, simbolo

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