Jornal do Brasil

Quarta-feira, 20 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Rio

Crise dos combustíveis diminui o número de pessoas nas ruas e nas opções de lazer e cultura

Jornal do Brasil ROGÉRIO DAFLON (rogerio.daflon@jb.com.br)

A Praça Mauá, palco de performances sobre patins e skates, fez um imitador de Michael Jackson ficar um tanto frustrado com o vazio daquele espaço tão costumeiramente repleto de pessoas. Em frente ao Museu do Amanhã, João Santos bailava com grandeza para uma plateia diminuta. “Vou descansar um pouco”, disse ele, bebendo água. “Estou vindo pela primeira vez aqui. Pensei que aqui ficava lotado”, disse ele, desligando o som e interrompendo a canção “Thriller” na interpretação do original. Mas, se o Michael Jackson carioca dançou, não foi por falta de talento. A crise do combustível afetou as opções de lazer e de cultura da cidade.  

A administradora Cláudia Tavares e a analista de sistema Diana Tavares estavam até mais à vontade para seus primeiros passos sobre rodas. “Estamos aprendendo. Ainda bem que tem pouca gente”, disse Diana. Na Região Portuária, no entorno da praça e dos museus do Amanhã e de Arte do Rio, os camelôs demonstravam um estado de espírito equivalente à fraca venda de roupas, cachorros-quentes e hambúrgueres, gourmets ou não.

Na Feira do Troca da Praça XV, recheada de antiguidades, Tarcísio Baronte olhava para trás, para apontar a Estação das Barcas: “Vem um público grande de Niterói passear na Praça XV, mas hoje, com a falta de combustíveis, as barcas não circularam”. As compras, acrescentou Baronte, caíram muito. A feira também foi prejudicada, porque alguns donos de espaços ali não tiveram como chegar. O cenário era um tanto triste ante aquelas barracas sem nada expor.

O imitador de Michael Jackson se exibe para ninguém ao som de “Thriller” em frente ao Museu do Amanhã, na Praça Mauá: “Estou vindo pela primeira vez aqui. Pensei que aqui ficava lotado”

No Centro Cultural Banco do Brasil, a coisa andava mais animada. Um casal parecia feliz à espera de ter uma experiência sensorial com uma instalação do belga Lawrence Malstaf. Mas ambos reclamaram que, antes, tentaram conhecer a Ilha Fiscal, ali pertinho na Baía de Guanabara, e não havia barco da Marinha, por falta de combustível. “Metade de nossa programação foi quebrada”, disse a professora de português Carolina Pina. Raphaela Martins estava na mesma fila no CCBB. Bem-humorada, cercada de amigas, ela contou que, ao chegaram na Central do Brasil de trem, tiveram medo de não encontrar qualquer ônibus que chegasse ao CCBB. “Mas, logo que pisamos no terminal rodoviário, vimos um ônibus Troncal 1, saltamos à frente dele, como se não pudéssemos perdê-lo de jeito algum. Quase imploramos para ele parar”, disse ela, gargalhando.

Em um ateliê da Ladeira João Homem, no Morro da Conceição, a poucos metros da Praça Mauá, um casal parecia viver numa cidade do interior, tamanha a falta de movimento de pedestres naquela costumeiramente movimenta subida. Natalie Reys disse que a diminuição do sobe e desce ali teve como consequência menos pessoas naquele cantinho artístico. “Sentimos falta de mais gente passando e entrando aqui”, disse a artista plástica. Na mesma ladeira, no restaurante Imaculada, mesas vazias não incomodavam tanto o gerente Severo Oliveira. “O mais complicado foi ficar sem produtos que sempre recebíamos sem atraso do Ceasa (Central de Abastecimento do Rio). Estamos sem couve, sem folhas, sem picanha”, disse o gerente. 

Na Lagoa Rodrigo de Freitas, alguns bares estavam bem vazios. O gerente do Palaphita Kitch, Claudio Weerneck, disse que não era o caso ali. “O público está chegando. E temos estoque de alimentos. Mas alguns restaurantes no Centro não vão conseguir abrir amanhã (hoje)”, disse ele, sem dizer nomes dos estabelecimentos. 

No Cosme Velho, na Zona Sul, na estação do Trem do Corcovado, que leva ao Cristo Redentor, o movimento parecia fraco. Não havia filas. Funcionários ali atribuíram a baixa presença de turistas ao tempo frio. O guia turístico Rômulo Maurício, contudo, disse que a dificuldade de se chegar à estação aumentou: “Eu mesmo vim de metrô de casa e, quando cheguei ao Largo do Machado, esperei o 422 (ônibus) por mais de uma hora”. 

De qualquer forma, o Rio desacelerou seu ritmo no fim de semana, levando o carioca a sentir o tempo demorar mais a passar. 



Tags: brasil, caminhoneiros, crise, governo, greve, rio

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