Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Rio

Tiros bagunçando o coreto

Em meio ao fogo cruzado, Praça Seca registrou um tiroteio por dia neste ano

Jornal do Brasil MARIA LUISA DE MELO,malu@jb.com.br

A Praça Seca, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, registrou 124 tiroteios nos primeiros 123 dias do ano, o equivalente a um por dia, segundo dados do laboratório de dados sobre violência armada Fogo Cruzado, que mapeia ocorrências deste tipo. A localidade encabeça a lista dos doze bairros e favelas da Região Metropolitana com mais incidências. Os casos se concentram nas favelas Chacrinha, Bateau Mouche e São José Operário — a primeira é controlada por milicianos; as duas últimas, por traficantes.

Segundo reportagem publicada pelo jornal “O Dia” em 1º de abril passado, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizada (Draco) investiga se os conflitos envolvendo bandos que dominam Chacrinha e Bateau Mouche, onde os confrontos foram mais constantes nos últimos meses, teriam como motivação a suposta associação entre o miliciano Hélio Albino Filho, o Lica, e o traficante do Comando Vermelho, Sérgio Luiz da Silva Júnior, o Da Russa, que teria provocado um racha entre os milicianos em junho do ano passado.

Moradora de um apartamento na Rua Marangá, uma das transversais da Rua Barão, que dá acesso ao Morro São José Operário, a aposentada Maria da Penha de Oliveira, de 68 anos, conta que, nos últimos anos, viver no bairro se tornou um desafio. “Sempre gostei de fazer caminhadas à noite, na praça, mas não me arrisco mais. Gostava de passear pelo coreto e pela barraca de venda de plantas, mas não me atrevo. Já tivemos gente morta por bala perdida até na porta do supermercado, durante o dia.

Sair à noite, então, nem pensar. Nos últimos dois anos, a situação não estava fácil. Mas, de meados do ano passado para cá, ficou impossível”, lamenta. A área onde Maria da Penha vive, próxima ao Morro São José Operário, já foi considerada uma das mais críticas da região. Dominada pela facção Comando Vermelho, segundo informações do 18º Batalhão da Polícia Militar (Jacarepaguá), a favela foi palco de confrontos durante tentativas de invasão do grupo miliciano que explora a Chacrinha.

Visão geral da Praça Seca, em Jacarepaguá, na Zona Oeste, com o coreto central e a Estação do BRT, interditada diversas vezes por causa dos confrontos diários nas favelas do entorno

Desde meados do ano passado, no entanto, ganharam protagonismo os tiroteios entre o Morro da Chacrinha e a vizinha Bateau Mouche. Provocados pela disputa entre milicianos e traficantes, os conflitos aterrorizam a população local. As favelas ficam de frente uma para outra e só são separadas pela principal via do bairro, a Rua Cândido Benício. Segundo dados do aplicativo Fogo Cruzado, dos 124 tiroteios na região, somente nove tiveram participação da polícia, constantemente chamada para tentar controlar a situação. Para um morador do Morro do Chacrinha, que vive no lugar há 68 anos, os números só confirmam o abandono do poder público com que a população é obrigada a conviver diariamente.

“Bope e Batalhão de Choque só entram aqui na Chacrinha raramente, e para fazer figuração. Na maior parte dos dias, não há nenhum policiamento. Só tem milícia e tiro”, reclama ele, enquanto enumera as quatro taxas que os moradores são obrigados a pagar, mensalmente, aos paramilitares: segurança, água e internet clandestina, a R$ 40, e o gato de TV a cabo, a R$ 50. Os moradores não podem instalar outro serviço a cabo que não seja o oferecido pela milícia. “O sinal nem funciona direito. A cobrança é feita sempre por três milicianos, dois deles armados, para nos intimidar. 

MAIS DE 3 MIL TIROTEIOS ESTE ANO

O trabalhador é achacado, mas paga porque tem medo. E não temos a chance de instalar um serviço legalizado, porque não é permitido”, reclama. Do outro lado da via, os moradores da favela Bateau Mouche vivem drama parecido. Com tiroteios constantes, são obrigados a esperar, durante horas, os confrontos cessarem para Daniel Marques conseguir chegar em casa. Um conjunto habitacional, na beira da Cândido Benício, transformou-se em principal abrigo.

Gestora de dados do aplicativo, Cecillia Oliveira chama atenção não apenas para o grande número de ocorrências de tiroteio, mas também para sua duração. Em outro levantamento do Fogo Cruzado, a Bateau Mouche figura entre as que têm os conflitos mais longos e contínuos. No dia 26 de março, a troca de tiros durou 17h. Começou às 4h36 e só terminou às 21h26. Na ocasião, a favela foi alvo de invasão do grupo miliciano que controla o Chacrinha. Com a resistência do tráfico local, sob ordem do líder da quadrilha, Luiz Cláudio Machado, o Marreta, preso em Porto Velho, houve intenso confronto. O tiroteio culminou no fechamento da principal via da região e da estação de BRT Ipase. 

O episódio foi registrado por imagens da TV Globo, que flagraram criminosos tentando se proteger atrás de um muro e atirando na direção contrária, antes de fugir. Outros criminosos foram flagrados atravessando calmamente a rua, carregando armamento pesado. “O bairro registrou muitas horas de tiroteios contínuos. Criança baleada, adolescente morta, corpos carbonizados deixados na avenida principal do bairro. Isso é inadmissível”, indigna-se Cecíllia.

Tiroteios na Zona Sul

Ontem, o dia foi marcado por confrontos em Copacabana e Leme. Para coibir guerra de facções criminosas rivais, PMs da UPP da Babilônia e do Chapéu Mangueira fizeram uma grande operação nas duas comunidades, localizadas na divisa dos bairros.



Tags: crime, praça seca, rio, tiroteio, violencia

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