Jornal do Brasil

Terça-feira, 22 de Maio de 2018 Fundado em 1891

Rio

A rede dos militares: general interventor é um dos frequentadores do reduto

Jornal do Brasil MARIA LUISA DE MELO malu@jb.com.br

Nada de farda verde oliva, nem quepe. A ordem é sunguinha, boné e cerveja gelada. A penúltima rede de vôlei da praia de Copacabana antes do Clube Marimbás não pára aos sábados, domingos e feriados. O movimento começa logo às 7h. Reduto de militares, sobretudo da reserva, o cantinho da areia reúne um grupo de 30 pessoas há cerca de 40 anos. Entre os assuntos que dominam a roda formada por aqueles que esperam sua vez de entrar no jogo, está a intervenção federal. Não por acaso. O interventor, general Walter Braga Netto, é um dos frequentadores dali. Apesar de defenderem a imposição dos militares no comando da segurança pública do Rio, oficiais e praças reconhecem que a intervenção no estado está “atabalhoada”. 

Mas, apesar de a rede ser tradicionalmente frequentada por militares, também não faltam civis marcando presença no jogo de vôlei.  

Reunidos no Posto 6, em Copacabana, poucos civis se misturam aos militares na rede armada ao lado do Clube Marimbás. Um dos jogadores de vôlei é o general Antônio Mourão

Acostumado a acordar às 5h durante os quase 50 anos que pertenceu às fileiras do Exército, o general Antônio Mourão é um dos primeiros a chegar. Bem cedo, já está a postos na rede, com sua sunga preta. O oficial, conhecido por algumas polêmicas, foi retirado do cargo de Secretário de Economia e Finanças do Exército no ano passado, depois de fazer críticas ao governo do presidente Michel Temer. Também chamou o general Braga Neto de “cachorro acuado”, por sua falta de poder político na intervenção. 

Defensor ferrenho da ampliação do poder do  Exército no Rio, Mourão reconhece que a intervenção está “atabalhoada”, mas credita isso ao fato de a ação não abranger “todas as esferas de poder”. Acha pouco dar só o comando da segurança pública do Rio na mão dos generais: “Os militares precisam abranger a política do Rio e a economia também”, diz. “A política foi tomada por uma quadrilha. Pezão não tem como ser prefeito nem de Piraí, quanto mais governador do Rio”. Mourão também defende o polêmico mandado de segurança coletivo nas favelas.

Na rede de vôlei, sua opinião é endossada por outros colegas, como o coronel da reserva do Exército Paulo Teixeira, para quem “é inconcebível uma força militar não poder atuar com a força”. “Não podem atirar nem prender. Criaram mais de dez mil observatórios contra a intervenção, muitos sem representação”, diz ele, em referência aos grupos criados para impedir abusos e excessos dos militares, sobretudo contra a população das favelas. Paulo também defende os mandados coletivos de segurança nas comunidades cariocas e nega desconhecer a realidade dos moradores de favelas.

Com lata de cerveja na mão, coronel da reserva Paulo Teixeira se reúne com amigos civis e militares

“Sou vizinho do Pavãozinho, eu conheço a favela, sim. E essa história de abuso do Exército na Maré foi mentira. Os militares do Exército são controlados de forma rigorosa. Militar tem conduta muito bem definida”.   

Coronel da reserva do Corpo de Bombeiros e frequentador da rede de vôlei há seis anos, o dentista Irapuan Strausz está convicto de que os problemas na segurança pública do Rio só serão amenizados com a eleição do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) à presidência da República. Para ele, a corrupção política levou a um descrédito tamanho, fazendo com que só “as instituições militares tenham alguma credibilidade”. Irapuan defende  um “enrijecimento da intervenção”. 

Questionado sobre a possibilidade de isso se transformar em uma nova ditadura militar, como a que o país viveu a partir da década de 60, ele se contradiz e defende “uma ditadura só para bandidos”. O dentista joga acompanhado da mulher Isabella Strausz, major do Corpo de Bombeiros e a única mulher a encarar a rede ontem. 

Com opiniões muito parecidas, os integrantes do grupo só divergem mesmo quanto à pontuação do jogo. Único praça de um dos times, o subtenente do Exército Mosqueira deixou  partida depois de divergir sobre o placar. A intransigência, segundo ele, veio de um civil. 

Integrante do mesmo time, o desembargador de Justiça Celso Filho, de 70 anos, não se acanha com a idade e é um dos que mais rola na areia. Sobre a conversa fora do jogo, ele evita polêmicas: 

“Prefiro jogar, sem grandes conversas. A prática esportiva é suficiente para calibrar a minha pressão”, brinca ele. 



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