Jornal do Brasil

Segunda-feira, 25 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Rio

‘Rio, o paradigma bélico’

Socióloga Vera Malaguti fala da intervenção com Forças Armadas e da violência na cidade

Jornal do Brasil Luciana Cabral

A socióloga Vera Malaguti, em entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL, diz que as UPPs tinham um conceito de ocupação de território, “um paradigma bélico que vem sendo implantado desde os anos 90”. É uma das muitas ilusões para dar sensação de segurança, diz ela, que entende segurança de forma mais amplada, envolvendo saúde, educação transporte, atenção à juventude. Por isso ela critica a intervenção militar no Rio de Janeiro, que dá uma cara de guerra civil à cidade. Ela afirma que a política criminal de drogas serve para “manter a guerra acesa”. Vera acredita que essa ideia de que os jovens das favelas são inimigos “é uma espécie de pena de morte natural contra o pobre e negro”. 

Vera Malaguti: “AS UPPs produziram uma explosão de violência no Rio, que se alastrou por outros estados”

A violência no Rio de Janeiro ganhou proporções que levaram à intervenção federal. Para o general Braga Netto a situação não é tão grave e seria “muita mídia”. Como você avalia a situação atual do estado em relação à segurança pública? 

Uma das grandes ilusões do mito da segurança pública é achar que é uma questão policial, não é isso que faz as pessoas se sentirem seguras. Segurança está na escola, no transporte, na cultura, é um conceito muito mais amplo. No Brasil é vista como uma questão técnica que evoluiu para a autonomização da polícia. Estamos diante do colapso, porque segurança é ter saúde, educação, atendimento à juventude, transporte, defesa pública para catástrofes ambientais. O Rio se sente abandonado em tudo. E não sabemos também qual vai ser a reação da polícia diante dessa intervenção militar. 

As Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) foram lançadas há 10 anos como uma  proposta para a segurança no Rio. No orçamento de 2018, dos 5,4 milhões de reais do ano anterior o investimento caiu para 10 mil reais. Em seguida, veio a intervenção federal.  A experiência das UPPs  chegou ao fim? 

As UPPs eram um plano de segurança adequado ao projeto de governo do Rio de Janeiro do PMDB. Era um conceito de ocupação de território, um paradigma bélico que foi sendo implantado desde os anos 1990. A UPP era só uma intensificação da policia militarizada, o problema da segurança não é a falta de dinheiro, é decorrência de um projeto falacioso, que fingia ser social mas, na verdade, era militarização. É entrar, atirar e perguntar depois. Para mim foi uma ação midiática e brutal. Quantas pessoas eram mortas diariamente no Alemão antes e durante a UPP? Aumentou. É fruto de um projeto de promiscuidade com o capital privado, com empresários que eram cultuados e festejados. 

Esse modelo é inspirado no combate às drogas nos Estados Unidos, mas nunca produziu efeitos reais, só incentivou a indústria bélica. As UPPs produziram uma explosão de violência no Rio que se alastrou por outros estados, era óbvio que isso iria acontecer porque a perseguição a apenas uma facção do comércio varejista do tráfico gerou uma reorganização do mundo do crime. Foi uma escalada de militarização. O mundo todo resiste em colocar as forças amadas na rua. Transformar as forças armadas em força policial dá um pouco de cara de “guerra civil”. 

As UPPs alimentaram então essa guerra? 

O fato de as UPPs estarem restritas ao espaço das favelas, e de algumas favelas, já seria um indício luminoso para desvendar o que o projeto esconde: a ocupação militar e vertical das áreas de pobreza que se localizam em regiões estratégicas aos eventos desportivos do capitalismo, como a Copa do Mundo, as Olimpíadas, os grandes eventos. As UPPs aprofundaram as desigualdades e as segregações no Rio de Janeiro. 

Um caminho de segurança deveria ser feito em conjunto com os moradores, dando melhores condições de vida. É preciso zerar o paradigma da guerra, tanto da guerra contra as drogas, contra o crime, e passar a pensar atrás da cortina de fumaça. Olhar pra dentro, dentro da história dos lugares, da conversa coletiva, um projeto político para o Rio em que o importante não seja a polícia, que a obsessão não seja matar, mas esclarecer a população, que é impedida de entender, porque é funcional essa matança.

As ações políticas para segurança no Rio podem ser vistas então como marketing? 

O Rio é um palco, um laboratório de experimentos. Nós podíamos ter feito uma Copa do Mundo em que a estrela fosse o povo do Rio. A sociedade brasileira não discute realmente a questão criminal, nem no Congresso, nem na mídia, é uma discussão rasa, irracional, sem horizonte político. Temos uma muralha de pessoas assustadas, com medo, que tendem a se tornar fascistas a partir da manipulação do medo, que é o que ocorreu na Alemanha dos anos 1930 com a crise econômica. O medo embrutece, faz a gente ficar truculento e autoritário. E isso me assusta. 

A UPP faz parte de um arsenal de intervenções urbanas previstas para regiões ocupadas militarmente a partir de tecnologias, programas e políticas norteamericanas que foram do Iraque à Palestina. No projeto de Medellín foi este o paradigma, um pacote embrulhado na “luta contra o crime”, sem que se percebesse que era um projeto de ocupação territorial. 

É o modelo bélico, vem a a polícia, a milícia, os militares, exército, marinha, depois pode vir até a ONU. Território pacificado, pobres controlados, campo aberto para o projeto de gestão policial da vida. Eu acredito que devíamos trabalhar os conflitos de outra forma, mais localizada, comunitária, com centros de saúde, cultura, oferecendo escolas de qualidade, tirando a população do paradigma da guerra, sair da ideia de combate e partir para a investigação, a inteligência. Não precisamos só de mais polícia, não é isso que nos dará segurança.

Para ativistas das favelas, as ocupações policiais são um “sonho artificial” de segurança e a população está sempre sob suspeita de ligação com o crime. O ministro Raul Jungmann pediu autorização para mandados de busca e prisão coletivos durante a intervenção. Contra quem é essa guerra? 

A pobreza está sendo murada, a periferia foi transformada em campo de concentração, onde as pessoas não têm direito e a política criminal de drogas serve para manter a guerra acesa. Atrás disso tem a ideia de que o inimigo está localizado entre os jovens das favelas, é uma pena de morte natural contra o pobre e negro. É uma guerra contra nós mesmos, contra o filho da nossa passadeira, filho do operário, o menino da classe média tem proteção, pode até fazer as mesmas besteiras em relação às drogas, mas ele não é penalizado. O Brasil é um dos países com uma das maiores penas de morte do mundo através da violência policial, a probabilidade de um menino pobre ser preso ou morto pela polícia é um dos mais altos do mundo. Muitos intelectuais, como Darcy Ribeiro, tentaram mostrar que carregamos um fardo histórico de escravidão e foram desmoralizados, como o Darcy Ribeiro.

* especial para JB



Tags: intervenção, pacificadora, polícia, rio, segurança

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