Jornal do Brasil

Segunda-feira, 23 de Abril de 2018 Fundado em 1891

Rio

O drama e a esperança de alunos da Uerj: "Sentimento é de resistência, e não de desistência"

Sem verba, instituição pública adiou pela quinta vez o início do ano letivo

Jornal do Brasil Rebeca Letieri *

“Ouvimos falar que há muitos alunos tentando transferência, mas o sentimento é de resistência e de luta, não de desistência. A Uerj é um patrimônio do povo fluminense”, diz a presidente da Associação dos Docentes e professora de Sociologia da instituição, Lia Rocha. O número de transferência de alunos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), por solicitação, em 2016, ficou em torno de 700; 36% a mais do que em 2015. A reitoria afirma que a alta não é tão discrepante “mesmo diante de toda essa crise pela qual passa a Uerj”. O ano letivo ainda não teve início na tradicional instituição pública devido à falta de verba e condições de receber os alunos.

Jessica Mello deveria estar cursando o 4º período de Arqueologia na Uerj, a única universidade pública do Rio que possui esta graduação. “Estou pensando na possibilidade de pedir transferência. Infelizmente não dá para ficar esperando”, diz a estudante de 26 anos, completando: “O problema todo não é a faculdade, é a forma como ela esta sendo tratada pelo governo”.

Carol Grangeiro foi para outra faculdade, porém, sem deixar a matrícula na Uerj, onde ela faz Letras desde 2011. “Esse é o terceiro período de falta de aula desde que eu entrei. Era para eu ter me formado há dois anos. E não vejo perspectiva de retorno”, disse emocionada, acrescentando: “Eu sei que essa evasão é ruim. Sempre foi meu sonho estudar na Uerj. Sempre briguei muito para estar ali, é muito difícil ver cinco anos da sua vida indo pelo ralo. Mas eu não vou desistir, pretendo continuar militando pela Uerj, e mantendo minha matrícula até me formar em Letras”, finaliza Carol, que iniciou a graduação em Direito na faculdade particular Anhanguera, onde ela diz que só consegue cursar com a ajuda de um trabalho e benefícios oferecidos pela instituição.

“Muitas universidades privadas estão oferecendo bolsa para estudantes da Uerj que não concluíram e estavam para se formar. Só que quem formou esse estudante foi a Uerj e não essas instituições privadas, e elas vão levar o credito por isso, fazendo crer que privatizar é a solução”, destaca Luan Luiz, estudante de História do campus em São Gonçalo, e membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE).

Quem entra em contato com o call center da faculdade particular Estácio de Sá, confirma que a instituição está oferecendo bolsa de 50% para alunos da Uerj, pagando 59 reais nas três primeiras mensalidades.

A professora Lia responde à proposta: “Nós também temos promoção. Os alunos de universidades particular que quiserem ir pra Uerj têm bolsa de 100%, porque a universidade é gratuita”, enfatiza.

Ela lembra que a universidade não está em greve, está apenas sem condições de operar. “A nossa vida está em suspenso. Tem esse custo objetivo, que é não conseguir começar as aulas, e o custo material de estar sem salário, que é também uma situação gravíssima. Nós tivemos, na ultima assembléia, relatos de pessoas que não têm como pagar aluguel ou transporte".

Cibele Martins registrou os protestos dos muros da universidade

Contas

A saga da universidade vem se estendendo há anos até encontrar seu ápice em 2016, quando começou a adiar as aulas por falta de condições mínimas de funcionamento. Em meio à possibilidade de paralisação, centenas de professores, estudantes e funcionários da instituição reúnem-se em protestos em defesa da universidade. Eles reivindicavam o pagamento dos salários, bolsas e recursos para os 41.925 alunos afetados pela conjuntura.

Nos campi da universidade, as condições são péssimas: a falta de higiene, coleta de lixo e vigilância, entre outros, geram ambientes sujos, acúmulo de lixo e insegurança.

O déficit nas contas da instituição é preocupante. Existe uma verba específica para o pagamento de terceirizados: dos R$ 67 milhões necessários em 2016, o governo só repassou R$ 15 milhões, ou seja, 77% a menos. Membros da universidade afirmam que esse é um dos grandes motivos da paralisação, fora os atrasos de pagamentos de docentes e funcionários.

Cibele Martins é estudante de Direito desde 2014 e cotista. Ela passou em diversos vestibulares, mas escolheu a Uerj pela importância do curso.  A estudante conta que não recebeu nenhuma bolsa – no valor de 400 reais – referente a 2017.

“A universidade está passando por um processo de esvaziamento. Muitos estão fazendo transferência para faculdade particular. Mas, é claro, só aqueles que têm condições (financeira) para isso. Essas pessoas esquecem que a partir do momento que você esvazia a universidade, você não pensa naqueles que não têm essa chance e precisam lutar para que ela resista. Quem fica, fica mais desamparado ainda”, acrescenta.

Ex-alunos

A revolta ultrapassou muros e gerações e já tem adesão de ex-alunos, professores e alunos de outras universidades públicas, artistas e até mesmo instituições internacionais que possuem parceria com a Uerj.

“Dá muita tristeza ver a universidade que eu estudei dessa forma. Eu sou de Duque de Caxias, mas o período que estudei na Uerj, morei perto da universidade. E além de estudar, estagiei praticamente metade do meu curso lá dentro. Eu pude viver aquilo de verdade, a universidade foi a minha casa, não tem como não criar laços de carinho pela instituição”, emociona-se Carlos Henrique Silva, ex-aluno de Jornalismo.

Carlos conta que desde 2012, quando estagiou na Associação de Docentes da Uerj, escrevia matérias alertando sobre o processo de sucateamento que a universidade vinha sofrendo. Uma situação, segundo ele, que já era prevista ficar “insustentável”.

Carlos Henrique, ex-aluno de jornalismo

“A universidade foi sendo deixada de lado pelo governo. Na época da Copa do Mundo, muito se discutiu que o estado investiu bilhões no Maracanã, enquanto a universidade, que presta grande serviço à sociedade, não recebia esse investimento. Existe todo um contexto político que tem relação com essa situação precária da universidade hoje”, completa.

Marina Libano, também ex-aluna de Jornalismo, compartilhou um depoimento em seu perfil do Facebook, após fazer uma visita à universidade no dia 10 de março deste ano:

“Hoje foi dia de ir à Uerj e de sentir o coração apertado. De ver aqueles corredores totalmente vazios. Uma tristeza por saber que milhares de alunos deveriam estar estudando naquele momento, mas na verdade estão em casa, porque o governo não repassou sequer todo o orçamento de 2016. As paredes cinzas presenciam o sucateamento, onde outrora existia vida. A educação é libertadora e eu espero que outros alunos passem por aqui e cresçam como eu cresci. Eu devo muito a Uerj. Tudo que vivi ali, a pessoa que me tornei, os amigos que fiz, tudo. O que me resta agora é torcer para que ela consiga superar isso tudo e eu sei que vai, porque a Uerj é gigante”, escreveu.

Aulas

No início de janeiro, a Reitoria da Uerj decidiu adiar o início das aulas do segundo semestre de 2016, alegando a falta de condições mínimas necessárias ao seu pleno funcionamento, bem como o não pagamento das bolsas e salários por parte do Governo do Estado.

Desde então, a Reitoria e o Fórum de Diretores de Unidades vêm se reunindo semanalmente para avaliar e propor alternativas para a superação da maior crise de financiamento da história da universidade. Transcorridos dois meses, a situação não se modificou.

Luiza Rizzo, caloura de pedagogia

Diante disso, o Fórum se reuniu pela oitava vez nesta quinta-feira (16) para novamente discutir o retorno às aulas. Com a possibilidade de que as empresas responsáveis pela limpeza e pelos elevadores voltem a partir da próxima quarta-feira (22), o Fórum poderá deliberar pela volta a partir do dia 27 deste mês.

Luiza Rizzo é caloura em Pedagogia, com data marcada para agosto de 2016, e até agora não iniciou o curso. Ela conta entusiasmada que não vai desistir da universidade.

“A Uerj é o meu sonho. Sempre ouvi falar muito bem dela como referência. Quando fiz minha matrícula, fui muito acolhida pela frente de mulheres da universidade, e através dela, eu participo dessa luta”, completa. 

* do projeto de estágio do JB

>> Uerj vai entrar na Justiça contra governo do estado



Tags: Governo, Rio, Uerj, alunos, aulas, contas, professores, resistencia, sucateamento, universidade publica

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