Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017

Rio

O drama e a esperança de alunos da Uerj: "Sentimento é de resistência, e não de desistência"

Sem verba, instituição pública adiou pela quinta vez o início do ano letivo

Jornal do BrasilRebeca Letieri *

“Ouvimos falar que há muitos alunos tentando transferência, mas o sentimento é de resistência e de luta, não de desistência. A Uerj é um patrimônio do povo fluminense”, diz a presidente da Associação dos Docentes e professora de Sociologia da instituição, Lia Rocha. O número de transferência de alunos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), por solicitação, em 2016, ficou em torno de 700; 36% a mais do que em 2015. A reitoria afirma que a alta não é tão discrepante “mesmo diante de toda essa crise pela qual passa a Uerj”. O ano letivo ainda não teve início na tradicional instituição pública devido à falta de verba e condições de receber os alunos.

Jessica Mello deveria estar cursando o 4º período de Arqueologia na Uerj, a única universidade pública do Rio que possui esta graduação. “Estou pensando na possibilidade de pedir transferência. Infelizmente não dá para ficar esperando”, diz a estudante de 26 anos, completando: “O problema todo não é a faculdade, é a forma como ela esta sendo tratada pelo governo”.

Carol Grangeiro foi para outra faculdade, porém, sem deixar a matrícula na Uerj, onde ela faz Letras desde 2011. “Esse é o terceiro período de falta de aula desde que eu entrei. Era para eu ter me formado há dois anos. E não vejo perspectiva de retorno”, disse emocionada, acrescentando: “Eu sei que essa evasão é ruim. Sempre foi meu sonho estudar na Uerj. Sempre briguei muito para estar ali, é muito difícil ver cinco anos da sua vida indo pelo ralo. Mas eu não vou desistir, pretendo continuar militando pela Uerj, e mantendo minha matrícula até me formar em Letras”, finaliza Carol, que iniciou a graduação em Direito na faculdade particular Anhanguera, onde ela diz que só consegue cursar com a ajuda de um trabalho e benefícios oferecidos pela instituição.

“Muitas universidades privadas estão oferecendo bolsa para estudantes da Uerj que não concluíram e estavam para se formar. Só que quem formou esse estudante foi a Uerj e não essas instituições privadas, e elas vão levar o credito por isso, fazendo crer que privatizar é a solução”, destaca Luan Luiz, estudante de História do campus em São Gonçalo, e membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE).

Quem entra em contato com o call center da faculdade particular Estácio de Sá, confirma que a instituição está oferecendo bolsa de 50% para alunos da Uerj, pagando 59 reais nas três primeiras mensalidades.

A professora Lia responde à proposta: “Nós também temos promoção. Os alunos de universidades particular que quiserem ir pra Uerj têm bolsa de 100%, porque a universidade é gratuita”, enfatiza.

Ela lembra que a universidade não está em greve, está apenas sem condições de operar. “A nossa vida está em suspenso. Tem esse custo objetivo, que é não conseguir começar as aulas, e o custo material de estar sem salário, que é também uma situação gravíssima. Nós tivemos, na ultima assembléia, relatos de pessoas que não têm como pagar aluguel ou transporte".

Cibele Martins registrou os protestos dos muros da universidade
Cibele Martins registrou os protestos dos muros da universidade

Contas

A saga da universidade vem se estendendo há anos até encontrar seu ápice em 2016, quando começou a adiar as aulas por falta de condições mínimas de funcionamento. Em meio à possibilidade de paralisação, centenas de professores, estudantes e funcionários da instituição reúnem-se em protestos em defesa da universidade. Eles reivindicavam o pagamento dos salários, bolsas e recursos para os 41.925 alunos afetados pela conjuntura.

Nos campi da universidade, as condições são péssimas: a falta de higiene, coleta de lixo e vigilância, entre outros, geram ambientes sujos, acúmulo de lixo e insegurança.

O déficit nas contas da instituição é preocupante. Existe uma verba específica para o pagamento de terceirizados: dos R$ 67 milhões necessários em 2016, o governo só repassou R$ 15 milhões, ou seja, 77% a menos. Membros da universidade afirmam que esse é um dos grandes motivos da paralisação, fora os atrasos de pagamentos de docentes e funcionários.

Cibele Martins é estudante de Direito desde 2014 e cotista. Ela passou em diversos vestibulares, mas escolheu a Uerj pela importância do curso.  A estudante conta que não recebeu nenhuma bolsa – no valor de 400 reais – referente a 2017.

“A universidade está passando por um processo de esvaziamento. Muitos estão fazendo transferência para faculdade particular. Mas, é claro, só aqueles que têm condições (financeira) para isso. Essas pessoas esquecem que a partir do momento que você esvazia a universidade, você não pensa naqueles que não têm essa chance e precisam lutar para que ela resista. Quem fica, fica mais desamparado ainda”, acrescenta.

Ex-alunos

A revolta ultrapassou muros e gerações e já tem adesão de ex-alunos, professores e alunos de outras universidades públicas, artistas e até mesmo instituições internacionais que possuem parceria com a Uerj.

“Dá muita tristeza ver a universidade que eu estudei dessa forma. Eu sou de Duque de Caxias, mas o período que estudei na Uerj, morei perto da universidade. E além de estudar, estagiei praticamente metade do meu curso lá dentro. Eu pude viver aquilo de verdade, a universidade foi a minha casa, não tem como não criar laços de carinho pela instituição”, emociona-se Carlos Henrique Silva, ex-aluno de Jornalismo.

Carlos conta que desde 2012, quando estagiou na Associação de Docentes da Uerj, escrevia matérias alertando sobre o processo de sucateamento que a universidade vinha sofrendo. Uma situação, segundo ele, que já era prevista ficar “insustentável”.

Carlos Henrique, ex-aluno de jornalismo
Carlos Henrique, ex-aluno de jornalismo

“A universidade foi sendo deixada de lado pelo governo. Na época da Copa do Mundo, muito se discutiu que o estado investiu bilhões no Maracanã, enquanto a universidade, que presta grande serviço à sociedade, não recebia esse investimento. Existe todo um contexto político que tem relação com essa situação precária da universidade hoje”, completa.

Marina Libano, também ex-aluna de Jornalismo, compartilhou um depoimento em seu perfil do Facebook, após fazer uma visita à universidade no dia 10 de março deste ano:

“Hoje foi dia de ir à Uerj e de sentir o coração apertado. De ver aqueles corredores totalmente vazios. Uma tristeza por saber que milhares de alunos deveriam estar estudando naquele momento, mas na verdade estão em casa, porque o governo não repassou sequer todo o orçamento de 2016. As paredes cinzas presenciam o sucateamento, onde outrora existia vida. A educação é libertadora e eu espero que outros alunos passem por aqui e cresçam como eu cresci. Eu devo muito a Uerj. Tudo que vivi ali, a pessoa que me tornei, os amigos que fiz, tudo. O que me resta agora é torcer para que ela consiga superar isso tudo e eu sei que vai, porque a Uerj é gigante”, escreveu.

Aulas

No início de janeiro, a Reitoria da Uerj decidiu adiar o início das aulas do segundo semestre de 2016, alegando a falta de condições mínimas necessárias ao seu pleno funcionamento, bem como o não pagamento das bolsas e salários por parte do Governo do Estado.

Desde então, a Reitoria e o Fórum de Diretores de Unidades vêm se reunindo semanalmente para avaliar e propor alternativas para a superação da maior crise de financiamento da história da universidade. Transcorridos dois meses, a situação não se modificou.

Luiza Rizzo, caloura de pedagogia
Luiza Rizzo, caloura de pedagogia

Diante disso, o Fórum se reuniu pela oitava vez nesta quinta-feira (16) para novamente discutir o retorno às aulas. Com a possibilidade de que as empresas responsáveis pela limpeza e pelos elevadores voltem a partir da próxima quarta-feira (22), o Fórum poderá deliberar pela volta a partir do dia 27 deste mês.

Luiza Rizzo é caloura em Pedagogia, com data marcada para agosto de 2016, e até agora não iniciou o curso. Ela conta entusiasmada que não vai desistir da universidade.

“A Uerj é o meu sonho. Sempre ouvi falar muito bem dela como referência. Quando fiz minha matrícula, fui muito acolhida pela frente de mulheres da universidade, e através dela, eu participo dessa luta”, completa. 

* do projeto de estágio do JB

>> Uerj vai entrar na Justiça contra governo do estado

Tags: Governo, Rio, Uerj, alunos, aulas, contas, professores, resistencia, sucateamento, universidade publica

Compartilhe: