Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Rio

Legado olímpico: obra do BRT inacabada vira ponto para usuários de crack

Moradores e comerciantes reclamam do abandono e do aumento da criminalidade

Jornal do Brasil Felipe Gelani *

As obras do BRT Transbrasil, que ligaria o bairro de Deodoro ao Centro do Rio pela Avenida Brasil, ainda não foram retomadas, apesar da promessa feita pela Prefeitura do Rio de Janeiro de que as ações seriam reiniciadas em setembro. Basta passar pela estrada e perceber que não há nenhum movimento de trabalho nos pontos de intervenção do BRT. Até as placas colocadas pela prefeitura nos trechos que prometiam a retomada do trabalho no período foram removidas.

No decorrer do trajeto, é possível observar estações e elevados inacabados, locais onde também não são encontrados nenhum operário trabalhando. Algumas das obras, como um viaduto construído na altura de Ramos, se tornou ponto de encontro de viciados em crack e moradores de rua. 

Homens caminham sobre viaduto inativo que deveria conectar BRT Transcarioca e Transbrasil

Segundo uma frentista que não quis se identificar, funcionária em um posto de gasolina ao lado do viaduto frequentado pelos moradores de rua, a via já teria sido utilizada por veículos exclusivos à serviço da Prefeitura e da organização da Olimpíada durante os Jogos, para transporte de funcionários e equipes dos eventos olímpicos. O viaduto, que conectaria o BRT Transbrasil ao Transcarioca, está fechado. “Esse elevado virou área de lazer dos viciados. A gente ouve dos motoristas que a criminalidade aumentou muito por aqui”, afirma a frentista.

Em outro ponto da pista, na altura de Manguinhos, as obras do BRT estão paradas há meses. “Nos últimos cinco meses não vi nenhum operário na obra dessa estação. Já está esse esqueleto aí há muito tempo”, conta a moradora Daniela Moura, que atravessa a passarela acima da estação todos os dias para trabalhar.

Já na altura de Irajá, ainda na Avenida Brasil, foi erguido outro viaduto desde antes das competições olímpicas. O elevado está com o trajeto incompleto e tem sua pista interrompida metros acima de uma garagem de veículos de transporte. Segundo o ambulante João Carlos, que tem um comércio de rua no local, ninguém sabe ao certo a finalidade do viaduto. “Acho que deve se conectar com a Via Dutra, mas tem outro viaduto que faz isso 200 metros acima, então não sei. Mas esse trecho do elevado já está aí há um bom tempo”, afirmou.

Viaduto inacabado está construído desde antes dos Jogos Olímpicos

Segundo informações do Tribunal de Contas do Município (TCM), o Transbrasil custaria R$ 1,4 bilhão. Desse total, R$ 1 bilhão foi financiado pela Caixa Econômica Federal, por meio do PAC da Mobilidade. Recursos públicos da prefeitura completaram a diferença. Ainda de acordo com o TCM, não teria havido acréscimo de valor nas obras do BRT Transbrasil. O tribunal também afirmou que a obra está suspensa desde o dia 1º de agosto, e que a previsão de término atual é para o dia 9 de julho de 2017.

Vale lembrar que a Associação das Empresas de Engenharia do Rio de Janeiro (Aeerj) denunciou ao TCM, em maio, que a prefeitura não teria pago ao consórcio construtor do Transbrasil (Odebrecht, Queiroz Galvão e OAS) o reajuste anual do contrato, em 2015. Interrompida para evitar transtornos durante os Jogos, a obra deveria ter sido retomada após a Paralimpíada, em setembro, o que não ocorreu.

Em nota, a Secretaria Municipal de Obras (SMO) informou que publicou o memorando de retomada das obras em 22 de setembro de 2016, com reinício da contagem do prazo contratual a partir de 21 de setembro. No entanto, ainda segundo o memorando, o consórcio que executa as obras - formado pelas empresas Odebrecht, Queiroz Galvão e OAS – ainda não remobilizou os canteiros. A nota afirma que a SMO já teria advertido o consórcio para que as frentes sejam retomadas o quanto antes.

A SMO também divulgou que, caso as obras não sejam retomadas, a prefeitura pode aplicar medidas previstas em contrato. “Não há pendências de pagamentos por parte do município, que já está 50% concluída. O prazo de conclusão das obras é 2017”, esclarece a secretaria na nota.

A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social respondeu explicando que faz abordagens diárias na região frequentada pelos moradores de rua. "As equipes formadas por assistentes sociais, psicólogos e educadores fazem um trabalho de aproximação e de escuta qualificada visando a saída das ruas. Cabe ressaltar que essa população não é obrigada a seguir para a rede acolhedora do município".

* do projeto de estágio do JB



Tags: abandono, brt, crack, moradores de rua, obras inacabadas, retomada, rio de janeiro

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