Jornal do Brasil

Sábado, 16 de Dezembro de 2017

Rio

Audiência para discutir plano de Educação no Rio é paralisada em meio a saudações a Brilhante Ustra

Inclusão do debate de gênero nas escolas é combatida por grupos conservadores

Jornal do BrasilPamela Mascarenhas

A audiência pública para discutir o Plano Municipal de Educação (PME) do Rio de Janeiro lotou a Câmara do Município do Rio de Janeiro na manhã desta terça-feira (28), com uma longa fila de interessados em participar do debate na frente da Casa. Um dos pontos mais polêmicos do PME é a inclusão do debate sobre diversidade de gênero nas escolas. Durante a audiência, uma grande confusão teve início e algumas pessoas que estavam na galeria gritaram saudações ao coronel da ditadura Carlos Alberto Brilhante Ustra. A sessão foi paralisada e foi solicitado que os que gritaram se retirassem, com a ajuda de seguranças, para que a audiência fosse retomada em seguida. 

Grupos religiosos e conservadores pelo país têm se articulado para tentar impedir a inclusão do termo "gênero" nos planos de educação de municípios e estados. O vereador Carlos Bolsonaro (PSC) foi um dos que se posicionaram logo no início dos debates do Rio nesta quarta sobre o assunto. Ele tem feito campanha contra o debate nas escolas, alegando que "querem estimular sexualidade para crianças de seis anos". Em publicação nas redes sociais, ele reclamou que foi vaiado por "PT, PSOL e REDE" após discursar.

No texto do PME, o debate sobre diversidade de gênero nas escolas aparece três vezes, de forma superficial, conforme destacou o vereador Renato Cinco (Psol). "Na verdade, o que se quer é uma escola ditatorial, que apresenta apenas um ponto de vista e que tenta enquadrar todo tipo de diferença e diversidade", disse Cinco durante a audiência pública, para afirmar que não existe escola neutra.

Longa fila de interessados na audiência pública se formou na frente da Câmara Municipal do Rio
Longa fila de interessados na audiência pública se formou na frente da Câmara Municipal do Rio

"Agradeço aos defensores [de torturadores e do Escola Sem Partido] por ajudarem a deixar claro pra nossa sociedade o que é ser de direita no Brasil. É mais fácil quando ela vem com essa carranca feia, medieval, que deixa claro que ela não tem respeito pelo ser humano, pela diversidade, pela democracia e pelas liberdades", completou Cinco.

O vereador Jefferson Moura (Rede) apontou que, apesar da grande presença de mulheres educadoras na Câmara para a audiência pública, "conservadores que apoiam o machismo, a cultura do estupro, a homofobia tentam impedir o debate". 

"Na audiência o desejo é enfrentar os desafios da educação, mas uns poucos falam de gênero e não aceitam a igualdade entre homens e mulheres, falam de democracia e não querem que as pessoas falem livremente. Se recusam a ouvir e tentam atrapalhar as reivindicações justas dos que defendem a educação pública. Não venceram hoje e não vencerão, viva as mulheres guerreiras da educação do Rio!!!", declarou Jefferson Moura em sua página nas redes sociais.

O vereador Reimont (PT), membro da comissão de Educação e Cultura, que convocou a audiência, por sua vez, destacou a importância do encontro para discutir temas como financiamento da educação, necessidade de uma equipe multidisciplinar nas escolas, garantia de 1/3 da carga horária dos professores para planejamento, carência de vagas em creches, respeito ao número de alunos por sala de aula e demandas da educação especial.

Muitos professores e agentes da educação, entre outros profissionais, estiveram presentes, além de representantes das Comissões de Educação e Direitos Humanos, do Ministério Público, da Secretaria de Educação e do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro). 

O plano de educação de outros municípios e estados já foi aprovado em meio a confrontos. Na Bahia, o Plano Estadual de Educação (PEE) foi sancionado em maio, com cinco artigos do projeto que falavam sobre o ensino de gênero e diversidade sexual substituídos do texto original pelo termo "respeito à diversidade".

Professores, agentes de apoio à Educação Especial, inspetores, entre outros profissionais participam
Professores, agentes de apoio à Educação Especial, inspetores, entre outros profissionais participam

Tags: discriminação, educação, escola, estudos, gênero, identidade, mulher, preconceito, universidade

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