Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

Rio

Ciclovia da morte: um mês após tragédia, não há culpados nem punições

Queda de trecho na Avenida Niemeyer deixou dois mortos em abril

Jornal do BrasilPamela Mascarenhas

O sofrimento deixado pela tragédia da ciclovia Tim Maia, na Zona Sul do Rio de Janeiro, completa um mês neste sábado (21), sem que até agora haja respostas para o que causou a queda que deixou dois mortos, e quais as punições para os culpados. O tom e o ritmo da voz de familiares e amigos próximos do engenheiro Eduardo Miranda de Albuquerque, 54 anos, e do gari comunitário Ronaldo Severino da Silva, 60 anos, deixam claro que a espera aumenta o sofrimento. 

Havia a expectativa de que, na coletiva realizada sexta-feira (19), o prefeito Eduardo Paes anunciasse punições e desse explicações sobre as falhas estruturais que permitiram que uma onda derrubasse o trecho da via, mas ele se limitou a apresentar dados sobre a potência da tal onda que provocou a queda e confirmar que a Prefeitura pretende criar um sistema de acompanhamento para avisar à população quando houver riscos de utilização. A perícia, por conta da Coppe e do Instituto de Pesquisas Hidroviárias (INPH), prossegue.

Enquanto isso, investigações apuram por que não houve preocupação com a segurança antes, e o que está implicado nestas obras, para além de erros técnicos. Vereadores também lutam para implementar uma CPI das Olimpíadas e levantar contratos entre município e empreiteiras.

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As obras de reforço da ciclovia - inaugurada em janeiro pelo custo divulgado de R$ 45 milhões - serão feitas pelo mesmo consórcio que a construiu, o Contemat/Concrejato. Para o prefeito, é a Contemat a responsável em oferecer uma solução, “que vai ser encontrada sem custos”. A Geo-Rio, por sua vez, vai rever a estrutura e avaliar outras áreas para prever riscos. 

O Ministério Público do Rio de Janeiro determinou no final de abril a instauração de procedimento para “apurar eventos de improbidade administrativa” justamente pela contratação da Geo-Rio e da Concremat/Concrejato. O secretário de Turismo Antônio Pedro Figueira de Melo, o presidente da Geo-Rio Marcio José Mendonça Machado e o integrantes da Comissão de Vistoria, responsáveis pelo parecer de aceitação da obra, são indicados. O JB entrou em contato com o MP, que informou que o processo ainda está em andamento.

Flores na ciclovia, um mês após a tragédia: perícia ainda não apontou quais foram as falhas estruturais
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“Não observaram coisas indispensáveis em uma situação dessa”, destacou Armando Micelli Filho, amigo de Eduardo e advogado que acompanha o caso para a família, em conversa com o JB por telefone. “É uma tragédia, um absurdo, não sei nem como definir. Perder um amigo que tinha desde pequeno nessas circunstâncias...”

Marco Antonio Silva, primo de gari Ronaldo Severino da Silva, também aponta para o absurdo do ocorrido. “Uma obra dessa estrutura ser montada desse jeito é uma verdadeira roleta-russa, vai passando um ‘montão’ de gente, você não sabe quem vai ser o sorteado, quem vai perder a vida”, declarou ao JB.

A prefeitura está em contato com as famílias das duas vítimas desde o início. Armando Micelli conta que a Procuradoria do Município o procurou no dia 25 de abril, a primeira segunda-feira após a tragédia, no feriado de 21 de abril. Desde então, eles têm conversado a respeito de uma solução extra-judicial referente à indenização. 

No caso de Ronaldo, a viúva Eliane Santos é quem estaria em contato com a prefeitura, mas a equipe do JB não conseguiu encontrá-la pelo telefone ao longo de algumas tentativas. O filho dela, Felipe Eduardo, contudo, comentou que o município vem conversando com eles, e que o acordo está “caminhando bem”. Uma reunião teria sido marcada para o mês que vem. O JB entrou em contato com a prefeitura para confirmar esta e outras informações, mas não recebeu retorno.

"O que a gente tem para falar dessa tragédia é que ela pegou nós todos de surpresa”, comentou o primo de Ronaldo. “A sensação da perda é muito ruim, uma pessoa cheia de saúde, cheia de vida, trabalhadora, trabalhou a vida dele toda, o sonho dele era se aposentar e comprar alguma coisinha pra ele, sair do aluguel, e de repente tudo se acaba”, completou Marco Antonio, que soube da morte do primo pela TV.

Para Marco Antônio, a questão agora é ficar “de olho aberto”, para que tragédias como essa não aconteçam de novo.  “Essas autoridades aí, tem muita gente cega, mas tem muita gente que não está nem aí para a vida dos outros.”

A 15ª DP, na Gávea, investiga os responsáveis pelo acidente, em um inquérito de duplo homicídio culposo, quando não há a intenção de matar. Procurado pessoalmente, o delegado José Alberto Pires não quis conversar com o JB.

Corre no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro uma ação popular, em que respondem como réus, entre eles, o prefeito Eduardo Paes e Marcello José Ferreira Carvalho, apontado pela prefeitura como responsável pelo projeto estrutural da ciclovia.

Contratos da prefeitura e manobras na CPI          

O que chama mais a atenção na história da ciclovia, para o vereador Renato Cinco (Psol), é o fato de a Concremat ter realizado a obra. Cinco destaca que esta não é uma empresa que costuma trabalhar com execução de obras, mas que tem muitos contratos com a prefeitura justamente para supervisionar as obras de outros.

“Como essa empresa, além de financiadora da campanha do Eduardo Paes, é propriedade da família do secretário municipal de Turismo, parece que é fundamental que o Ministério Público e a Câmara Municipal investiguem por que essa empresa foi contratada e as razões do acidente. Nós no gabinete fizemos requerimento da cópia integral do contrato da construção da ciclovia e fizemos também um encaminhamento ao Ministério Público de uma ação que estamos propondo em relação às obras olímpicas de uma maneira geral, e a gente incluiu essa questão de por que a Concremat foi contratada para construir a ciclovia", contou o vereador.

Vereadores do município, que já vinham denunciando problemas com as licitações para os Jogos de 2016, alertaram que a construtora da ciclovia já esteve envolvida em outros casos questionados pela Justiça e que ela tem prioridade em concorrências. A CPI das Olimpíadas, proposta pelo vereador Jefferson Moura (Rede), contudo, tem sofrido resistências e chegou a ser suspensa. Nesta semana, a Justiça determinou novamente que a Comissão seja aberta.

O vereador Babá (Psol) aponta que a ciclovia é o “retrato triste” das obras dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio. Ele ressalta que, além das duas vítimas fatais da ciclovia, 11 operários morreram nas obras apenas entre janeiro e março deste ano, e que há episódios como o do choque elétrico no Parque Olímpico e da perna amputada de um funcionário em um acidente na obra da Transbrasil.

“Eles ainda têm o cinismo de afirmar que as obras estão no prazo, sem superfaturamento e organizadas. Não é possível que eles estejam falando da cidade do Rio de Janeiro. Uma empresa da família do secretário de Turismo é responsável pela construção da ciclovia e tem contratos que beiram R$ 500 milhões, alguns deles para fiscalizar obras da Olimpíada. Se ela não consegue realizar uma obra, que a ciclovia cai, como ela é ainda é contratada para vistoriar outras obras?”, questiona Babá.

“O prefeito dessa cidade tem medo de ser investigado. Não à toa ele está a todo momento articulando sua base para impedir a CPI. Eles não se importam com a vida das pessoas, com planejamento, nada disso”, completou o vereador do Psol.

O vereador Marcio Garcia (Rede) indica que as obras públicas para os Jogos Olímpicos são feitas sem planejamento, não obedecem os prazos estabelecidos e ficam sujeitas a erros primários como o da queda da ciclovia.

“O legado que foi prometido à população do Rio, que ultimamente tem sofrido com todos os transtornos causados pelas obras em ritmo acelerado, vendo a sua cidade destruída e sem qualquer ordem urbana, não está tendo a atenção necessária. As obras de infraestrutura anunciadas ainda não apareceram. Quando será concluída a TransOeste, a Linha 4 do Metrô, as intervenções do PAC nas comunidades? O governo está dando atenção para as obras que os turistas vão ver quando chegarem aqui para as Olimpíadas, mas esquecendo da população”, alerta o vereador.

Protestos e questionamentos da população

No último domingo, moradores da região da ciclovia realizaram um protesto cobrando punição aos responsáveis. Cláudia Medeiros, que convocou o ato e agora articula o próximo para o dia 19 de junho na orla, prepara uma lista de questões não respondidas para apresentar à prefeitura. O prefeito está em contato com ela. Queria marcar um encontro no gabinete dele, mas Cláudia preferiu preparar perguntas, para saber o que questionar.

Uma das questões para a qual Cláudia e colegas ainda não veem resposta é sobre o número real de vítimas. Quando a ciclovia caiu, a informação passada pela equipe de buscas é que teriam cinco pessoas desaparecidas. Mais tarde, o número caiu para três. Quando os trabalhos foram concluídos, a informação oficial era de dois mortos.

“Queremos acompanhar o andamento de todo processo em relação à queda dessa ciclovia. Poderia ser com qualquer um de nós. Se colocar no lugar do outro é um exercício de cidadania”, salientou Claudia, destacando que até hoje o episódio do desaparecimento das vigas da Perimetral permanece um mistério, e que é urgente sempre cobrar as autoridades por respostas. “Se a gente não investigar, como cidadão, não há quem faça.”

Evelyn Rosenzweig, presidente da Ama Leblon, também em entrevista por telefone, destacou que a tragédia precisa servir de exemplo para que algo parecido não aconteça novamente. “É uma negligência inaceitável, e não é a primeira. Ninguém acha que o prefeito quer matar pessoas, mas a responsabilidade é da prefeitura.”

Com 20 anos de trabalho no setor público, Evelyn acredita que o município padece de fiscalização eficiente de obras pelos órgãos públicos. Ela conta que ela própria já se envolveu e cobrou inúmeras vezes a fiscalização efetiva de obras. “A população tem que estar na rua para fiscalizar mesmo, ter um olho crítico.”

O Jornal do Brasil também entrou em contato com a Coppe-UFRJ e o Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH), para obter informações sobre a perícia independente encomendada pela Prefeitura do Rio sobre o desabamento da Ciclovia Tim Maia, mas não teve retorno.

Tags: avenida niemeyer, ciclovia, construtora, feridos, mortos, obra, rio de janeiro, são conrado, vítimas

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