Jornal do Brasil

Segunda-feira, 21 de Maio de 2018 Fundado em 1891

Rio

‘Rio, eu te amo’: uma ode à 'cidade Zona Sul' bem distante da realidade

Especialistas comentam o marketing em contraponto com problemas 

Jornal do Brasil Gisele Motta *

O filme Rio, eu te amo estreou no cinema na última quinta-feira (11), seguindo uma trilogia que já falou sobre Nova York (New York, I love you) e Paris (Paris, je t’aime). O filme não poupa a exposição dos principais pontos turísticos do Rio, nem longas e maravilhosas panorâmicas da Zona Sul. A proposta parece ser fazer uma propaganda da cidade e o resultado conta com apontamentos estéticos interessantes. Mas fica a questão no ar: esse Rio encantado da telona é o Rio real?

Mírian Machado, gestora da Organização Não Governamental Cinema Nosso, uma das maiores escolas populares de cinema da América Latina, vê uma grande maquiagem no que é mostrado internacionalmente do Rio de Janeiro. 

"O que é mais destacado na cidade são as belezas naturais. Mas o que significa você conviver com essa natureza para quem é morador de fora da Zona Sul? Quanto tempo essa pessoa precisa de transporte público para conseguir chegar num parque ou numa praia? E aí para além disso. Como você consegue vivenciar isso, ter tranquilidade para experimentar a experiência de viver no Rio? Qual a segurança que temos para correr na Lagoa à noite, caminhar na praia do Flamengo, andar de skate no aterro?”, questiona Mírian. 

Para Márcio Amaral e Paulo Oneto, ambos professores da Escola de Comunicação da UFRJ, a representação midiática do Rio é repleta de esteriótipos e clichês que precisam ser desconstruídos. "É preciso trabalhar menos no campo dos estereótipos. Parece que se teme que se o Rio não tiver uma marca registrada forte não vai ser 'comprado'. E com isso se fabrica um Rio injusto com a cidade verdadeira. Claro que esses estereótipos sempre vão ocorrer. Acontecem com New York, Washington, Paris, Hong Kong, Roma. Mas não custa prestar atenção às deformações que estereótipos produzem na imagem daquilo que estereotipam e  lutar com isso", diz Márcio. 

"Acho que existe sim uma intenção de vender o Rio e vender o país. Filmes como Rio e Rio 2 são bons exemplos. Tem duas coisas nessa situação: os interesses em jogo, no sentido turístico, de vender o Brasil. Mas também os próprios cineastas desconstruírem os clichês apresentados. O movimento de tentar vender o Brasil já existia e pode estar mais forte. O Brasil, afinal, ainda é desconhecido", comenta ele, dizendo que parece haver um movimento onde o pitoresco sai de foco e onde outros elementos entram na representação das cidades e do país. 

Para Muniz Sodré, sociólogo e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, o Rio enfrenta uma transformação em cidade-empresa, o que torna filmes enaltecendo a cidade interessantes como uma propaganda da cidade e do estilo de vida.

“Isso acontece, porque as atividades produtivas de determinadas cidades estão se deslocando para o setor de serviços e aqui  o principal serviço é o do espetáculo. A cidade é administrada empresariamente, cada vez mais se impõe a gentrificação de terminados bairros”, diz ele, referindo-se ao processo de modificação de certas localidades, valorizando locais e normalmente aumentando o preço de bens e serviços a volta do local. 

Mírian complementa: “Principalmente dentro do cinema, o Rio é bastante visado, apesar de ser uma das locações mais caras do mundo. É comum ver filme que o roteiro passa no Rio, mas a locação foi em Porto Rico, por exemplo. Acontece que  toda essa exploração da cidade como produto torna quase inviável a sobrevivência no Rio. É uma cidade tão grande, tão fantástica, tão cara, tão tudo”, diz ela, reafirmando que essa valorização em si não é ruim, mas gera alguns problemas."

Márcio comenta que o Rio já foi vendido de várias maneiras pelo cinema estrangeiro. "Houve um tempo em que a cidade aparecia como lugar onde bandidos internacionais podiam vir ficar tranquilos, sem serem incomodados pelas autoridades locais. Ou como uma referência de caráter sensual, o trópico, o calor, preguiça, sexo". O cinema nacional, por sua vez, também cria novos esteriótipos. "Primeiro as belezas naturais, muita paisagem, praia, pouca história e muita imagem. Uma espécie de qualificação audiovisual da cidade. E depois uma virada social e crítica: o Rio da violência, da pobreza, da corrupção. Mais política e menos samba e futebol. De Cidade de Deus a Tropa de Elite, para só mencionar dois grandes marcos", diz ele. 

Paulo Oneto lembra que as representações nacionais, por vezes seguem padrões midiáticos e por vezes tentam fazer um retrato mais fiel e mais sincero das complexidades sociais. Ele cita como exemplo O Som ao Redor ou até mesmo Cidade de Deus. "Existe um movimento de não de vender o Brasil mas de repensá-lo. A tentativa de refletir já vinha com Cidade de Deus, por exemplo, sendo uma tentativa interessante de apresentar uma outra realidade, apresentar algo um pouco mais complexo sobre a sociedade", comenta. 

Ainda sim, se ainda existe um cinema marketing, para Paulo Oneto, as representações do Brasil internacionalmente estão se tornando mais proveitosas. "O Brasil virou um projeto de curiosidade, um dos mais interessantes, e é menos pitoresco do que antes. As pessoas passam a vir para cá porque querem entender o Brasil, as manifestações culturais e políticas. Nesse sentido, a representação brasileira melhorou em termos da pessoa virem para cá e se interessarem pelo país como objeto de analise e menos de 'farra'" diz ele. 

Um marketing simpático para o Rio de Janeiro/S.A. 

Rio, eu te amo custou aproximadamente R$ 25 milhões, um orçamento relativamente alto, especialmente para produções brasileiras.  O custo de produção e comercialização de Tropa de Elite, por exemplo, um grande sucesso nacional, foi de R$ 14,5 milhões. Entre os investidores está a prefeitura do Rio. 

Segundo dados da prefeitura, o investimento foi de pouco mais de R$ 2 milhões. Para o desenvolvimento do longa, foram destinados R$ 114.058 e mais um montante de R$ 35.414, através de um Prêmio Adicional de Renda repassados pela Ancine para a Rio Filmes, que foi investido nesse projeto. Para a produção do filme, mais R$ 2 milhões. 

O longa é uma interlocução entre dez curta metragens, dirigido por diversos cineastas de peso: José Padilha, Guillermo Arriga, Fernando Meirelles, Carlos Saldanha, Andrucha Waddington e Vicente Amorim. O time dos atores não deixa por menos e conta com a participações de estrelas como Rodrigo Santoro, Fernanda Montenegro, Claudia Abreu e Bruna Linzmeyer.

O filme intercala diversas histórias, como o curta-clipe Copacabana, dirigido por Meirelles, com uma apelação sensorial bastante interessante; ou ainda o inventivo que beira o cômico Vidigal, dirigido pelo sul-coreano Im Sang-Soo, no qual um mordomo vampiro, vivido por Tonico Pereira, habita as vielas do morro, fazendo prostitutas de vítimas. Os temas são muitos, mas o que fica claro é que o filme é realmente uma ode à cidade. Os pontos turísticos mais importantes estão em cena como locação para as histórias: Theatro Municipal, Cristo Redentor, Pão de Açúcar, Vidigal, Lapa, Estação Leopoldina, Pedra Bonita, Santa Teresa, Copacabana. As histórias foram feitas pensadas e divididas entre pontos de importância para o Rio, numa mistura para turista ver.

O Rio dentro do Rio

Na página oficial, o filme se mostra como um 'movimento de amor ao Rio". Diversas atividades foram programadas para acompanhar a estreia do longa, como cardápios em restaurantes e exposição de arte com cartazes alternativos do filme. Todas as atividades são concentradas na Zona Sul da cidade, voltada para um público muito específico. A Zona rica da cidade se concentra como o expoente cultural, negligenciando a maioria perdida longe das praias.

O Menu Rio, eu te amo junta dez restaurantes que fazem uma homenagem ao Rio. Absolutamente todos são na Zona Sul ou Centro. O Sá, em Copacabana criou uma posta de Garoupa de R$ 85. O Pavelka-Deli43, com unidades no centro e no Leblon, um sanduíche de mortadela de R$ 15,90. O Bibi Sucos criou o suco “A Musa” (figo, banana, gengibre e chá de hibisco) que custa R$10,50 o copo. O Meza Bar um Bloody Mary de R$24. 

*Do programa de Estágio do JB



Tags: crítica, cultura, filme, muniz sodré, realidade, rio, rio eu te amo, rj

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