Jornal do Brasil

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Rio

Protesto contra BRT aponta precariedade do transporte público no Rio

Jornal do BrasilGisele Motta*

Um protesto paralisou a Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, na manhã desta terça-feira. Centenas de manifestantes protestaram contra a redução do número de ônibus de linhas alimentadoras do sistema BRT, principalmente da linha 736, que faz o trajeto Cascadura-Riocentro. Segundo manifestantes, outras linhas problemáticas da região são a 758 (Cascadura-Recreio) e a 959 (Curicica-Recreio). Entre usuários e especialistas a opinião é parecida: o sistema BRT, apesar de ajudar, é mal implementado.

>>Rio: manifestação fecha a Avenida das Américas, na Zona Oeste

>>BRT: um sistema de transporte que já nasceu com problemas

>>Motorista fica parado no trânsito, enquanto candidatos sorriem nos cavaletes

William Viera Melo é morador de Santa Cruz e trabalha na Barra. Ele pega o BRT diariamente e disse que o tempo de trajeto diminuiu em pelo menos meia hora. Antes, quando ainda existia a Grota Funda, ele demorava cerca de duas horas para chegar até a Barra, pegando um ônibus especial. Agora, ele precisa ir até o BRT, e fazer uma transferência na Alvorada para uma linha alimentadora. Gasta por volta de 1 hora e meia no trajeto. Hoje, teve que descer na Estação Salvador Allende, onde acontecia o protesto. “Ninguém passava, realmente fecharam a Avenida das Américas toda”, comenta ele, que teve que voltar para casa. Dos cinco colegas que trabalham com ele, só dois conseguiram chegar.

Além do prejuízo para cerca de 13 mil pessoas que passam pela região, o protesto mostra a falta de diálogo entre o poder público e a população. Segundo o especialista em transporte urbano e professor da Uerj, Alexandre Rojas, a manifestação era previsível. “Essa manifestação já vinha sendo falada há cerca de duas semanas. Eu participei de debates recentemente e as pessoas reclamaram justamente do 736”, comenta. 

Além da precariedade no serviço dessas linhas específicas, os moradores têm outras reclamações sobre o Bus Rapid Transit, como superlotação e intervalos irregulares. “A viagem em si é rápida, não tenho nada a reclamar. O problema é a demora na saída dos ônibus, principalmente nos horários de pico. O número de ônibus não suporta o número de passageiros”, comenta William. “Outra coisa é que o terminal Alvorada está superlotado. São dois sistemas: a Transcarioca e a Transoeste. O estacionamento de ônibus fica engarrafado para a saída dos ônibus, dentro do terminal Alvorada. Isso porque não inaugurou ainda o de Deodoro, que também vai fazer ligação com a Alvorda, aumentando o fluxo”, completa.

William diz que o intervalo oficial entre os ônibus é de entre cinco e dez minutos, mas que na realidade o ônibus chega a demorar 20 minutos para sair. “Por causa do horário eu sempre vou em pé. O pessoal que pega às 4 horas, até 4h30 é muito cheio mesmo. Se eu quiser ir sentado, deve demorar quase uma hora para conseguir lugar”. Segundo Rojas, o problema poderá ser solucionado ou melhorado com a implantação de novos ônibus prometidos para setembro, que têm 28 metros e transportam até 270 passageiros, quase quatro vezes  a capacidade  de um ônibus comum.

Para Rojas o BRT é uma opção, mas não a melhor delas. “O BRT é uma alternativa encontrada, de menor curso e menor prazo, ela é a solução possível. O BRT, na atual situação é uma boa alternativa, mas o metrô continuaria sendo o ideal”, completa.  

Orlando Santos Jr, pesquisador do  Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional e do Observatório das Metrópoles,vai mais longe: a forma que o BRT é utilizada é obsoleta e elitista. “Eu fiz uma Missão de Monitoramento no BRT logo depois que ele foi implantado e ele já nasce obsoleto. São linhas lotadas, funciona como um trem superlotado, as mulheres tinham dificuldade de sentar, muitas pessoas tiveram que mudar seu horário de trabalho para poder se adaptar, porque era impossível utilizar o sistema em determinados horários de pico. Isso mostra, obviamente, as falhas no planejamento do sistema. Ele não é ruim ou bom em si mesmo, mas ruim da forma que está sendo utilizado”, critica o especialista.

Ele ainda observa a falta de articulação com outros meios de transporte. “O sistema é interessante desde que articulado com outros modais: a pé e bicicletas, mais especificamente. Mas os pontos de ônibus para os pedestres não estava bem sintonizados com as entradas das estações do BRT, as ciclovias eram insuficientes”, completa ele batendo na tecla da falta planejamento.

O professor acredita que as grandes obras em função das Olimpíadas e Copa do Mundo são, na verdade, uma forma de legitimar um investimento em áreas específicas do Rio de Janeiro: Região Portuária, Barra e Zona Sul. E investimentos feitos de forma muito específica, também, que visam favorecimento de grupos privilegiados. Pensando no BRT, ele viabiliza o uso de automóveis privados, é uma grande obra publica feita por empreiteiras privadas que também é gerida por empresa privada.

“Queremos só o suprimento dessa demanda de transporte para atender a necessidade de mão de obra para a barra da tijuca? Ou queremos descentralizar os polos econômicos da metrópole? Não era melhor ter um crescimento regional mais equilibrado, concentrando os postos de trabalho em vários locais da cidade, que diminuiria a tensão dos fluxos de mobilidade? O que está sendo planejado para a Barra [que está virando um centro econômico e de trabalho] é aquilo que reflete a necessidade da cidade?”, questiona ele.

 SMRT aplica multa na concessionária do BRT, depois de protesto

A Secretaria Municipal de Transporte (SMTR) informou que multou o consórcio Transcarioca em R$ R$ 1.300,00 “pela redução da frota da linha 736, que motivou o protesto”. A Secretaria ainda informou que caso a situação não seja regularizada, o consórcio será autuado diariamente e deverá pagar esse mesmo valor por dia de operação inadequada até que o serviço seja restabelecido.

O consórcio Transcarioca informou que está apurando as circunstâncias que causaram a redução dos ônibus da linha 736 e disse ainda que o serviço já foi normalizado. Em relação à multa, o consórcio vai aguardar a notificação oficial. 

Apesar de minimizarem o transtornos como um problema pontual, para especialistas e usuários do transporte, o problema não é só a linha 736 e a redução da frota desta linha vem sendo problema há algumas semanas, não só um caso isolado no dia de hoje

*Do programa de Estágio do JB

Tags: brt, manifestação, onibus, protesto, Rio, rj barra, Trânsito, transporte

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.