Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Rio

Especialista vê falta de preparo e opções na troca de comando em UPP

Jornal do BrasilGisele Motta *

A major Priscila Azevedo, comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, foi promovida a comandante das UPPs da Zona Sul. O fato foi informado em reunião com moradores na última quarta (20). Para o cientista social e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Elionaldo Ferreira Julião, a major é uma profissional bem aceita entre moradores e também dentro da corporação, por isso a mudança. A promoção dela, porém, acaba gerando uma ruptura na relação com os moradores e pode indicar a falta de profissionais que 'deram certo' dentro da proposta da UPP. Para Elionaldo, as frequentes mudanças de comando nas UPPS são indícios de falta de investimento na qualificação dos policiais que estão liderando dentro das favelas. 

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A major Priscila entrou no comando da Rocinha menos de um mês depois do desaparecimento do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, que repercutiu por todo país no final de 2013. Agora, sai da Rocinha para comandar a 2ª APP (Área de Polícia Pacificadora), que abrange as UPPs do Santa Marta, Babilônia e Chapéu Mangueira, Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, Tabajaras e Cabritos, Escondidinho e Prazeres, Vidigal, Cerro-Corá e Rocinha.

Segundo Elionaldo, por um lado, a troca de comandantes às vezes é necessária pelos problemas enfrentados entre os policiais e os moradores, mas isso é constantemente consequência da falta de investimento na formação dos policiais para lidar com a proposta da UPP, que é aproximar o morador do policial.

UPPS: falta de planejamento a longo prazo
UPPS: falta de planejamento a longo prazo

 "O caso de Priscila é muito interessante porque ela sempre foi muito bem vista. Ela foi, para o governo estadual, sinônimo de  ‘solução da Rocinha’ quando esta estava com problema. Minha preocupação é o fato de não manter um comandante que tem uma relação positiva com a comunidade. Tirando-se líderes vistos positivamente, se cria, de certa forma uma ruptura dentro da comunidade. É importante que se mantenha uma continuidade, no sentido de avançar com a proximidade, principalmente porque a comunidade passa a ter confiança nessa figura administrativa”, comenta Julião.

Apesar disso, a mudança pode ser vista também como uma oportunidade de Priscila dar seu exemplo para mais profissionais, a partir do momento que vai comandar não só uma unidade, mas estar em contato com várias áreas.

"É importante que o governo estadual faça planejamento de longo e médio prazo, faça qualificação dos comandantes para atuar dentro da perspectiva que é a UPP. Priscila se destacou porque se adequou à proposta da UPP, tendo uma articulação com a comunidade. Mas é claro perceber que faltam pessoas como ela. Essas figuras deveriam ser cada vez mais capacitadas para lidar com essa perspectiva. Se tiver um planejamento de longo e médio prazo vai diminui a troca dos comando. É por não ter isso que acontecem vários problemas e se muda frequentemente os líderes” completa o professor, especulando que Priscila poderia ser uma figura importante no sentido de ajudar nessa formação policial. 

Elionaldo acredita que os problemas com as lideranças policiais são mais uma faceta de um problema maior da cultura de administração pública no Brasil: a falta de continuidade, a ideia de estar sempre tapando buracos, dando soluções rápidas e provisórias e não planejando a longo prazo. 

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“A UPP surge como uma ideia que vem sendo construída de forma que as coisas vão acontecendo e sendo resolvidas concomitantemente. Não existe um planejamento de longo e médio prazo. Muita coisa caba acontecendo num improviso. A ideia de que ‘Fulano é boa para tal coisa, então vamos colocar ele para lá’ vai de encontro a ideia de que todos esses comandantes deveriam estar preparados. Mas eles não foram formados para isso. Os conflitos são por falta de preparo”, opina.  

Para ele, a UPP é um projeto bom, mas sua execução não foi feita da melhor forma. A UPP é mais do que segurança pública, é também integração social. Porém, os moradores das favelas ocupadas continuam sem acesso à direitos básicos como saneamento, educação e saúde. 

* Do programa de estágio do JB

Tags: comandante, CONFLITO, priscila, Rio, RJ, rocinha, upp

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