Jornal do Brasil

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Rio

Em meio ao clima de tensão e confronto, Rocinha troca comando de UPP

Major Pricila foi promovida a assumirá área de polícia pacificadora da Zona Sul

Jornal do BrasilDavison Coutinho *

A major Priscila Azevedo, comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, foi promovida a comandante das UPPs da Zona Sul. Com isso, o comando da unidade da comunidade passará para o comandante do São Carlos, major Leonardo Nogueira, que já comandou as UPPs do Pavãozinho e Mangueira. O anúncio foi feito na noite de quarta-feira (20) pelo coronel Frederico Caldas, coordenador das UPPs, em reunião com moradores da Rocinha na associação local. A troca só será realizada depois que o coronel definir o nome do substituto do major Nogueira no São Carlos. Pricila assumirá a 2ª APP (Área de Polícia Pacificadora), que comanda as UPPs do Santa Marta, Babilônia e Chapéu Mangueira, Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, Tabajaras e Cabritos, Escondidinho e Prazeres, Vidigal, Cerro-Corá e Rocinha.

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O encontro serviu para que moradores levassem ao coronel as queixas com relação à UPP, como o aumento da violência e a falta de respeito com a população. O encontro teve início com a apresentação de presidentes de associação e presidente da união comunitária. Foi relatada a importância do diálogo da comunidade e estado. A major Pricila e o coronel Frederico Caldas falaram da importância da boa relação com o morador.

Moradores se reuniram com comando de UPP
Moradores se reuniram com comando de UPP

O líder comunitário Carlos Eduardo Barbosa, o Duda, falou sobre a privação do direito de ir e vir dentro da comunidade e a dificuldade de levar reclamações à UPP, tendo em vista que muitas vezes o morador é classificado como defensor de marginal.

Duda relatou que, em março de  2013, recorreu à UPP da Rocinha e informou que a família de Amarildo estava sendo perseguida pela policia, porém não foi ouvido e logo em junho Amarildo foi morto. Ele frisou que os problemas da Rocinha vão muito além da segurança. "Quem dera se os problemas da Rocinha fossem apenas segurança, aqui falta o básico." Ele reclamou que as ações policiais estão sendo muito violentas e informou que quando acontecem tiroteios, o medo é a morte dos inocentes.

Adriana Pirozzi, professora e líder comunitária, elogiou a coragem da major Pricila e informou que as instituições sociais da Rocinha querem ser parceiras da pacificação,  mas que nunca sentiu vontade da UPP em fazer parcerias com os projetos locais.

Comando de UPP ouviu queixas
Comando de UPP ouviu queixas

O coronel Frederico afirmou  que a Rocinha não  era melhor antes da pacificação, e que acredita que a situação na comunidade hoje é totalmente diferente. Frederico afirmou que não vê o policial como alguém que impeça o direito de ir e vir. Ele citou que os eventos em comunidades são impedidos por falta de lugares adequados para a sua realização, o que dificulta a liberação por parte da UPP, para que não aconteça acidentes. Ele afirmou que o RIo de Janeiro está bem melhor que há seis anos. E reconheceu que o projeto ainda está distante do ideal, reconhecendo que alguns policias agem errado, inclusive, nas abordagens policiais.

Major Pricila informou que a Rocinha, por ser muito grande, tem uma demanda muito complexa. E que está aberta a parcerias com instituições locais que priorizam o bem da comunidade. Afirmou que a UPP já faz essa parceria com algumas instituições locais, com pessoas sérias com compromisso e histórico idôneo. A major admitiu que fica muito triste quando recebe reclamações de ações que prejudicam as crianças.  E que preza para que a geração das crianças seja livre da vida do tráfico. A major garantiu que, se dependesse dela, não teria confrontos na Rocinha, se desculpou pelos conflitos acontecidos. E comparou a gestão dela no Santa Marta, onde nunca teve um confronto armado nos dois anos de seu comando.

A moradora Eliana reclamou que esse tipo de diálogo da UPP e moradores deveria estar acontecendo há muito tempo. Informou que a rua 2 está um caos e descordou do coronel Frederico, afirmando que a Rocinha ficou pior nos últimos anos. "Antes sabíamos que tínhamos apenas um poder armado e podíamos andar tranquilamente. Agora, temos dois poderes e a qualquer momento podemos estar no meio de um conflito em qualquer horário. Quando eu vejo a Rocinha como está, eu fico triste. A UPP morreu junto com o Amarildo, e a Rocinha está em uma situação muito próxima a do Complexo do Alemão. Eu rezo e acredito que a UPP vai melhorar."

Eu, Davison Coutinho, aproveitei a fala e informei que nós moradores não somos contra a pacificação, mas somos contra aos projetos e serviços públicos que não chegaram na comunidade. Antes, os serviços não vinham pela desculpa de não haver segurança e ainda hoje  presenciamos a falta dos serviços básicos na comunidade. Afirmei que não haverá paz e pacificação enquanto a comunidade viver no descaso, enquanto a prioridade não for a capacitação e formação de nossos moradores por meio da educação e cidadania.

O morador e professor de arte conhecido como Roque informou que em meio a sua atividade de desenho com  com 40 crianças da Rocinha, foi abordado de forma violenta e espancado por policiais da UPP que estavam sem identificação. Roque prestou queixa na delegacia depois de esperar de meio dia até 20h. Inconformado, foi até a Alerj na comissão de Direitos Humanos e vai levar a denúncia a diante para que os policiais sejam tirados da Rocinha.

O mestre de Capoeira Manel relatou que a comunidade piorou nos últimos tempos e se diz preocupado com o futuro das crianças, sabendo que  na Rocinha não se tem boas escolas.

O morador Kadu do esporte afirmou que não viu outra opção a não ser deixar de morar na Rocinha. Segundo ele, onde morava era muito tranquilo antes da pacificação. E hoje  é impossível morar lá. O morador desabafou que esperava uma grande transformação para comunidade, mas que ainda falta muita coisa a ser feita. Ele  citou que a clinica da família não funciona mais e que os projetos prometidos ficaram apenas no desejo do morador. "A esperança era de uma Rocinha melhor. Onde falta esporte, lazer e cultura, sobram violência"

O coronel Frederico respondeu que a Rocinha, por ser muito grande, os problemas são maiores, e lamentou que a UPP chegou e os serviços do poder público não acompanharam o processo de pacificação. O coronel Informou que o papel dos projetos sociais da UPP é aproximar a relação dos moradores com policiais. Respondendo sobre a questão da violência, o coronel admitiu a dificuldade do combate devido ao grande mercado de drogas no Brasil e principalmente na zona sul do Rio de Janeiro. Comentou que não tolera atitudes desrespeitosas dos policiais com os moradores. Afirmou que defende o bom policial, mas não aceita policial que maltrata morador e recomendou que os casos de abuso devem ser denunciados. Segundo o coronel, a Rocinha e o Complexo do Alemão são os maiores desafios da pacificação.

* Davison Coutinho, 24 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel emdesenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade.

Tags: Coutinho, davison, pacificação, reunião, rocinha

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