Jornal do Brasil

Domingo, 25 de Fevereiro de 2018 Fundado em 1891

Rio

Sociedade civil cobra conversão do antigo Dops em centro de memória

Agência Brasil

Grupos da sociedade civil voltaram a cobrar hoje (19) a transformação do prédio do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Rio de Janeiro, órgão da repressão da ditadura, em espaço de memória e resistência. O prédio, fechado desde 2008, pertence ao estado, e é administrado pela Polícia Civil. A ideia é que o prédio seja usado para abrigar organizações de defesa dos direitos humanos e para atividades culturais.

Apresentada em audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), a proposta da sociedade para o antigo Dops prevê a reforma do prédio para abrigar teatro, shows de música, exposições, uma sala de estudos com biblioteca aberta ao público, além da instalação de órgãos como o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos e o Comitê Estadual de Prevenção e Combate à Tortura. A gestão do espaço de memória seria feita por órgãos do estado do Rio, em conjunto com representantes da sociedade civil e de universidades.

Segundo a representante do Grupo de Trabalho Dops, da Comissão Estadual da Verdade (CEV), Fenanda Pradal, o prédio está “abandonado por dentro”. Ela exibiu fotos de infiltrações, da infraestrutura precária e de má conservação de documentos, inapropriados para o manuseio, por causa da contaminação por ratos. Fernanda defendeu o tombamento oficial do imóvel, tanto pela importância histórica quanto para evitar a descaracterização e resguardar o acervo.

“A sala onde funcionou o Dops ainda tem a vedação acústica, que era utilizada para abafar as práticas de tortura, e algumas celas por onda passaram presos políticos estão parcialmente preservadas”, declarou. Sem o tombamento, que pode ser feito por órgãos estaduais, ela acredita que uma parte da história contemporânea do país e das práticas do regime militar se apagará.

A representante do Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça, Ana Buksztyna Miranda, que foi torturada e mantida presa no prédio durante o regime militar, diz que “é urgente a construção de um espaço no local, comprometido com a memória da resistência e das lutas sociais, que demonstre as violações de direitos cometidas pelo Estado”, ao longo da história. Com isso, ela acredita que é possível estimular medidas que impeçam “a repetição dos fatos”.

“É preciso transformar o prédio em um espaço voltado para as políticas de direitos humanos, de modo que seja dinâmico e exclusivo, congregando a produção, guarda e circulação de informações, documentações, acervos e projetos voltados ao direito à memória, verdade e justiça”, afirmou, ao ler manifesto pela transformação do prédio, com assinaturas de 50 entidades.

Representando a Polícia Civil na audiência, o assessor institucional Gilbert Stivanello disse que há um receio de “estigmatizar” a corporação por uma atividade durante duas décadas, com a cessão do prédio. “Envergonhamo-nos com esses equívocos [o envolvimento da Polícia Civil no Dops], mas a corporação não pode resumir sua existência centenária à existência do Dops”, disse. Ele negou que o prédio vá receber lojas, e disse que o planejamento é para o Museu da Polícia Civil.

A presidenta da CEV, Nadine Borges, lembrou que o Ministério Público Federal (MPF) pediu o tombamento do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), na Tijuca, ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O local é apontado como o maior centro de tortura e assassinatos pelo regime militar no Rio. O requerimento do MPF completa um ano amanhã (20).

O governo do estado não mandou representante à audiência e não respondeu à reportagem sobre a reivindicação da sociedade. Ficou decidido, na Alerj, que nova audiência será promovida em novembro, com o governador eleito, para tratar do tema.

Tags: Governo, Rio, alerj, dops, prédio

Compartilhe: