Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Rio

Rocinha: "Falam de aproximação com o morador, mas a entrada da UPP é um terror"

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

Moradores da comunidade da Rocinha, Zona Sul do Rio de Janeiro, continuam tendo problemas de segurança e descaso. A comunidade, que teve sua primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) inaugurada no dia 20 de setembro de 2012, ainda aguarda o avanço total da infraestrutura na localidade, um dos carros chefes do projeto, pelo menos no papel. Não bastassem as obras não concluídas ou atrasadas do PAC 1 e a preocupação com o PAC 2, os moradores têm que lidar com desdobramentos dá má administração pública. A reclamação é que o caminho que leva à UPP, em uma localidade conhecida como Sítio Portão Vermelho, facilita a ação de criminosos e oferece riscos aos pedestres e motoristas.

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Segundo o morador e colunista do Jornal do Brasil, Davison Coutinho, que é uma das lideranças comunitárias, “o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] construiu um parque ecológico no local, abandonou as obras e o resultado é um caminho de barro esburacado e escuro, onde transitam moradores com muita dificuldade e medo”. Davison diz ainda que “as crianças voltam da escola em grupo com medo do caminho e os veículos sobem com muita dificuldade”.

Para o líder comunitário, “o governo do estado nos últimos anos vem pregando nos comerciais e discursos a retomada das favelas com a política de pacificação. Na Rocinha, a UPP perdeu a credibilidade com os moradores depois da morte do pedreiro Amarildo. No entanto, os moradores não são contra a política de pacificação, mas são contra a posição do Governo em oferecer apenas policiais em meio aos diversos problemas da comunidade”.

Ele ressalta ainda que “a UPP chegou, mas os serviços necessários para a Rocinha ainda estão longe de estarem acessíveis a nossa população. A comunidade ainda não é tratada como parte integrante da cidade e sofre com a deficiência do poder publico.  Essa é mais uma prova do descaso na Rocinha”. E completa: “Falam em aproximação do morador com a UPP, mas a entrada para base é um terror”.

O produtor cultural Jorge Luiz também mora na comunidade. Revoltado, ele mostra a rua esburacada e critica a política empregada na Rocinha. “Engraçado, né? Em véspera de eleições mostram que fazem e acontecem, mostram até o que não fazem. Vêm com fotos de tapa buracos para dizer que fazem, mas olha isso! Faz tempo que moradores passam por buracos e falta de luz. Por que durante quatro anos não fizeram esse trecho também? Será que o material não pode subir? Atenção, Rocinha! Não se deixem enganar novamente" alerta.

Moradora da comunidade, Stefanie Santos tem medo de andar pelo caminho que leva à UPP. "Passar ali de noite é sempre um terror. Morro de medo de acontecer alguma coisa. É uma escuridão, não dá para ver nada. É impossível não lembrar logo do Amarildo no meio do caminho. Pior é ver as crianças voltando da escola, meu medo é acontecer uma tragédia”, confessa.

“É UPP para inglês ver”

Diante das denúncias, o Jornal do Brasil procurou especialistas para comentar as deficiências da segurança pública na Rocinha. Para eles, a segurança pública não chegou ainda de maneira efetiva nas comunidades ditas pacificadas. Além da infraestrutura, a relação entre moradores e policiais também foi apontada como uma das falhas do projeto.

Ao ouvir as denúncias dos moradores, o cientista social da Universidade Federal Fluminense (UFF), Elionaldo Fernandes, disse que é “assustador imaginar essa situação”. Ele enfatizou que “como o Jornal do Brasil já falou antes, é UPP para inglês ver. Muito do que se prometeu é uma fachada para a mídia. As coisas não estão seguindo o ritmo que deveriam. Está tudo pela metade”.

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Elionaldo alerta ainda que problemas semelhantes estão acontecendo em outra comunidades. “[A UPP] É um jogo de marketing em detrimento de uma realidade que só quem vive, sabe. A proposta política não teve continuidade. Não chegaram os outros serviços. Na inauguração da UPP da Vila Kennedy, eles fizeram uma festa. E agora? Como está?”, questiona. Ele diz que “os problemas não são mostrados, divulgados. Essa denúncia, por exemplo, ficaria encoberta se não denunciado tivesse sido considerada pelo Jornal do Brasil. Estamos em época de eleição”.

O antropólogo e professor da PUC-Rio, Bernardo Conde, também comentou as denúncias. Para ele, “essa situação é comparável com a forma como o processo foi e está sendo implementado”. E explica: “o estado está apenas parcialmente presente na comunidade. Era fundamental que houvesse uma adaptação dos profissionais da UPP com os moradores. Quando uma UPP é implementada, é preciso que os policiais entendam os aspectos culturais e particulares daquela comunidade. Além disso, é necessário entrar com uma estrutura mínima que seja compatível com as promessas de condições sociais”.

Bernardo acredita que “falta diálogo entre policiais e moradores e falta estrutura do ambiente, que deve ser oferecida pelo estado. O governo precisa mostrar que existe uma saída para o tráfico e que ela é boa”. O antropólogo defende que “a UPP é apenas um fragmento do processo de integração” e que “o governo assentou na boa repercussão do projeto. É o primeiro passo, o mais fácil de todos. O mais difícil é implementar uma cultura cidadã, de integração”.

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Procurado, o governo do estado se defendeu das acusações. Segundo a Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (EMOP), “Não há abandono de obras. A EMOP concluiu a primeira fase da construção do Parque Ecológico da Rocinha, e aguarda o início das obras do PAC 2, para a conclusão da segunda fase.  Antes da decisão de se construir o parque, a área era escura, sem segurança e com a Mata Atlântica invadida por 158 famílias. A construção do parque impede a ocupação de área de preservação e proporcionará lazer e estudos de ecologia à população da Rocinha. A Região conhecida como Cobras e Lagartos - local onde foi construído o parque - também era uma das áreas da Rocinha com alto índice de tuberculose.  Com a realocação das 158 famílias, evitou-se também tragédia com 10 dessas famílias que estavam em pequenas habitações construídas em área que deslizou nas fortes chuvas de 2010. Nesse período (2010) foi preciso a utilização de parte dos recursos da fase 1 do Parque Ecológico para obras de contenção. Com a conclusão das obras e a UPP instalada, o processo é  de segurança e lazer para a comunidade”.

A Secretaria de Estado de Segurança também foi procurada, mas não comentou o caso, apenas indicando a assessoria de imprensa da UPP, que por meio de nota, se manifestou dizendo: “a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha conta com um efetivo de 700 policiais para o patrulhamento da comunidade. O comando da unidade está sempre aberto a receber as denúncias dos moradores, inclusive quando se referem ao policiamento em alguma área específica, e procura atender às possíveis necessidades transmitidas”. 

Com Davison Coutinho

* Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: comunidades, descaso, Favelas, pac, pacificadas, problemas

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