Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Rio

Moradores da Rocinha reclamam da falta de médicos em Clínica da Família

Jornal do BrasilCláudia Freitas

O atendimento médico nas Clínicas da Família instaladas na comunidade da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro, é alvo de muitas reclamações dos moradores da região. Segundo os relatos de alguns pacientes, há dois meses as consultas estão sendo desmarcadas em função da falta de profissionais para atender a população.

A doméstica Edilene Celix dos Santos, de 41 anos, passou a quinta-feira (7/8) tentando um atendimento médico para o seu filho de 11 anos, que reclamava de muito dor na barriga desde a madrugada. "Estamos aqui [Clínica da Família] desde cedo para fazer a consulta, mas não tinha médico para atender. Mandaram a gente para a UPA que fica aqui do lado, mas lá também o atendimento não foi feito e voltamos para a Clínica da Família. Enquanto isso o menino está sentido dor", disse Edilene, já por volta das 15 horas. 

Maria de Fátima Alves, moradora da Rocinha
Maria de Fátima Alves, moradora da Rocinha

A moradora Maria de Fátima Alves, de 45 anos, estranhou os novos procedimentos da Clínica da Família. "Tem um mês que preciso de um atendimento e agora vi que está tudo mudado. Apenas para marcar uma consulta tem burocracia, somente as quintas-feiras que eles fazem a marcação. Espero que quando chegar o dia do meu atendimento o médico não falte o trabalho", disse a paciente.

Com suspeita de tuberculose, o agente social José Martins de Oliveira, de 67 anos, teve a sua consulta remarcada por duas vezes desde junho pelos agentes da Clínica da Família Rinaldo De Lamare. Segundo o morador, ele conseguiu ser avaliado por um clínico geral no dia 13 de maio, quando foi cogitada a suspeita de tuberculose, e uma nova consulta foi marcada para o dia 24 de junho. O médico indicou uma radiografia de tórax e eletrocardiograma, que ficaram prontos no final do mesmo mês, de acordo com Oliveira. "Dois dias antes da minha segunda consulta, os agentes da clínica estiveram na minha casa e desmarcaram. Me deram uma nova guia para eu ser avaliado pelo médico no dia 26 de junho. Cheguei no dia e horário marcado e o médico faltou novamente. Até hoje não consegui um médico para avaliar os meus exames", contou o morador.

Moradora da Rocinha, Edilene Celix dos Santos
Moradora da Rocinha, Edilene Celix dos Santos

Na esperança de conseguir uma solução para o seu problema, nos dois últimos meses Oliveira compareceu por duas vezes na semana na Clínica da Família que é cadastrado, mas a resposta dos agentes é sempre a mesma: "Não tem médico para atender os moradores". Em uma das suas tentativas, o morador ouviu de um agente de saúde que a deficiência deveria ser resolvida com a troca da equipe médica. 

Oliveira também usou o serviço telefônico que a prefeitura disponibiliza para a população reclamar das deficiências na área da saúde no município, através da linha 1746. Mais uma vez não conseguiu solução para a sua questão. "A minha maior preocupação é a doença avançar enquanto aguardo por atendimento. A Rocinha tem muitos casos de tuberculose", disse ele.

Clínica da Família na Rocinha
Clínica da Família na Rocinha

Pelos dados da Secretaria Municipal de Saúde (SME), a comunidade da Rocinha é coberta por três unidades de Atenção Primária que, juntas, realizam por mês uma média de 61,3 mil procedimentos. Na estatística geral, são 36 médicos atendendo nas unidades, onde há 73.360 moradores cadastrados e 25 equipes de saúde da família. "A cobertura do Programa de Saúde da Família na comunidade é de 100%", garante a SMS em nota para o Jornal do Brasil.

Segundo a SMS, o médico que atenderia Oliveira deixou o serviço na Clínica da Família Rinaldo de Lamare. "Enquanto correm os trâmites legais para a rescisão contratual e contratação de profissional para substituí-lo, com base nas normas da CLT, as consultas sem urgência estão sendo remarcadas para outras datas. Pacientes que tenham prioridade de atendimento, indicada pela equipe de enfermagem, são encaminhados para outros médicos", informou o órgão.

Parlamentar quer investigação do Ministério Público sobre atendimento precário

O vereador Paulo Pinheiro (Psol-RJ), membro da Comissão de Saúde da Câmara, encaminhou um relatório ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPE) destacando pontos deficientes no programa Clínica da Família em diversos bairros, inclusive na Rocinha. Outros órgãos fiscalizadores também foram notificados pelo parlamentar, entre eles o Tribunal de Contas do Município.

Pinheiro considera que quando a prefeitura divulga que 41% da população têm assistência integral de saúde, os dados não correspondem à realidade. A equipe do vereador realizou no início do ano visitas à diversas unidades da Clínica da Família no Rio e confirmou as denúncias dos pacientes. 

Tags: comunidade, família, procedimentos, profissionais, reclamações, Tuberculose

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