Jornal do Brasil

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

Rio

Inauguração de UTR do Rio Irajá é adiada pela quarta vez em um ano

O rio desemboca na Baía de Guanabara e é responsável por 12% da poluição da Baía de Guanabara

Jornal do BrasilGisele Motta *

A promessa da Unidade de Tratamento de Rio (UTR) do Rio Irajá começou em 2011. O secretário estadual de Meio Ambiente da época, Carlos Minc, afirmou publicamente que a obra seria fruto de um acordo com a Petrobraás que, já na época, não confirmou a situação. A expectativa, em março de 2011, era que a obra começasse em junho e terminasse cinco meses depois. Desde então, a UTR tem sido uma esperança para diminuir a quantidade de lixo e esgoto que deságua na Baía de Guanabara, contribuindo de forma significativa para sua despoluição, uma promessa do governo para as Olimpíadas de 2016. As obras começaram finalmente em 2012 e o prazo era para o novembro de 2013. Em novembro, o prazo de inauguração foi adiado para março de 2014 e, em abril, para julho deste ano. O mês acabou e a UTR não foi inaugurada. A nova previsão é que ela esteja pronta para uso em dezembro.

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Segundo a Secretaria de Estado de Ambiente (SEA), em novembro de 2013 a UTR Irajá passou pelos primeiros testes de operação com previsão de estar em pleno funcionamento até o final de março de 2014, porém, teve que ser modificado. “As obras estavam dentro do cronograma, porém em virtude da grande vazão do rio em épocas de chuva a Companhia Rio Águas solicitou obras de adequação. Para realizar essa adequação, UTR Irajá passa por obras de alteamento de suas instalações com previsão de entrar em operação no final de outubro de 2014.” O processo de alteamento é para que a estação fique mais alta para melhor escoamento da água. As obras estão acontecendo desde abril, mas ainda não estão concluídas.

A Fundação Rio-Águas informou que “em vistoria no Rio Irajá constatou que a UTR estava sendo construída sobre a calha do rio obstruindo seu fluxo, o que deixaria a região do Irajá sujeita a alagamentos frequentes”. O órgão, então, comunicou a SEA da necessidade de readequar a construção do equipamento no nível ideal, de forma que não dificulte o escoamento do curso d'água em tempos de chuva. As obras macaqueamento da estrutura estão em andamento.

Para o oceanógrafo David Zee, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a UTR do Rio Irajá seria muito importante para a Baía de Guanabara. “Faria uma grande diferença. Qualquer coisa faz diferença, tendo em vista a grande carga de esgoto que chega até a Baía. Essa medida é muito positiva. Lógico que a engenharia correta diz que a retirada tem que ser no nascedouro, ou seja, dentro das casas, saneamento. Mas quando não tem isso e chega até os rios, que pelo menos haja esse tratamento nos rios, uma medida mais rápida e que é também eficiente”, explica.

Para o especialista, os constantes atrasos mostram o descaso com o compromisso de despoluição da Baía de Guanabara, onde o rio desemboca, que servirá para as competições de vela. O governo do Estado assumiu o compromisso de sanear 80% da Baía até 2016, quando acontece a Olimpíada que, para o biólogo, é uma meta pouco crível.

“Eu acho que é uma meta muito ambiciosa. E vemos que se prometeu uma coisa que já está na quinta revisão de meta. A UTR era para janeiro, fevereiro, abril, agora dezembro. Aquilo que está se prometendo não se cumpriu. Existe esse histórico de atraso”, comenta Zee. “Alias é uma meta muito ambiciosa e subjetiva. É 80% do esgoto lançado, 80% da despoluição da orla? O que são esse 80%? De qualquer forma, eu seria mais modesto”, completa.

Para ele, seria melhor uma meta mais real que pudesse de fato ser concretizada, e apostar em recuperação a longo prazo. “É melhor fazer o que é possível fazer, que são esses instrumentos e principalmente aumentar a rede de saneamento da baixada. Tem que universalizar o saneamento. Tem municípios inteiros sem rede de esgoto, como São João de Meriti. Todo o esgoto vai para galerias de águas e consequentemente para os rios”, completa.

Sobre o saneamento a longo prazo, a secretaria informou que o Programa de Saneamento Ambiental (Psam) é o principal projeto, e que já está sendo implementado. "O município do Rio de Janeiro já possui um plano de saneamento com intervenções previstas para a Baixada Fluminense. Inclusive já está em projeto executivo as obras, a cargo do PSAM, que beneficiarão, com a construção de rede coletora, três lotes da Baixada Fluminense (Caxias Leste, Caxias Oeste e São João de Meriti)", disse em nota a assessoria da Secretaria. 

Baía de Guanabara pode ser um risco para os atletas

A repercussão internacional da Baía de Guanabara entre os esportistas internacionais vai de mal a pior. Em abril, a equipe de Vela da Alemanha chamou a Baía de Lixeira e questionaram como os governantes iriam resolver o problema. Em maio, o velejador austríaco Nico Delle Karth, que vai competir em 2016, disse que a Baía de Guanabara é “o pior lugar que ele já treinou”. Ele declarou ao jornal americano The New York Times, que “nunca havia visto nada assim”.

Os riscos para a saúde existem e, além disso, os riscos para a competição, devido aos resíduos físicos que podem ser vistos de longe. “Existe risco de contaminação se você está num dia com a sua defesa enfraquecida, alguma ferida. Isso são fatores que potencializam a contração de doenças. Doenças como Micoses, gastroenterite, conjuntivite”, enumera Zee.

“No caso do esporte, a prioridade é o resíduo. Uma vegetação, uma alga, um plástico que pode prender na quilha e fazer o competidor perder segundos preciosos. A poluição não é só com coliformes e bactérias, mas com óleo, que pode aderir ao casco do navio, tornando ele mais lento, fora a possibilidade de aparecer carcaças e objetos grandes que podem danificar os barcos. A nossa meta primeira agora, além da questão permanente de saneamento básico, é retirar a maior quantidade de resíduos possível da Baía de Guanabara para que seja possível a competição”, completa ele.

O processo de catar o lixo já está sendo realizado. Este ano são 10 embarcações especiais que realizam a coleta do lixo flutuante no espelho da água da baía.Também faz parte da tentativa de conter o lixo, as barreias nos rios que, segundo o biólogo, podem estar comprometidos “Ultimamente temos conhecimento que as barreiras não estão sendo mantidas adequadamente, foram rompidas em alguns pontos”, completa ele. 

A SEA informou que hoje existem 11 ecobarreiras em operação no entorno da Baía de Guanabara,nos seguintes rios: Rio Meriti; Rio Irajá; Canal do Cunha; Rio dos Cachorros; Rio Botas,; Canal do Mangue; Rio Pavuna; Rio Sarapuí/Catiri; Base Naval; Rio Bomba; e Rio Brandoas. A Secretaria ainda informou que, no início deste mês de julho, foi concluída a reconstrução das três principais ecobarreiras do entorno da Baía de Guanabara - localizadas nos rios Irajá, Meriti e Canal do Cunha. 

As outras UTRs

O projeto original previa seis UTRS, como consta no site oficial da SEA. O canal e os rios selecionados para a implantação das UTRs são os que apresentam maior contribuição de poluentes para a Baía de Guanabara, considerando-se as concentrações e vazões afluentes: Canal do Cunha, que representa 7% das fontes de poluição hídrica que chegam à Baía de Guanabara; Rio Irajá, que representa 12%; Rio Pavuna-Meriti (22%); Rio Sarapuí (32%); Rio Imboaçu (3%) e Canal do Mangue (4%). A SEA foi questionada sobre as obras das outras UTRs mas não respondeu até o fechamento desta matéria. 

 Segundo a SEA, o projeto para implantação da Unidade de Tratamento de Rio (UTR) Pavuna-Meriti está em fase de licenciamento e detalhamento para aquisição de equipamentos e posterior implantação do canteiro de obras. Em nota, a Secretaria informou que "o prazo de duração é de nove meses após o início das obras. Somente esta unidade removerá cerca de 20% da poluição que deságua na Baía de Guanabara". 

Os projetos para implantação das unidades de tratamento dos rios Sarapuí e Imboaçu, e dos canais do Mangue e do Cunha foram enviados aos ministérios das Cidades e dos Esportes e aguardam verba do Governo Federal,segundo informações da SEA. 

Mais problemas em São Conrado, zona Sul do Rio

Há seis anos, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) considera as águas de São Conrado impróprias para banho. Com expectativas de obras de saneamento desde 2012, através do Plano Sena Limpo, da SEA, esperava-se melhores condições para a população. O começo das obras era previsto para o começo de 2012. Estavam incluídos a reforma da estação elevatória de São Conrado, a construção de galeria para captar esgoto na orla, e novas tubulações que levam o esgoto de São Conrado até a estação de tratamento do Leblon. 

A maior parte das obras começaram somente em 2013 com expectativas de ficarem prontas em julho,mas poucas coisas foram finalizadas. Das tubulações, cerca de dois quilômetros, só cerca de duzentos metros foram instalados. Não são vistos trabalhadores na regão. A Cedae, porém, responsável pelas obras, afirma que elas não estão paradas. Ela ainda deu um novo prazo: dezembro deste ano. Assim como as UTRs. 

 *Do programa de estágio do JB

Tags: #olimpíadas, baía de guanabara, despoluição, Rio, rio irajá, RJ

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