Jornal do Brasil

Terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Rio

UTRs para as lagoas da Zona Oeste ainda estão no papel

Quatro novas Unidades de Tratamento de Rios fazem parte do projeto e estão em 'captação de recurso'

Jornal do BrasilGisele Motta *

Começaram nesta quinta-feira (5) as obras para despoluição das lagoas da Barra da Tijuca e de Jacarepaguá, na Zona Oeste, que incluem as lagoas de Marapendi e Camorim. A gestão das Lagoas de Jacarepaguá é de competência do Governo do Estado e a primeira parte pela qual ele está responsável é a recuperação dos manguezais, feita pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente. Parte do trabalho será realizado pelo biólogo Mário Moscatelli, coordenador do Projeto Olho Verde. A prefeitura mantém  a Unidade de Tratamento de Rio do Arroio Fundo e prometeu mais quatro UTRs até 2016. Até agora, porém, nenhuma delas saiu do papel. 

Para Moscatelli, a parte de recuperação dos manguezais não será a maior dificuldade. “A parte de limpeza dos manguezais consiste no isolamento das áreas de mangue, com barreiras físicas para evitar que mais lixos cheguem na área. Precisamos tirar todos o resíduos depositados e fazer os replantios. Isso é um processo relativamente rápido”, comenta o biólogo. Porém, o simples uso de barreiras não é o suficiente para manter o sistema de lagoas limpos. A água precisa ser tratada, para resultados a longo prazo. 

Lagoa de Jacarepaguá sofre com o despejo de lixo e esgoto
Lagoa de Jacarepaguá sofre com o despejo de lixo e esgoto

 “Eu espero que essas sejam as ultimas barreiras que eu estou instalando nos manguezais, mas na atual situação não sei dizer se serão. Hoje, todos os rios que chegam no sistema lagunar são valas de lixo e esgoto e se o conteúdo desses rios nãoforem  impedidos por fiscalização ou barreira física, de penetrem nas lagoas, as lagoas vão continuar existindo no estado que estão”, completa.

Se “tudo der certo”, o cenário é bastante positivo, tanto do ponto de vista ecológico quanto econômico. “Num mundo hipotético ideal, onde foram instaladas as UTRs,não chega nem esgoto nem lixo nas lagoas e elas foram desassoriadas, as áreas de mangue foram ampliadas e recuperadas, num prazo de dez anos, vamos ter atividade pesqueira esportiva, atividade pesqueira de subsistência,esporte e um  incremento tanto na biodiversidade quanto na atividade econômica”, completa.

Esse mundo ideal, porém, depende das UTRs, que funcionam tanto como barreiras para o lixo como despoluidores da água, e foram prometidas em quatro afluentes: no Rio das Pedras, Arroio Pavuna e Pavuninha e no Canal do Anil. “Quatro anos atrás, o prefeito [Eduardo Paes] me falou que instalaria essas quatro unidades”. Até agora, nenhuma movimentação nesse sentido foi concretizada.  A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smac) foi procurada para comentar sobre como anda essas UTRs relativas às lagoas da Barra e informou que quem trata do assunto é a Fundação Instituto das Águas do Município do Rio de Janeiro (Rio-Águas), o órgão técnico de referência no manejo de águas pluviais urbanas do município. 

A Rio Águas informou que "depende da captação de recursos via Governo Federal, que está em andamento" e completou que "o orçamento inicial para implantar mais quatro UTRs é de cerca de R$ 140 milhões". Esse seria o processo a curto prazo, que não foi iniciado. A longo prazo, a situação só se resolveria com políticas de moradia e fiscalização. “É o que sempre precisamos. Transporte, habitação e fiscalização. Vejo a malha urbana crescendo de forma completamente desordenada em cima dos rios”, diz Moscatelli. 

'Hoje, todos os rios que chegam no sistema lagunar são valas de lixo', diz biólogo
'Hoje, todos os rios que chegam no sistema lagunar são valas de lixo', diz biólogo

Sobre seu trabalho nos manguezais da Barra, ele diz: “mangue não faz milagre”. Porém, baseado em outras experiências, a recuperação dos manguezais pode melhorar em muito a questão da biodiversidade. “Eu tenho trabalhado na baixada de Jacarepaguá com a recuperação de manguezais desde 1992 e, a partir do momento da recuperação, depois de dois ou três anos você tem um real incremento da biodiversidade, os animais resistentes a poluição hídrica, começam a reaparecer ou aparecer em maior quantidade. Aves de media sensibilidade reaparecendo, como a Maria Faceira e o Colhereiro”, comenta.

Baía de Guanabara: 'estável' para secretário de meio ambiente, mas 'de mal a pior' para biólogo

Baía de Guanabara: fotos aéreas tiradas pelo projeto Olho Verde, coordenado por Moscatelli
Baía de Guanabara: fotos aéreas tiradas pelo projeto Olho Verde, coordenado por Moscatelli

O secretário estadual de Meio Ambiente, Carlos Portinho, declarou que "A qualidade da Baía de Guanabara se mantém estável há 4 anos, com os padrões recomendados nas raias de competição". Moscatelli, porém, não vê a área de forma tão positiva. 

>>Atrasos comprometem mais uma vez despoluição da Baía de Guanabara

"Estável, mas depende. Eu acho que está de mal a pior. Depois de 20 anos e 1,2 bilhões do PBDG [Plano Baía de Guanabara Limpa], e agora o Psan [Programa de Saneamento Ambiental], que prevê mais 1,3 bilhão até 2012, o que temos? Tem a estação de tratamento de São Gonçalo que nunca funcionou e a da Alegria que funciona pela metade. Os rios são lixo puro e a Marina da Gloria e a Praia de botafogo são cocô puro", critica. 

Ele ainda lembra que, além dos rios poluídos desde a década de 90, dois  novos rios, o Rio Estrela e o Rio Guaximdiba entraram na lista dos poluídos nos últimos anos. "Na verdade quando eu soube que o RJ seria sede das olimpíadas eu me enchi de otimismo, mas não achei que eles passariam essa vergonha, mas até hoje, todas as ações que eu estou vendo sendo implementadas são puxadinhos ambientais" completa. 

*Do programa de estágio do JB

Tags: despoluição, lagoa da barra, manguezais, rio aguas, smac, utr

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