Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

País

Em noite de autógrafos, Serra comenta situação de ativistas presos no Rio

José Serra esteve no Shopping Leblon para assinar sua recém-lançada autobiografia

Jornal do BrasilRafael Gonzaga *

Nesta terça-feira (22), o político e economista José Serra esteve na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, Zona Sul do Rio, para assinar seu recém-lançado livro “Cinquenta anos esta noite – o golpe, a ditadura e o exílio” e para participar de um bate-papo. Serra, que atualmente é candidato ao Senado por São Paulo, estaria liderando a corrida pela vaga paulista nas eleições de outubro, de acordo com a última pesquisa Datafolha.

A programação fazia parte da divulgação da autobiografia escrita pelo político, que abordaria a percepção de Serra acerca das origens e desdobramentos do golpe militar de 1964. No livro, o ex-governador de São Paulo José Serra utilizaria suas próprias recordações para analisar questões que, cinquenta anos após o golpe, ainda permaneceriam atuais no Brasil.

Questionado quanto às recentes prisões de ativistas no Rio de Janeiro, acusados pelo Ministério Público de planejar ações violentas em protestos, Serra disse que apesar de não estar acompanhando muito bem o caso, não acredita que personagens como Sininho e os demais 22 ativistas presos representem alguma espécie de vanguarda política. “No estado de direito existem regras a serem respeitadas. O Brasil evoluiu muito nos últimos cinquenta anos”, pontuou.

O evento contou com a presença de outros nomes ilustres, como o jornalista Arnaldo Jabor, o cineasta Zelito Viana, o economista Pedro Malan, além de políticos como Marcelo Itagiba e Otávio Leite.

Sobre os anos de ditadura no Brasil e o golpe militar de 1964, José Serra afirmou não existir uma causa para o golpe, e fez uma comparação com o processo de escrita do livro. “Foi uma simultaneidade de tudo. A biografia também é construída por circunstâncias, a gente não tem tantos segredos dentro da gente. O futuro não é pré-determinado”, afirmou.

Surgimento da biografia

Durante o bate-papo, José Serra falou sobre o desafio do processo de escrita autobiográfica. Segundo o político, o livro não foi algo decidido previamente, pelo contrário, acabou acontecendo naturalmente.  “Em função do meio século do golpe de 1964, houve muita demanda da imprensa. Eu acabei ampliando várias vezes um artigo que eu tinha escrito para o Estadão no quadragésimo aniversário do golpe. Fui sentindo necessidade de retroceder e expandir”, contou.

Serra comentou algumas resenhas sobre seu trabalho literário e, com bom humor, disse ter descoberto nelas coisas que nem ele sabia sobre o próprio livro. “Não achava que [o livro] fosse grande coisa, mas estou começando a achar que é razoável a partir do que as pessoas dizem”, comentou.

Citando também Gabriel García Márquez, disse ter sido inspirado pela frase do célebre escritor colombiano “A vida não é a que a gente viveu, mas sim a que a gente recorda, e como a recordamos para contá-la” (La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda, y cómo la recuerda para contarla). Segundo Serra, a frase de Garcia Márquez foi o ponto de partida. “Isso me desinibiu, eu me senti um pouco mais livre”, disse.

Tempo que passou no exílio

José Serra contou um pouco de como foi para ele a experiência de passar 14 anos vivendo exilado do Brasil por conta do regime político instaurado no país após o golpe de 1964. Serra classificou como traumática a experiência de não poder voltar para o país. “Em primeiro lugar, o exílio não é viver fora. O exílio é não poder voltar. Em segundo lugar, era você não ter documentos. O Itamarati foi impecável em cercear tudo”, lembrou.

O ex-prefeito de São Paulo disse que apesar de ter se acostumado a viver fora, nunca se desligou totalmente do Brasil. “Eu lia tudo, era capaz de escrever sobre o Brasil”, contou.

UNE e juventude

José Serra lembrou durante o bate-papo dos tempos em que era ligado ao movimento estudantil e de quando alcançou a presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). “As propostas estudantis eram mais generosas que as de hoje. Hoje tem muito mais cortes corporativistas”, apontou.

Sobre sua juventude política, Serra disse ter se surpreendido ao ouvir sua própria voz em gravações de cinquenta anos atrás durante o processo documental de construção do livro. Serra teve acesso a dois áudios feitos no dia anterior ao golpe militar, onde o político conseguia se ouvir falando ainda jovem. “Me achei mais fluente. É uma prova de que quando a gente é jovem, a gente tem muito mais certezas”, disse.

* do projeto de estágio do JB

Tags: ativistas presos, autobiografia, economista, José Serra, livraria da travessa, político, sininho

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