Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Rio

PAC na Rocinha: líderes comunitários contestam explicações do governo

Jornal do BrasilLouise Rodrigues 

Líderes comunitários da Rocinha questionaram as respostas da Secretaria de Estado de Obras sobre os atrasos na região referentes ao Programa de Aceleração do Crescimento. "Não podemos aceitar e concordar que foram apenas esses os motivos que atrasaram as construções. Estivemos em junho do ano passado com o governador, vice, secretários do Governo e coordenadores do PAC. Após manifestação dos moradores da Rocinha , o governador nos garantiu, em rede nacional, que iria entregar as obras até o final de 2013. Agora já estão adiando para o final de 2014, ou seja, quatro anos de atraso", comentou Davison Coutinho, membro da Comissão de Moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu e colunista do JB.

Davison se refere às explicações dadas pela secretaria após publicação de reportagem na qual obras do PAC 2 eram questionadas.

>> Líderes comunitários contestam PAC 2 na Rocinha

Davison Coutinho destaca que o largo do Boiadeiro, um local típico e histórico da comunidade, está abandonado e cheio de lixo e esgotos correndo nas ruas. "O problema de abastecimento de água é constante. E o saneamento ainda é um sonho distante. Não acreditamos que as obras sejam concluídas esse ano, até porque não estão em andamento, ou melhor algumas nem começaram”, declarou, destacando também que a comunidade sabe da complexidade das obras do PAC 1 e reconhece os benefícios da abertura da Rua 4 e de todos os outros serviços recebidos.

Denis Neves, outro membro da Comissão de Moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, também contestou as explicações da secretaria. “As obras estão paradas há meses. Não foi feito nada de saneamento que foi prometido. Entendemos que as obras mencionadas foram importantes, porém estamos com o mesmo medo no PAC 2. Eles quebraram uma passarela que funcionava muito bem para construir outra, dinheiro jogado fora. Entendemos toda complexidade do alargamento da Rua 4, mas como se termina todas essas obras de infraestrutura e não se começa o saneamento? ”, comentou 

Segundo a secretaria, “as obras do PAC 1 na Rocinha compreendem obras de infraestrutura, construção do complexo esportivo, de 144 moradias, de uma UPA 24h, de uma passarela ligando o complexo à comunidade, de uma biblioteca-parque, do alargamento da Rua 4, realocações, demolições, saneamento, pavimentação, etc. Devido à complexidade das obras, o projeto inicial teve de ser readequado. Um dos exemplos disso foi a reurbanização da Rua 4, antes uma viela de 60 centímetros de largura, a transformou em um novo caminho, de até 14 metros de largura. A abertura foi vital para a entrada da luz solar e de ventilação num ponto considerado o de maior incidência de tuberculose do país, por causa da excessiva umidade. Essa acessibilidade permite não só o acesso dos moradores até suas casas, mas também dos serviços necessários à população como ambulância, segurança, limpeza, entre outros equipamentos. As intervenções complementares incluem a finalização de um plano inclinado e de uma creche (já concluída), a construção de um mercado popular e reurbanização do Caminho dos Boiadeiros, implantação de redes de abastecimento de água e esgoto, iluminação e urbanização, entre outros. As obras de complementação do PAC 1 na Rocinha devem ser concluídas até o final deste ano.”

A nota da secretaria também fala sobre o PAC 2, que preocupa os líderes comunitários. Diante das obras inacabadas do PAC 1 e de ressarcimentos injustos a muitos que foram removidos de suas casas, os moradores procuraram o Ministério Público para pedir prestação de contas dos gastos para o PAC 1. Na nota, a secretaria diz que “durante audiência pública, realizada na última segunda-feira, foi assegurado, levando em conta as ponderações da comunidade, que haverá prioridade total ao saneamento com implantação de redes de drenagem, esgoto, abastecimento de água e coleta de lixo. Modernos sistemas vão eliminar todos os despejos a céu aberto, através de caixas compactadoras e de armazenamento subterrâneo de lixo, gradeamento e pontos contenedores. Além disso, de acordo com estudos sobre a topografia da Rocinha, a solução ideal é o teleférico. Haverá um teleférico integrado à estação do metrô, com capacidade para transportar três mil pessoas por hora, incluindo idosos, pessoas com deficiência e crianças. O tempo de deslocamento entre a parte mais baixa e a parte mais alta da comunidade será feita em oito minutos com o transporte. Já se optasse pelo plano inclinado, o mesmo trajeto seria feito em uma hora e só transportaria 25 pessoas. Com o Metrô foi conseguida também integração por ônibus da estação mais alta do Teleférico – Umuarama – à estação Gávea. Como a maior parte das crianças da Rocinha estudam na Gávea, elas terão acesso mais fácil e rápido às suas escolas. Também será construída uma escada rolante e instalados elevadores e passarelas para fazer a ligação da Rua 2 com a Rua 4”.

Davison mostra sua indignação com a declaração do governo e afirma: “Nós moradores, não somos malucos e estamos dispensando um teleférico. É claro, tal equipamento pode auxiliar na mobilidade, porém, não aceitamos que nossos outros problemas, que são prioridades da comunidade, não sejam atendidos. A Rocinha clama por saneamento, abertura de ruas e habitações dignas. A Rocinha não quer que as pessoas viagem pelos altos da favela, enquanto os moradores continuam vivendo e pisando nas lamas e dividindo os becos e vielas com a escuridão, lixos e ratos. Falar que o saneamento vai ser prioridade é fácil, eu quero ver cumprir. Vão gastar milhões com teleférico e depois a velha desculpa de que o dinheiro acabou por 'N' desculpas”.

Denis também se mostrou insatisfeito com as afirmações da Secretaria. "Grande parte das demandas que levamos ao ex-governador Sergio Cabral foram incluídas no PAC 2, porém a Rocinha é contra os gastos com o teleférico sem antes concluir todo o saneamento. Quem poderá garantir que não aconteça o que aconteceu no PAC 1, onde o saneamento e a creche ficaram para trás? Que eles terminem esse teleférico e novamente não se resolva o problema das valas? O governo cismou com o teleférico, estamos respaldados pelo clube de engenharia, por testemunhos dos moradores do Complexo do Alemão. Queremos a Rocinha com 100% de saneamento básico, depois disso a comunidade está aberta ao diálogo do teleférico. Eles falam em parte alta, Umuarama fica na parte baixa da Rocinha, já no bairro da Gávea. O teleférico, para funcionar, teria que ter as estações nos extremos da comunidade; mas nisso o governo não pensa. Existem áreas precárias na comunidade, que ficarão escondidas e sem receber um parafuso do PAC. Para quê levar teleférico onde é possível chegar de outros meios de transporte. Eu realmente não entendo o fato de o governo insistir tanto, indo contra a maioria da população para a construção de algo que é um luxo, ou seja, um desperdício", disse.

Para José Martins, do grupo Rocinha sem Fronteiras, "a passarela é uma coisa boa, mas eles esqueceram que já havia uma passarela que eles quebraram para construir outra. O dinheiro que foi gasto, podia ter sido utilizado no saneamento básico na comunidade. O Complexo Esportivo também é algo bom, mas, como eles não canalizaram o valão, quando chove, alaga tudo. Sobre a Rua 4, eles falaram em 14 metros, mas são 7 metros. Será que eles pagaram o dobro? Se foi isso, está aí uma explicação pra falta de dinheiro. A creche foi realizada com atraso e terminou em ano eleitoral. Ainda não funciona. Será que vamos usufruir dela em 2015 ou vamos ter que esperar as eleições de 2016? O PAC 1, eles não fizeram em 5 anos, vão fazer em 5 meses? Existe milagre eleitoral?", questiona. 

Tags: favela, obra, pac, Rio, rocinha, saneamento, turismo

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