Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Rio

Máfia dos ingressos: Copacabana Palace é investigado na fuga de Ray Whelan

Como o JB adiantou, hotel terá que prestar esclarecimentos à Polícia Civil

Jornal do BrasilRafael Gonzaga

Nesta terça-feira (15/7), a Polícia Civil do Rio de Janeiro está ouvindo funcionários do hotel Copacabana Palace, localizado na Zona Sul da cidade e onde a delegação da Fifa ficou hospedada para a Copa no Brasil, no inquérito que investiga a fuga do executivo da Match Hospitality, Raymond Whelan, após a decretação da sua prisão pela Justiça. Whelan estava hospedado no Palace e saiu por uma porta lateral, usada apenas por funcionários, um hora antes dos policiais chegarem, na última quinta-feira (10). 

O Jornal do Brasil adiantou que a Justiça e a Polícia Civil deveria convocar o Copacabana Palace a prestar explicações sobre a fuga do executivo da Macht Hospitality, empresa parceira da Fifa.

>> Copacabana Palace deve prestar esclarecimentos à Justiça na fuga de Whelan

>> Ray Whelan se entrega à Justiça

Por volta de 12h desta terça (15), estavam na 18ª DP (Praça da Bandeira) para prestar esclarecimentos, o diretor operacional do Copacabana Palace, o segurança que já esteve na delegacia no dia anterior e o advogado do hotel representando os dois. A previsão é a de que a polícia ouça ainda nesta terça a gerente geral do Copacabana Palace, Andrea Natal.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro já deu partida na segunda fase de investigações sobre o envolvimento do executivo da Math, Raymond Whelan, com o esquema da Máfia dos ingressos. Whelan, acusado de chefiar uma quadrilha internacional de cambistas, se entregou na última segunda-feira (14) à Justiça e está em uma cela individual no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, Zona Oeste do Rio. 

A gerente geral do Copacabana Palace deverá depor no novo inquérito para apurar o crime de favorecimento pessoal que teria sido cometido pelo advogado de Whelan, Fernando Fernandes. No momento, três inquéritos diferentes circulam sobre o assunto: um procedimento para alcançar outros integrantes já identificados, porém não qualificados; outro procedimento relativo à lavagem de dinheiro, para apurar o destino do dinheiro ilícito da quadrilha; e o procedimento de apuração de favorecimento pessoal durante a captura no Copacabana Palace – neste último, envolvendo diretamente o advogado de Whelan e os funcionários do hotel.

Whelan estava foragido desde a última quinta-feira (10/7), condenado por cambismo e formação de quadrilha nas investigações da venda ilegal de ingressos para a Copa do Mundo no mercado clandestino. O CEO da Match, empresa parceira da Fifa, teve prisão preventiva decretada na quinta-feira (10) pela Justiça. Contudo, no momento que os policias da 18ª DP (Praça da Bandeira) chegaram ao Copacabana Palace, onde Whelan estava hospedado com a delegação da Fifa, o executivo havia deixado o hotel cerca de uma hora antes, na companhia do seu advogado Fernando Fernandes.

Na segunda-feira, o segurança do Copacabana Palace prestou depoimento informando que a prática de sair com hóspedes pela porta lateral é uma prática comum no hotel, especialmente quando se trata de figuras famosas ou que sofrem forte assédio da imprensa. O segurança negou qualquer culpa no ocorrido e disse não ter recebido quaisquer ordens específicas. Na segunda, o advogado de Whelan, Fernando Fernandes, foi intimidado a depor, mas não compareceu. Uma nova intimação deverá ser realizada e, caso Fernandes não compareça, a polícia ira entender que o advogado só deseja depor em juízo.

A polícia está reunindo ainda os mais de 200 ingressos da Mash apreendidos com cambistas junto à 12ª DP (Copacabana), à 13ª DP (Copacabana) e à Delegacia de Turismo (Dat). De acordo com a polícia, está sendo feito um ofício solicitando a cópia desses procedimentos.

Hotelaria homenageia família Whelan/Byron no início do ano

O salão de reunião do hotel Windsor Rio Atlântica, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, esteve lotado no dia 5 de janeiro de 2014, com a primeira reunião de diretoria e conselhos anual da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ). No encontro, a entidade fez uma homenagem ao executivo da Match, Paul Whelan, filho do diretor da empresa parceira da Fifa desde o ano de 1986 para as Copas do Mundo, Raymond Whelan, envolvido no esquema de venda ilegal de ingressos para o Mundial no mercado paralelo e atualmente preso no Complexo de Bangu, na Zona Oeste, indiciado por formação de quadrilha e cambismo. O site da ABIH-RJ publicou uma matéria sobre o evento - 'Hotelaria homenageia Paul Whelan, da Match' -, cujo texto em um dos seus trechos considera a Match "uma das principais interface da hotelaria desde 2007, quando o Brasil foi confirmado como sede da Copa de 2014".

Matéria publicada pela ABIH-RJ, em janeiro de 2014
Matéria publicada pela ABIH-RJ, em janeiro de 2014

Matéria publicada pela ABIH-RJ, em janeiro de 2014
Matéria publicada pela ABIH-RJ, em janeiro de 2014

Trecho da matéria publicada pela ABIH-RJ
Trecho da matéria publicada pela ABIH-RJ

Pela matéria da ABIH-RJ, Paul compareceu ao evento no Windsor acompanhado por Evy Byron e Enrique Byron, sócios da empresa, e recebeu uma escultura estilizada do Pão de Açucar, obra da artista plástica Petrina Checcaci. Em seu discurso, Enrique Byron destacou o apoio e parceria que a Match "sempre encontrou na hotelaria carioca". “É grande o interesse dos torcedores pelo destino, que também concentra a sede da mídia. Estamos tranquilos porque já garantimos a hospedagem de todos que trabalharão na Copa da FIFA”, disse durante o evento.

No dia 10 de julho, após a fuga de Ray Whelan do Copacabana Palace, o Jornal do Brasil recebeu uma denúncia de que Ivy Byron, mulher de Ray Whelan, havia feito uma reserva em um dos hotéis da rede Windsor no Rio no dia anterior. Em contato com o Windsor Copacabana, o JB foi informado que realmente havia uma reserva feita com o sobrenome Byron em uma das suas unidades. No mesmo dia, o delegado Fábio Barucke, da 18a. DP (Praça da Bandeira), confirmou que tinha conhecimento da denúncia, mas os clientes suspeitos não chegaram a fazer o check-in. 

O promotor responsável pelo caso, Marcos Karc, da 9a. Promotoria de Investigação Penal (PIP) do Rio, investiga também as denúncias envolvendo os pacotes de hospedagem para o período dos jogos que chegaram a ser oferecidos pela Match com ágio de até 50% e a atuação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) nesse processo. O Cade não teria atuação perante a Fifa, na avaliação do promotor, pelo fato de tratar de organismos internacionais. Na sua análise, todo monopólio é prejudicial ao consumidor final, pelos fatores que levam os preços ficaram nas mãos de poucas pessoas que fazem o que querem.

MP recebeu contrato da Match no último sábado

No sábado passado (12), o Jornal do Brasil  publicou em primeira mão que o Ministério Público do Rio de Janeiro teve acesso a um contrato repassado por Henrique Byron, um dos sócios da Match, justificando os US$ 120 mil dos US$ 600 mil que a Justiça investiga em relação à máfia dos ingressos.

Pelas avaliações do promotor Marcos Kac, a quadrilha trabalhava com o refugo dos ingressos, destinando 30% para a venda oficial, para não chamar a atenção da polícia. "O restante seria negociado no mercado negro - no caso do Mundial deste ano por intermédio de uma quadrilha sob o comando de Lamine Fofana", explicou o promotor. De acordo com Kac, o contrato foi assinado no mês de março e cita o nome de Fofana, preso no dia 1º de julho. O documento aponta a compra de US$ 120 mil em ingressos e está sendo analisado pela Justiça quanto a sua legitimidade, já que se assemelha a uma carta de intenção. Como os ingressos da Copa, principalmente nas fases finais, abrem dúvidas sobre as seleções participantes, os negócios seriam fechados em cima da hora.   

O Jornal do Brasil também revelou na semana passada o Relatório Financeiro da Match referente ao ano de 2012, que detalha um empréstimo da Fifa para a empresa, no valor de US$ 10 mil, sem cobrança de juros e a ser totalmente pago até 2015, a ser empregado na hospitalidade da Copa no Brasil. Kac acredita que contratos dessa natureza deveriam ser avaliados em conformidade com a Lei de Evasão de Divisas. A Federação de futebol, no entanto, ganhou imunidade em diversas questões tributárias e judiciais com a Lei Geral da Copa. A Match tem como sócia os dois irmãos mexicanos Jaime e Henrique Byrom, donos da Byrom PLCE, além de Phillippe Blatter, que detém 5% das ações da Match Hospitalyti.

>> Fifa emprestou, sem juros, US$ 10 milhões a Match para hospitalidade na Copa

Esquema revelado antes da Copa no Brasil

O esquema de corrupção na venda de ingressos para os últimos Mundiais no mercado negro internacional, envolvendo a Fifa, a Comissão Brasileira de Futebol (CBF) e a empresa Match, foi revelado ao Jornal do Brasil uma semana antes da Copa ter início no país, pelo jornalista e escritor britânico Andrew Jennings, que tem uma grande investigação sobre o caso em diversos países. Jeenings é autor dos livros "Um Jogo Sujo" e "Um Jogo cada vez mais Sujo", que revela detalhes do envolvimento da Fifa no esquema internacional de cambismo, que tem como uma das bases o relatório do senador Alvaro Dias para a CPI da CBF, apresentado nos anos de 2000 e 2001. 

A reportagem especial foi publicada no dia 2 de junho, com o título Os bastidores da Fifa nas vendas de ingressos para a Copa no mercado negro. Jennings foi convidado no sábado passado (12) pelo promotor Marcos Kac para contribuir com as investigações no MPE do Rio. O encontro entre promotor e jornalista foi agendado para o próximo mês, em São Paulo. 

Segundo Jennings, Ray Whelan conhece de forma profunda a máfia dos ingressos. "A polícia precisa saber que ele é a melhor testemunha para se chegar ao esquema de corrupção da Fifa", garantiu o jornalista ao Jornal do Brasil no dia 8 de junho, quando o executivo da Match foi detido pelo policiais da 18a. DP (Praça da Bandeira), responsável pelo caso. "Ele [Ray Whelan] negocia há 25 anos os ingressos dos Byroms. Diga aos policiais que ele é o melhor testemunho que jamais poderia chegar ao topo de corrupção da FIFA. Ou será que ele quer gastar os próximos anos em Bangu?", ironizou o jornalista inglês. "Seus policiais vão ser heróis no mundo", complementou.

JB vem acompanhando o caso nos dois últimos meses:

>> Executivo da Match, Ray Whelan foi contratado pela CBF na gestão de Teixeira

>> Jennings sobre Ray Whelan, da Match: "Ele sabe de absolutamente tudo"

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Tags: fernando fernandes, Fifa, máfia dos ingressos, match, raymond whelan

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