Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Rio

Máfia dos ingressos: Itagiba defende respeito às leis brasileiras pela Fifa

Escutas revelam 900 ligações de Lamine Fofana para um celular oficial da Fifa no Brasil

Jornal do BrasilCláudia Freitas

Após a Polícia Civil do Rio de Janeiro levantar uma suposta ligação entre o franco-argelino Mohamadou Lamine Fofana, acusado de liderar uma quadrilha internacional que vendia ilegalmente ingressos para a Copa do Mundo, com um executivo da Fifa, o ex-secretário de segurança pública e ex-superintendente regional da Polícia Federal do Estado do Rio de Janeiro, Marcelo Itabiga, criticou nesta segunda-feira (7/7) o tratamento benevolente dispensado pelas autoridades brasileiras à Fifa. Lamine foi flagrado em 900 escutas telefônicas autorizadas pela Justiça para um celular oficial da organização no país, desde o início do Mundial.

Na avaliação de Itagiba, um crime cometido no Brasil deve ter a sua investigação conduzida pela Justiça do país, de acordo com a legislação brasileira, sem qualquer interferência de uma organização internacional. No caso da Fifa, Itagiba acredita que as autoridades não podem relaxar numa punição ou privilegiar a imunidade de pessoas ligadas à entidade. "As leis brasileiras devem prevalecer nesse momento, acima de qualquer imunidade internacional, seja quem for. As autoridades policiais devem manter um rigor e tratar o caso na esfera das leis", disse Itagiba.

A polícia Civil do Rio, responsável pelas investigações, deve cobrar da Fifa as informações necessárias para se chegar aos supostos autores dos crimes. "A Fifa não pode sonegar informações privilegiadas que levam aos supostos autores do crime, num ato que parece ser conivente", afirmou. Itabiga explicou que, dependendo dos indícios que relacionam a máfia com executivos da Fifa, as investigações do caso podem ser transferidas para a Polícia Federal, que pode também atuar em parceria com a Civil. "A Polícia Federal devia instaurar inquérito para apurar esse caso, o que pode acontecer a qualquer momento. Assim como a Polícia Civil reunir provas e encaminhar para o juiz, que pode autorizar as prisões imediatamente", complementou. 

Na opinião de Itagiba, o governo brasileiro foi complacente com as exigências da Fifa, permitindo mudanças na legislação para atender a organização internacional. "Qualquer evento a ser realizado no Brasil tem que estar sob as Lei brasileiras. Não pode se curvar às exigências das entidades de outros países", afirmou. O ex-secretário de segurança pública citou o caso da liberação das bebida alcoólicas nos estádios, como passo que abriu brecha para um comportamento abusivo da organização no Brasil. "A própria Fifa mais tarde reconheceu que esse problema das bebidas nos estádios é grave e causa acidentes. Mas o Brasil recuou na sua legislação para atender a entidade", disse. 

Escutas revelam 900 ligações de Lamine para celular da Fifa

Uma reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, revelou neste domingo (6) que o franco-argelino Mohamadou Lamine Fofana, de 57 anos, acusado de liderar a quadrilha internacional que vendia no mercado negro os ingressos para a Copa do Mundo, fez pelo menos 900 ligações para um celular oficial da Fifa no Brasil, desde o início do Mundial. A Polícia do Rio já anunciou que a prisão do suposto membro da Fifa envolvido com a máfia dos ingressos pode acontecer a qualquer momento. 

Sobre o caso:

>> Máfia dos ingressos: escutas revelam 900 ligações de Lamine para celular da Fifa

>> Advogado de Lamine deve revelar membro da Fifa ligado a grupo de cambistas

>> Polícia acredita que membro da Fifa ligado a cambismo está no Rio

>> Máfia dos ingressos: polícia e promotor dizem que membro da Fifa é "graúdo"

Lamine foi preso com outros 10 integrantes do grupo na última terça-feira (1), indiciados por suspeita de cambismo, associação criminosa e lavagem de dinheiro. O chefe da quadrilha estava em um apartamento no condomínio Santa Mônica, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, que foi alugado por 12 mil dólares, do ex-jogador Júnior Baiano. 

Após as prisões, a Fifa se reuniu com a única empresa responsável pela comercialização das entradas no torneio, a Match Services. No entanto, nenhuma das duas entidades forneceu os nomes dos funcionários supostamente envolvidos no esquema, como vem solicitando a Justiça e a polícia. De acordo com o delegado da 18a. DP (Praça da Bandeira) Fábio Barucke, há indícios de participação de integrantes da Fifa, da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e das federações de futebol da Argentina e da Espanha no esquema. 

Na quarta-feira passada (2), o delegado Barucke havia dito que o advogado de Lamine, José Massih, chegou a revelar logo após a prisão, o nome de um homem que seria integrante da Fifa e ligado ao grupo de cambista. A mesma versão foi sustentada pelo promotor Marcos Kac, da 9a. Promotoria de Investigação Penal (PIP) do Rio.

Tags: Copa, Fifa, investigação, lamine, polícia, promotoria

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