Jornal do Brasil

Sábado, 27 de Dezembro de 2014

Rio

Especialistas comentam inauguração da Estação Intermodal Maracanã

Jornal do BrasilLouise Rodrigues

A Estação Intermodal do Maracanã foi inaugurada nesta quarta-feira (2) pelo governador Luiz Fernando Pezão. A secretária estadual de Transportes, Tatiana Carius, o presidente da SuperVia, Carlos José Cunha, e o presidente do MetrôRio, Flavio Almada, também participaram da cerimônia. A obra faz parte dos projetos de mobilidade urbana no Rio de Janeiro. Segundo a Secretaria Estadual de Transportes, a obra, que começou em março de 2013, deveria ficar pronta para a Copa do Mundo. Contudo, “alguns reajustes precisaram ser feitos”, fazendo com que a estação funcionasse apenas em dias de jogos no Maracanã. Nos demais dias, “os funcionários trabalhavam nos reajustes necessários”. Ainda segundo a Secretaria, foram gastos 178 milhões de reais, com financiamento do Banco do Brasil.

Para Alexandre Rojas, engenheiro de transporte urbano e mobilidade e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o projeto “atende a Copa e as Olimpíadas”. Contudo, Rojas acredita que “está tudo muito bem feito e atende a todos os requisitos. As plataformas da Supervia estavam erradas, ultrapassadas. O reprojeto das plataformas fez uma estação integrada.”. Mas o engenheiro aponta uma falha: “Falta também a integração com os ônibus.A estação de São Cristóvão é a mais importante porque todas as linhas passam ali, então, São Cristóvão é mais importante que o Maracanã no dia a dia. São duas estações muito próximas. Acho que a Estação do Maracanã atende a Copa e as Olimpíadas”.

Já para o arquiteto e urbanista, professor do Instituto de Tecnologia da UFRRJ, mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ e doutor em Urbanismo pelo PROURB/FAU/UFRJ e Bauhaus Universität Weimar da Alemanha, Humberto Kzure-Cerqueira, “todo intermodal é necessário, mas a mobilidade urbana não pode refletir os interesses dos carteis dos transportes. É preciso que ela atenda as demandas. Estamos com uma cidade com planejamento que beneficia as empreiteiras”. O arquiteto, assim como Rojas, acredita que o projeto tenha sido motivado para atender as necessidades de quem vem para a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Sobre o orçamento para a construção da estação, que, segundo a Secretaria, não passou por nenhuma alteração desde o começo do projeto, Kzure-Cerqueira diz: “Não posso afirmar nada sobre o orçamento porque não tenho esse conhecimento e nem quero ser leviano. Mas, digo isso como cidadão e como arquiteto, normalmente essas declarações de orçamento ficam abaixo do que realmente será gasto. Isso beneficia as empreiteiras para fazer aditivos e as obras acabam superfaturadas”.

Kzure-Cerqueira criticou os projetos de mobilidade urbana pensados para o Rio de Janeiro, como a revitalização da Zona Portuária e as próprias construções de intermodais. “São projetos patéticos. O Rio de Janeiro não tem a arquitetura como parte da sua cultura. As empreiteiras fecham acordos na esfera política e prestam qualquer tipo de serviço na cidade. Ou os administradores públicos são reféns ou são mancomunados com as empreiteiras. Para fazer projetos na cidade que é a segunda metrópole do país, requer cuidado e planejamento. É necessário fazer estudos de impacto ambiental e de vizinhança. E não está sendo feito”, explica.

Para Kzure-Cerqueira, o governo e as empreiteiras “não estão preocupados com a geografia da cidade, com a arquitetura e com a interferência na vida do cidadão e na beleza do Rio”. Ele defende que “os gastos exorbitantes servem para atender os poderosos da construção civil” e que “não há democracia na construção de projetos, as construtoras são sempre as mesmas”. Ele reforça que “é preciso pensar nos impactos para evitar problemas para o cidadão”.

O Jornal do Brasil lembra que, na tarde desta segunda-feira, a pesquisadora Marta Maia Mello, de 56 anos, foi atingida na cabeça por três tubos de ferro quando caminhava no entorno da obra. Cada barra tem 50 centímetros de diâmetro e despencaram de um guindaste, durante uma manobra. O acidente aconteceu na Rua Visconde de Niterói, na Mangueira. A mulher foi internada e exames apontaram um coágulo no cérebro, passa bem, mas está em observação. 

A Odebrecht Infraestrutura confirmou o acidente por meio da seguinte nota: “Às 15h15m de segunda-feira, a pesquisadora Marta Maia Mello, de 56 anos, que passava próximo ao canteiro de obras da Estação Intermodal Maracanã, foi impactada por um tubo de ferro que estava sendo transportado por trabalhadores para instalações elétricas da passarela que interligará a comunidade da Mangueira à estação. Imediatamente, a pesquisadora foi socorrida por integrantes da Odebrecht e encaminhada ao Hospital São Lucas, em Copacabana, em ambulância da própria empresa, para que fossem realizados exames e prestado o atendimento adequado. A Odebrecht Infraestrutura reitera que a área estava isolada e devidamente sinalizada para que pedestres não acessassem o local. Marta Maia Mello se encontra em observação e seu estado de saúde é estável. As equipes médicas e de assistência social da obra continuam prestando cuidados à família de Marta”.

Para Kzure-Cerqueira, “o projeto não parece ter um tipo de resultado confortável para a cidade, não tem boa articulação com o entorno. É preciso pensar na segurança pública, na harmonia com a paisagem. Precisamos garantir a fluidez dos modais. A Supervia está cumprindo sua parte? O Metrô Rio está cumprindo a sua parte? Não estão cumprindo. Não se resolve problema de mobilidade com construção apenas. É preciso fazer reformas a nível técnico, ambiental e de segurança”, finaliza.

Tags: copa do mundo, Metrô, mobilidade, olimpíadas, onibus, trem

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