Jornal do Brasil

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Rio

Driblando as caras hospedagens e as leis, turistas montam acampamento na orla

Moradores criticam comportamento dos hermanos. Usar fogão e urinar nos canteiros virou rotina

Jornal do BrasilCláudia Freitas

Um chimarão preparado num fogão de camping à brisa da Praia de Copacabana, por turistas "hospedados" nas calçadas da orla carioca. A cena parece inverossímil, porém ela se tornou real desde a última sexta-feira (13/6), quando milhares de turistas argentinos e chilenos, afugentados pelos altos preços dos hotéis, se acomodaram em carros e até trailers estacionados na orla. Nesta segunda-feira (16), um dia após a Argentina vencer a Bósnia por 2 a 1 no Maracanã, os torcedores hermanos circulavam pela Zona Sul da cidade em grupos e carregando mochilas de viagem. Em Copacabana, especialmente nas proximidades da Fifa Fan Fest, os turistas transformaram as calçadas dos edifícios em área de estadia, usando fogão para preparar alimentos e os canteiros como banheiro público. A falta de educação e imprudência desagradou os moradores, que reclamam da ausência de fiscalização da prefeitura e de policiamento ostensivo.

Valéria Ávila, moradora de Copacabana, reclama do comportamento dos turistas argentinos
Valéria Ávila, moradora de Copacabana, reclama do comportamento dos turistas argentinos

"Isso [utilização de botijão de gás] é um absurdo. Estamos expostos ao risco de uma explosão. Eles [turistas argentinos] estão no nosso país para assistir aos jogos ou para fazer baderna? Será que eles iriam gostar se os brasileiros fizessem isso no país deles?", questionou a moradora de Copacabana, Valéria Ávila, de 64 anos. Ela estava se referindo a um grupo de torcedores argentinos que se instalaram na altura do número 2.270 da Avenida Atlântica, e comemoravam a vitória do país tomando chimarrão preparado em um fogão de camping. "Vamos ficar aqui em Copacabana até o final da Copa do Mundo, visitar os pontos turísticos e torcer para o nosso país", disse dois dos torcedores, Nicolas Tripi e Bruno Pellegrino.

Esmeralda de Souza, moradora de Copacabana
Esmeralda de Souza, moradora de Copacabana

Para a professora Eliana Brissac, de 57 anos, também moradora de Copacabana, uma cena dessa natureza não devia acontecer durante uma Copa do Mundo. Ela atribui as infrações cometidas pelos turistas não só a uma questão de falta de educação e respeito, mas pela inoperância do poder público, que abriu as portas para as atitudes erradas. "Primeiro, a prefeitura informou que as vagas de estacionamento na orla seriam rotativas durante esse período de Copa, mas o que estamos vendo é o contrário, os carros estão parados aqui direto e sem serem incomodados pela fiscalização. Aí, a coisa fica fácil para o infrator. Nada contra os torcedores comemorarem, mas o que está acontecendo aqui parece ser irregularidades. É permitido usar botijão de gás numa calçada da orla? É permitido acampar na Avenida Atlântica?", ressaltou a moradora. A aposentada Esmeralda Souza, de 83 anos, também não aprovou o comportamento dos turistas argentinos e chilenos e considera que essa é a parte negativa do Mundial na Cidade Maravilhosa.

Rosemberg Abreu de Paula reclama do policiamento ineficiente
Rosemberg Abreu de Paula reclama do policiamento ineficiente

Os argentinos Ariel Gonzalez, Daniel Spacek e Gustavo Benitez, que viajaram da Argentina para o Brasil de carro e estão usando o veículo como hospedagem, justificam que os preços dos hotéis no Rio de Janeiro estão muito além da capacidade financeira deles e a opção de ficar acampado na Praia de Copacabana foi bem aceita pelo grupo e "está valendo a pena, apesar do desconforto". "A gente descansa por turno. A cada hora um dorme no carro e assim faremos até o final da Copa. Não pretendemos sair do Rio de Janeiro, só quando 'La Plata' [se referindo à moeda argentina] acabar", disse Gonzalez, que está visitando o Brasil pela primeira vez e achou o povo "muito hospitaleiro".

Durante a entrevista com Gonzalez, um outro grupo de argentinos usava um canteiro próximo para urinar e escovar os dentes. "É uma invasão dos argentinos. Eles já fecharam vias principais do nosso bairro, estão falando palavras obscenas para as meninas que passam com um traje de praia, se comportando da pior forma possível. Se a gente fala alguma coisa pode até apanhar, no nosso país. Chega dá medo da quantidade de turistas agindo dessa forma. E não estamos com um bom policiamento", contou o advogado Rosemberg Abreu de Paula, de 49 anos, morador de Copacabana. 

Argentinos usam os canteiros como banheiro público
Argentinos usam os canteiros como banheiro público

No último sábado (14) cerca de mil argentinos fecharam o trânsito na Avenida Atlântica. A Polícia Militar dispersou os turistas com spray de pimenta e ninguém foi preso. A torcida organizada provocava os brasileiros, com pessoas fantasiadas e gritos de "Maradona é melhor do que Pelé". Um homem fantasiado de Papa Francisco segurava uma taça.   

E usam botijão para preparar as refeições nas calçadas de Copacabana
E usam botijão para preparar as refeições nas calçadas de Copacabana

A "invasão" dos turistas argentinos no Rio comentada pelos moradores da Zona Sul é constatada pelas placas dos veículos estrangeiros estacionados na orla. Por volta das 10h50min desta segunda (16), vários carros da Guarda Municipal circulavam pela Avenida Atlântica, inclusive nos trechos onde foram montados os acampamentos. No entanto, os agentes não tomaram nenhuma atitude e ignoraram a infração dos turistas. Segundo a Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop), foram realizadas operações de fiscalização na parte da manhã e da tarde desta segunda (16), para coibir as infrações dos torcedores hermanos e retirar as estruturas de acampamento montadas por eles nas calçadas de Copacabana. A Assessoria de Comunicação da Seop esclareceu que montar acampamento em área pública é irregular, assim como a utilização de botijão de gás. E os turistas que forem flagrados usando os canteiros para urinar, também serão multados pelo Programa Lixo Zero, da Comlurb, como qualquer cidadão brasileiro. Os valores das multas vão de R$ 157 a R$ 3 mil.

Viaturas da Guarda Municipal circulavam nas proximidades dos acampamentos
Viaturas da Guarda Municipal circulavam nas proximidades dos acampamentos

Com relação às queixas dos moradores quanto ao policiamento no bairro, a Polícia Militar informa que o esquema de segurança para a Copa do Mundo contará com 8.132 PMs escalados diariamente. "No primeiro jogo mil policiais atuaram no policiamento do entorno da Fifa Fan Fest, este número é revisto a cada jogo de acordo com a demanda apresentada", afirmou em nota a Assessoria de Comunicação da corporação. O comunicado diz ainda que estão sendo empregados policiais da tropa das unidades operacionais, do Batalhão de Choque (BPChq), do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (BPTur), Batalhão de Ações com Cães (BAC) e Grupamento Especial de Policiamento em Estádios - GEPE. Além de 780 viaturas, 5 embarcações e 5 aeronaves, sendo duas delas com equipamento de imageamento, para garantir a segurança da população. 

A torcida argentina que está acompanhando a Seleção na primeira fase do Mundial deve viajar nos próximos dias para Belo Horizonte, onde o time joga contra o Irã, no sábado (25), e depois para Porto Alegre, onde a Argentina enfrenta a Nigéria, no dia 25 de junho.

Maioria dos autuados no Maracanã era de estrangeiros

Das oito pessoas que foram autuadas pela polícia em um tumulto que aconteceu no Maracanã durante a partida entre a Argentina e a Bósnia, na tarde deste domingo (15), sete eram estrangeiras. De acordo com a Polícia Civil, quatro eram argentinos, três, ingleses e um, brasileiro. Os detidos foram levados para a delegacia móvel instalada nas proximidades do estádio. 

Cinco estrangeiros foram enquadrados nas penalidades previstas no Estatuto do Torcedor, que determina sanções a quem promover tumulto, praticar ou incitar violência. As demais pessoas foram autuadas de acordo com a Lei de Contravenções Penais. A Polícia Civil não informou se esses torcedores também participaram do protesto no entorno do Maracanã, também durante o jogo pela primeira rodada do Mundial. 

Rodoviária Novo Rio tomada por torcedores estrangeiros

Os serviços oferecidos pelo Terminal Rodoviário Novo Rio aos turistas que estão chegando no Rio de Janeiro para acompanhar a Copa do Mundo foram aprovados, a ponto de alguns deles utilizarem o local como hotel. A administração do terminal, localizado na Zona Portuária, planejou uma área para os torcedores assistirem aos jogos, com poltronas confortáveis e equipado com um televisor de tela led, enquanto aguardam o horário do embarque. No entanto, a área está sendo usada pelos estrangeiros para dormir durante a madrugada, sob a alegação de que os preços das hospedagens na cidade estão muito elevados. 

"A Rodoviária Novo Rio se preparou para receber os turistas de braços abertos e da melhor forma possível, com uma nova estrutura pensando no conforto dos passageiros, com bons banheiros, praça de alimentação e todos os serviços que eles precisam na sua chegada à cidade. Mas nos pegou de surpresa essa questão do pernoite. É importante ressaltar que a rodoviária não tem a função de hospedagem”, disse a assessora de comunicação do terminal, Beatriz Lima. 

Rodoviária Novo Rio criou espaço para torcedor, que turistas estrangeiros utilizaram para dormir
Rodoviária Novo Rio criou espaço para torcedor, que turistas estrangeiros utilizaram para dormir

A Rodoviária Novo Rio tem seis destinos internacionais e espera receber no período de 14 de junho a 15 de julho cerca de 1,5 milhão de passageiros. Pelas primeiras estatísticas de utilização do espaço, o movimento desde o início da Copa já está 30% maior, em comparação com o mesmo período no ano passado, com 40% a mais de estrangeiros. Os novos guarda volumes estão com 90% de utilização, sendo que nos dias normais esse percentual é de apenas 30%. "Os estrangeiros estão deixando as suas bagagens aqui na rodoviária e saindo para passear durante o dia. Voltam na madrugada para acessar os seus pertences", disse Beatriz.

Tags: argentinos, Chilenos, Copa, copacabana, hermanos, hotéis, orla

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