Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Rio

Aldeia Maracanã: índios removidos entram para o programa Minha Casa, Minha Vida

Grupo está no abrigo provisório de Jacarepaguá há mais de um ano

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

Organizada por uma belga, a abertura da Copa do Mundo tentou consagrar o clichê do índio feliz e respeitado. Remando em uma canoa, homenageado e aplaudido, o índio mostrado na solenidade não vive a mesma realidade dos grupos indígenas da antiga Aldeia Maracanã. Após sua remoção forçada, índios de diferentes etnias foram levados para um abrigo improvisado em contêineres em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio.

Segundo o Cacique Tucano, que faz parte do grupo que está no local, o governo incluiu os moradores do abrigo no programa Minha Casa, Minha Vida. “Estamos há quase um ano e três meses nesse abrigo provisório. O governo prometeu criar uma nova aldeia, mas não teve tempo hábil. Agora conseguimos [ser incluídos] o Minha Casa, Minha Vida. Dia 20 vamos lá buscar as chaves e acredito que até agosto vamos para as casas”, conta. Ainda de acordo com o Cacique, a reforma e restauro do Museu do Índio devem acontecer depois da Copa do Mundo.

Perguntado sobre a vida no abrigo, ele diz: “Confortável não é. Até porque a cobertura é de lonas, então, faz muito calor e, quando chove, temos problemas também. Além disso, é distante da cidade, né? Lá na Aldeia Maracanã era mais perto, tinha mais condução. O nosso sonho mesmo era montar uma aldeia típica, mas não teve tempo”. 

Entenda o caso

Em 2012, o governo do Estado anunciou a demolição do prédio do antigo Museu do índio. A propriedade, que fica nas imediações da Aldeia Maracanã, ocupa uma área de cerca de mil e seiscentos metros quadrados e, na época, já contabilizava 34 anos de inatividade. A decisão de Cabral foi anunciada visando à construção de um estacionamento para a Copa do Mundo de 2014. Na época, a Fifa chegou a desmentir que a demolição do prédio fosse uma exigência para a realização do evento.

No terreno, viviam índios de diferentes etnias. Com a medida, eles foram expulsos do terreno com força policial. O grupo ofereceu resistência à remoção e fez protestos por toda a cidade. Ativistas pediram à Organização das Nações Unidas que investigasse possíveis de abuso policial e violência, devido ao uso de balas de borracha e spray de pimenta.

Contudo, o estacionamento foi construído no Estádio de Atletismo Célio de Barros, único local adequado no Rio de Janeiro para o treinamento de todas as modalidades de atletismo das Olimpíadas de 2016. O Estádio foi fechado em janeiro de 2013, sem aviso prévio aos atletas e treinadores. Para a Copa das Confederações, a pista foi asfaltada, deixando esportistas brasileiros sem lugar apropriado para treinar desde então.

O desfecho não agradou a maioria dos índios. Uma parte do grupo decidiu não resistir ao Batalhão de Choque e foi removida para o Hotel Acolhedor Santana 2, no Centro, e depois para um alojamento construído pelo Estado em Jacarepaguá, na Zona Oeste da cidade. Os que foram removidos forçadamente também foram levados para o novo abrigo. O local onde foram construídos os alojamentos abriga a antiga colônia de Curupaiti, destinada aos portadores de hanseníase. Na época da instauração do novo abrigo para índios, o terreno era ocupado por cerca de 2 mil pessoas, sendo 250 hansenianos. Segundo o governo, a medida seria provisória, mas o grupo está no local desde o dia 22 de março de 2013. Além do bairro da Zona Oeste, eles tinham a opção de escolher um espaço em Bonsucesso ou ao lado do galpão da empreiteira Odebrecht, na Avenida Visconde de Niterói. Os alojamentos para residência temporária contam com beliches, contêiner cozinha e contêiner banheiro, sendo um feminino e um masculino. 

* Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: aldeia, indígenas, índios, maracanã, Rio

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.