Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Rio

Rede Comunidades em Pauta: 'JB' reúne representantes em debate 

Objetivo é identificar deficiências nas comunidades e encaminhar a candidatos ao governo do Rio

Jornal do BrasilCláudia Freitas e Louise Rodrigues

Representantes de comunidades do Rio de Janeiro se reuniram para discutir questões relacionadas à melhoria da qualidade de vida na tarde desta segunda-feira (9), na sede do Jornal do Brasil, no Rio Comprido, Zona Norte do Rio. O encontro foi o primeiro de uma série intitulada Rede Comunidades em Pauta, promovida pelo JB e conduzida pelos colunistas do jornal Mônica Francisco, Davison Coutinho e Walmyr Júnior, que escrevem para a coluna semanal Comunidade em Pauta

O intuito do projeto é identificar as maiores deficiências dos moradores das comunidades para a elaboração de uma pauta que será entregue aos candidatos ao governo do Rio. Os participantes da primeira reunião abordaram temas mais gerais e comuns na rotina das comunidades cariocas, mas consideraram que a educação é o caminho seguro para solucionar as mazelas sociais. 

A abertura da Rede Comunidades em Pauta foi marcada pelo discurso do diretor do Jornal do Brasil, Pedro Grossi, que relembrou o surgimento do Complexo da Rocinha no cenário da Zona Sul carioca. Grossi disse que a comunidade situada em um dos metros quadrados mais caros do Rio, o bairro de São Conrado, foi erguida pelos avós e pais de pessoas que atualmente moram ali. "O bairro foi construído por esses familiares que chegaram ao local há mais de 40 anos, e trabalharam como operários nas construções de edifícios, como o Hotel Nacional. Mas a falta de legislação sobre vale-transporte e ticket refeição transformaram aquele local em residência de seus descendentes. Já a nova geração não teve a oportunidade de trabalhar na construção civil e o volume de desempregados permitiu que a facilidade do tráfico pudesse mudar as mentalidades dos filhos e/ou netos, com a promessa de dinheiro fácil. Enquanto os pais e avós tinham o sustento nas obras, os filhos e netos, por falta de opção de trabalho, foram captados pelo tráfico, que, por sua vez, tem como consumidor os jovens ricos que rodeiam aquela região", avaliou Grossi sobre o crescimento urbano e social da Rocinha. 

Analisando o fortalecimento do tráfico no Rocinha, Grossi disse ainda que foi dessa atividade criminosa que nasceu a importância e a necessidade de olhar para essas comunidades. A violência do tráfico fez com que a elite carioca se preocupasse com a região, pelo fato dela ter se tornado uma ameaça. "Isso é muito triste, você olhar para uma comunidade somente quando ela oferece perigo. Se ela não oferecesse perigo, se ela fosse pacífica, se ela morresse nas palafitas ou se ela fosse se matando, a sociedade talvez não olhasse para ela", comentou o diretor.

Pedro Grossi chamou atenção para a quantidade de pessoas que moram nessas comunidades, quase 70 mil habitantes. "O JB gostaria de ser o porta-voz dessas comunidades, acabar com esse isolamento. Não em uma necessidade de pacificação, mas de integração", afirmou Grossi, considerando o significado da palavra "pacificação", que assume neste caso o sentido de "excludente". "As comunidades não precisam ser pacificadas, mas integradas. Pacificar o que? Pacificar para o ser humano é a mesma coisa que adestrar para o animal", considerou. Para o diretor do JB, a sociedade e o estado têm a obrigação de socializar as pessoas que tiveram dificuldade na educação. Grossi também pediu às comunidades para terem no JB um canal aberto as suas verdades, "que não são subjetivas, mas verdadeiras".

No seu conceito de integração entre favela e sociedade, Grossi acredita que quando professores e médicos, por exemplo, estiverem dentro das comunidades, haverá esse fenômeno chamado "integração", se falará um mesmo idioma, o que seria um fruto do investimento em educação. "Quero oferecer um serviço a quem tenho certeza que precisa dele", disse Grossi se referindo ao projeto do JB.

Lançando um olhar ainda mais amplo sobre a existência das comunidades e a sua participação na sociedade do Rio, ele avalia que os problemas atuais já vêm de muitos anos e disse que é fundamental que os serviços básicos estejam disponíveis para os moradores dessas áreas, especialmente educação e saneamento básico, que podem constituir uma facilidade para uma boa saúde e, por conseguinte, emprego. Grossi disse que esse contingente de pessoas que residem nas comunidades não pode ter importância apenas para fins de voto e eleitoral.

Dennis da Costa, estudante de Desenho Industrial da PUC e morador da Rocinha, disse durante o encontro que está muito evidente que os problemas que o Brasil está vivendo alcançam uma dimensão muito maior nas comunidades. "Se está difícil para a classe média, imagina para a classe baixa", disse ele abrindo o seu discurso durante o encontro. Para ele, a base do desenvolvimento das comunidades está na implantação de uma educação básica, como política de desenvolvimento sustentável e melhoria da qualidade de vida. Ele acredita que deveria haver uma mudança mais extrema e maiores investimentos nas comunidades, para dar oportunidade aos filhos de famílias menos favorecidas para mudar de vida, ter uma profissão e mudar sua história. "Educação é a base de tudo", resumiu.

Adelson Guedes, também morador da Rocinha, tem uma avaliação sobre a Segurança Pública integrada com a educação básica. Ele defende que se o tripé educação, saúde e moradia funcionar na comunidade, outras deficiências como saneamento e segurança serão facilmente resolvidas. Já o morador do Complexo da Maré, Waldir, apresentou um novo olhar sobre a educação nas comunidades, como caminho seguro para solucionar todas as outras questões sociais e de infraestrutura. Para ele, a educação deve começar na família, como elemento "primordial" em todos os sentidos e para o desenvolvimento saudável do indivíduo. A educação deve ser vista como "a arma futura" para que as crianças possam adquirir um caráter correto e, se um dia chegarem a ser um policial, possam agir como profissional e não motivados por vingança ou em consequência de traumas familiares, e muito menos se deixar corromper. 

Em uma avaliação mais crítica, o vice-presidente da Associação dos Pais e Amigos dos detentos do Estado do Rio de Janeiro (APADERJ), Membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH-RJ) e coordenador do Movimento Popular de Favelas, William de Oliveira, concordou que a educação deve ser o primeiro passo em direção à melhoria de vida nas comunidades e que esse processo deve começar dentro de cada residência. "O professor ensina, mas a família educa", destacou. Morador da Rocinha, Oliveira fez uma análise negativa da atuação dos governos municipal e estadual nas comunidades cariocas, especialmente sobre a "falência dos projetos das UPPs", que não alcançaram os resultados anunciados pelas autoridades e ainda contribuíram para o aumento da criminalidade nessas regiões. "Onde está a UPP Social que eles [governantes] prometeram?", questionou o líder comunitário.

Segundo Oliveira, após a chegada da UPP na Rocinha aumentou o índice de prostituição no local, assim como os casos de corrupção. "É um processo complexo. O policial que está na comunidade hoje pode ter tido um membro da sua família assassinado no passado em uma favela e resolveu virar policial. Por outro lado, temos policiais de bem e competentes. Esse quadro nos leva a uma sociedade debilitada, deteriorada", comenta Oliveira. Para ele, o jovem que cresce na comunidade não tem condições sociais e psicológicas para lidar com a criminalidade e o governo não investe na instrução dessa classe e nem valoriza o policial que trabalha nessas regiões, criando condições para um ambiente hostil. "Só a gente pensar, o que vai ser desses jovens daqui a 20 anos?", questionou.

O morador da Rocinha Rafael disse que o discurso do governo sobre integração é uma "palhaçada", porque eles [governantes] não conhecem a realidade da comunidade e, então, não podem agir de forma adequada num local que é desconhecido para eles. Rafael citou o exemplo do turista estrangeiro que chega ao Rio de Janeiro e troca um hotel de luxo na Zona Sul por uma estadia na Rocinha. "Se eles que falam uma outra linguagem estão subindo o morro, como a nossa nacionalidade não faz isso?", reclamou. 

Na sua avaliação sobre Segurança Pública na Rocinha, o governo tenta manter a comunidade "burra" e "precária", para manter seu plano de domínio e gerar ainda mais lucro. "A miséria gera muito dinheiro." E ainda completou, se referindo a uma visão discriminatória, que ainda persiste na sociedade sobre os morros: "Se somos marginais, quem é o dono dessa fábrica?" Ele concorda com William Oliveira sobre a falha do projeto das UPPs, que, para ele, ainda mantém o esquema de corrupção nas suas áreas de atuação. 

Uma opinião semelhante é defendida por outro morador da Rocinha que participou do encontro, Daniel Figueiredo. Ele considera que o preconceito precisa ser "quebrado" para dar espaço para a igualdade, já que a desigualdade social é uma das formas de preconceito. Ele reforça também que a educação dirigida, seja na escola ou em casa, pode mudar a realidade dessas comunidades. 

José Ricardo Duarte, membro da Associação dos Moradores Laboriaux e Vila Cruzado e do movimento Rocinha Sem Fronteiras, tem a certeza de que a questão da Segurança Pública tinha que ser pautada como direitos do cidadão. Ele ressaltou que os moradores da cidade têm os seus direitos constitucionais garantidos, enquanto o morador da favela tem que "tomar porrada" - "a realidade é essa", afirmou ele.

Duarte falou sobre a relação da comunidade da Rocinha com os governantes do Rio. Segundo o líder comunitário, vários documentos foram elaborados com a participação da população e de ONGs, detalhando a realidade com todas as suas deficiências, que foram ignorados pelos governos locais, numa clara demonstração de que "os interesses da política partidária estão sobrepondo a política social, seja na educação, na saúde, na habitação e em todos os setores". "Quando o governo não sabe o que está acontecendo na comunidade, nós mostramos para eles, para tentar chegar a uma igualdade social", afirmou. 

De acordo com Duarte, o governo tem procurado "empurrar goela abaixo" "coisas" que a comunidade não precisa, e os líderes comunitários têm procurado suporte técnico para tentar argumentar e solucionar cada questão apresentada nesse contexto. Ele reclamou da criação de algumas comissões sugeridas pelo próprio governo do estado para "representar" (fazendo um sinal de entre aspas) a comunidade. Duarte citou o caso do Teleférico, que foi um projeto apoiado por um dos movimentos da comunidade, Rocinha 100%. No entanto, o protesto deste grupo, que teve apoio do governo, foi divulgado em uma lista de prioridades que tinha como questão mais importante o Saneamento, seguido pelo Teleférico e pela Dignidade. "Como a Dignidade vem abaixo de outros fatores?", questionou Duarte. Ele também comentou sobre a construção de uma passarela na Rocinha que foi erguida em detrimento da inauguração de uma creche. "Como uma passarela pode ser mais importante que uma creche?", voltou a indagar. 

Duarte contou que entrou na militância na Rocinha depois que sua família teve a casa desapropriada na localidade Laboriaux. Esta área da comunidade, segundo ele, nunca recebeu investimento e sempre ficou à margem de qualquer crescimento, o que o levou a idealizar a associação de moradores. 

Sobre Comunidade em Pauta e "Rede Comunidades em Pauta"

A coluna Comunidade em Pauta foi criada em agosto de 2013, como forma de criar mais um canal de comunicação para as comunidades cariocas apresentarem as suas revindicações, projetos, ideias e, especialmente, terem um retorno das autoridades e da população da cidade. "O Jornal do Brasil, que há mais de 100 anos, permite ecoar as vozes das comunidades paroquiais, agora nos permite mostrar a nossa cara, cujo a marca da violência e exclusão está estampada. Vamos juntos gritar, mudar o mundo, chega de violência, injustiça e descaso com a nossa juventude!", escreveu o colunista Walmyr Jr. na primeira edição da sua coluna, no dia 5 de agosto de 2013.

A representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE e colunista do Jornal do Brasil, Mônica Francisco disse que o projeto tem fundamental importância para as comunidades, porque revela os desejos mais legítimos de seus moradores. "Não é alguém dizendo em nome das favelas, mas é a própria comunidade se expressando, dizendo o que está vivendo e como gostaria que seus problemas fosse resolvidos", diz Francisco. 

Davison Coutinho, membro da Comissão de Moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor e escritor, diz que a iniciativa do JB é importante para tentar mudar o cenário na Rocinha. Ele comenta que na comunidade ainda é muito triste ver os jovens crescer convivendo com a marginalidade. Ele descreveu no encontro a difícil realidade da juventude nas comunidades, que quando em contato com a sociedade toma conhecimento com os avanços tecnológicos, como celulares modernos, carros do ano e tudo mais que eles gostaria de também desfrutar. A partir dessa conjuntura, a pessoa pode tomar um caminho errado, se não tiver um suporte familiar forte e o problema se torna generalizado.

A pouco menos de completar um ano de existência da coluna e faltando apenas quatro meses para as eleições, o JB produziu o projeto Rede Comunidades em Pauta, com a finalidade de identificar os maiores problemas dos moradores dessas regiões e enumerá-los em um documento a ser entregue aos candidatos ao governo do Rio de Janeiro. 

Tags: boréu, comunidades, maré, rocinha, saneamento, segurança

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