Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Rio

Universidade Rural: novas denúncias, problemas antigos em Seropédica

Alunos convivem com assaltos e abandono. Universidade diz que já solicitou ajuda a Pezão

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

A violência e a falta de estrutura continuam sendo um problema para os estudantes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Há dois meses, o Jornal do Brasil recebeu denúncias da estudante Thays Guimarães Mendes, do curso de Engenharia Química, relatando as condições enfrentadas pelos alunos que moram e estudam na universidade. Hoje, a situação não é diferente. Diante do permanente descaso da reitoria, os alunos voltaram a procurar o Jornal do Brasil para denunciar novos casos de violência.

Segundo os estudantes, a infraestrutura no campus de Seropédica continua crítica. Problemas como ventiladores quebrados, aparelhos de ar condicionado sem manutenção, falta de água nos alojamentos, mato alto, ruas escuras e banheiros interditados continuam sem solução. Contudo, a violência é o que mais assusta os estudantes. Há duas semanas, boatos de que uma aluna teria sido sequestrada e levada para um matagal dentro do campus espalhou pânico entre os estudantes. A história não foi confirmada e a Polícia Militar alega que não houve registro do caso.

O medo levou Angélica da Costa Pereira, mãe de uma estudante do curso de Agronomia e ex aluna da Rural, a fazer uma petição pública pela implantação de uma Delegacia de Mulheres em Seropédica. “Meu pai mora lá e minha filha estuda da Rural. Faço isso pensando nela também. Depois das 18h é noite alta em Seropédica. A ciclovia também é um alvo de roubos e tentativas contra mulheres, principalmente durante a noite. Enviei a petição para a Prefeitura de Seropédica e eles já entraram em contato comigo para marcar uma reunião, que deve aconteceu durante o mês de junho”.

O mato alto facilita a ação de bandidos e serve de esconderijo para os criminosos
O mato alto facilita a ação de bandidos e serve de esconderijo para os criminosos

Assaltos

O estudante T.S, que prefere não se identificar por medo de represálias, contou que foi assaltado no dia 24 de maio, às 22h30, na ciclovia que dá acesso à UFFRJ. Este local é alvo de constantes reclamações devido ao alto mato e à má iluminação. O rapaz descreve a ação dos bandidos como “extremamente violenta”. Ele conta que os assaltantes o abordaram, anunciaram o assalto e levaram um tablet, a carteira com todos os documentos e cartões, o celular, um pendrive e um gravador.

“No momento do assalto, eu estava ao celular conversando com minha namorada, que também estuda na UFRRJ. Ela ouviu tudo e entrou em pânico. Disse minutos antes para eu não passar por ali, e eu disse que não podemos virar reféns do medo e que eu nunca tinha sofrido um assalto e não seria naquele dia. Agora, percebo que diante da situação e com falta de postura da UFRRJ em relação a essa situação, somos reféns há muito tempo. Eu apenas não tinha experimentado a sensação de medo e impotência”, conta T.S.

Segundo a vítima, um guarda da universidade disse que muitos assaltos acontecem na região, mas, ao ser perguntado sobre a possibilidade de enviar um ofício à PM pedindo reforço no policiamento, o guarda “riu descaradamente”. T.S conta que ficou traumatizado após o assalto e reclama do descaso da reitoria. “É uma sensação de impotência muito grande. Isso marcará minha vida eternamente. Quando escuto o barulho de uma moto, tremo. A reitoria nunca se preocupou. Vivemos momentos de terror na UFRRJ. Só espero que dias melhores venham para os ruralinos”, finaliza.

A estudante de Educação Física Katiane Rodrigues foi assaltada dentro da faculdade. Ela conta que estava em um ponto de ônibus com duas coberturas afastadas, em frente a um dos prédios. “Dois garotos, de aproximadamente 20 anos, sentaram na cobertura mais afastada. Eles eram estranhos, mas como ficaram sentados e mostrando a cara, pensei que não eram assaltantes”, relembra. Katiane continuou sentada no ponto ao lado de três meninas e próxima a um grupo de vans. “Eles chegaram por trás do ponto e mandaram a gente ficar quieta e passar o celular. Não tive reação e eles disseram que era pra passar logo e não queriam que ninguém percebesse. Eu levantei e eles me mandaram ficar sentada para ninguém perceber. Eu disse que ia pegar o celular e uma menina apareceu no ponto nessa hora, mas não percebeu o que estava acontecendo. Ela chegou a sentar e ele a abordou também, mas ela disse que não entregaria o celular e se levantou. Foi quando um deles sacou uma arma e a menina saiu correndo pra uma van. Ele foi por trás de outra van e atirou, mas não atingiu ninguém. Aproveitei a situação e fugi”, explica Katiane.

Casos de violência continuam sendo registrados no campus da UFRRJ em Seropédica
Casos de violência continuam sendo registrados no campus da UFRRJ em Seropédica

Estudante da UFRRJ desde 2008, Ana Rafaela Anjos alterou sua rotina com medo da violência. Ela diz que não pega mais disciplinas na parte da noite, com receio de sofrer algum tipo de abordagem. Há três anos, ela presenciou um tiroteio entre bandidos em frente ao hospital veterinário e afirma: “A única coisa que fizeram para aumentar a segurança foi instalar dispositivos para impedir a entrada de motos por outros lugares sem ser a guarita, no portão principal da UFRRJ. Policiamento no local do incidente eu nunca vi”. Na ocasião, duas motos com criminosos passaram por um portão próximo ao Instituto Veterinário e trocaram tiros. Ana Rafaela ouviu três disparos e viu médicos do hospital veterinário correndo. Segundo a aluna, um homem foi baleado e socorrido por uma ambulância da própria Universidade.

Um estudante de Administração, que também prefere não se identificar com medo da violência, conta que já teve sua bicicleta roubada dentro do campus. Revoltado, ele comentou a situação dos alunos da faculdade. “A falta de segurança na Rural é muito preocupante. Não apenas para nós, alunos, mas para nossos parentes também. Meu pai pesquisou na internet e achou vários artigos antigos e recentes falando sobre a violência na Rural. Minha família está  preocupada com minha segurança aqui em Seropédica”, conta. O aluno também questiona as notas que a universidade costuma divulgar para justificar ou prestar esclarecimentos. “O que me deixa surpreso e triste é que tudo que foi escrito ou dito pela universidade é uma mentira absoluta. Recentemente houve troca de tiros entre assaltantes e policiais, em frente a um dos prédios. Desde então, não vi mais nenhum carro da Polícia Militar por lá”, critica.

Ato contra a violência

 Diante dos constantes registros de violência, o Coletivo de Mulheres, o Núcleo Universitário Negro (NUN) e Diretório Central do Estudantes (DCE) organizaram um ato pedindo solução para o problema. O movimento aconteceu no dia 22 de maio, às 15h, na Praça da Alegria, em frente à sede do DCE.

Durante a concentração, os manifestantes organizaram uma oficina de cartazes. Às 16h eles seguiram em passeata até o prédio principal, onde ficam as salas de Pró-Reitorias e a Reitoria. A reitora Ana Dantas não estava presente e os alunos foram recebidos pelo vice reitor, Eduardo Callado. Segundo a organização do ato, os alunos pediram propostas de melhorias para a segurança no campus e também relataram casos de violência. Ainda de acordo com a organização, o vice reitor legitimou as cobranças feitas em um documento elaborado pelos coletivos e apresentou propostas de solução. Após o ato, representantes da Administração Superior elaboraram uma nota de compromisso da administração com os estudantes.

Parecer da Universidade

Ruas pouco iluminadas com mato fechado preocupam estudantes
Ruas pouco iluminadas com mato fechado preocupam estudantes

Procurada para comentar as novas denúncias e os antigos problemas, a reitoria da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro se manifestou por meio de duas notas. Em um texto, a administração comenta novas medidas de segurança que devem ser adotadas no campus. Em outra, dá seu posicionamento sobre as denúncias de insegurança. Segundo os próprios alunos, os problemas já se arrastam há anos.

Novas decisões sobre segurança:

“Consciente de seu papel na gestão da Universidade e com o objetivo de dar transparência às decisões tomadas, a Administração Central vem a público expor novas informações importantes a respeito do tema segurança.

- No dia 22 de maio, a reitora, Ana Maria Dantas, entregou um ofício ao governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, expondo a situação de insegurança do município de Seropédica, que atinge também a UFRRJ. O governador se prontificou a trazer o secretário de Segurança estadual, José Mariano Beltrame, ao município para uma reunião específica sobre o tema.

- A elaboração de um projeto de segurança está sendo finalizada, para a contratação de uma empresa de vigilância, privada, para atuar no controle dos acessos à Universidade.

- O mato que cresce no interior do campus precisa ser cortado e, geralmente, é. No entanto, como é da informação de todos, há uma greve de técnicos em andamento, desde o dia 17 de março. Desde então, esta atividade está tremendamente prejudicada.

- A iluminação está precária em alguns pontos do campus e a manutenção está sendo feita com o mínimo de pessoal, também devido à greve de técnicos.

- Já foi solicitada a compra de mais dois veículos para aumentar a quantidade de carros da Divisão de Guarda e Vigilância (DGV) da Universidade.

- Reiteramos a necessidade de quem for vítima de algum tipo de violência no campus  registrar qualquer situação. O contato da DGV é 2681-4646 – 24 horas.

Posicionamento da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro sobre denúncias de insegurança no câmpus Seropédica:

A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) está localizada no município de Seropédica, na Baixada Fluminense, tem 18 mil alunos, sendo 15 mil presenciais divididos em três câmpus – Três Rios, Nova Iguaçu e Seropédica – e 3 mil no regime de ensino à distância. Tem 103 anos, 57 cursos de graduação, 26 programas de mestrado e 13 de doutorado. Tem o segundo maior câmpus do Brasil, com cerca de 3 mil hectares. O maior pertence à Universidade Federal do Amazonas, que conta com a Amazônia e reservas florestais como câmpus.

A Universidade está ciente de que o problema social da violência vem crescendo nos últimos anos na região, o que já tem sido discutido pela sociedade como possível consequência da instalação de 37 Unidades de Polícia Pacificadora, em diversas áreas do Estado do Rio de Janeiro, desde 2008.  Portanto, da mesma forma que houve um aumento de relatos de violência em toda a região metropolitana, e em Seropédica,houve na UFRRJ.

Para combater esta situação, a Universidade conta com a Divisão de Guarda e Vigilância (DGV), que tem técnicos especializados em segurança.

A reitoria da UFRRJ está ciente e reconhece que há problemas, pontuais, mas entende que há muita especulação e desinformação, que são fomentadas nas redes sociais. A última questão pontual foi semana passada: um assalto ocorrido no ponto de ônibus, que fica na Rodovia BR 465, em frente ao Instituto de Ciências Humanas e Sociais. O caso foi comunicado à DGV, foi registrado na 48ª DP (Seropédica) e está sendo investigado. O chefe da DGV, Renan Canuto, se reuniu com o comandante do Destacamento de Polícia Militar de Seropédica, do 24º BPM (Queimados) para solicitar a intensificação do policiamento no entorno da Universidade. O que já foi atendido. E a própria DGV também aumentou a periodicidade das rondas no interior do câmpus Seropédica.

Além de todas as providências citadas acima, no dia de hoje, 21 de maio, a reitora da UFRRJ, professora Ana Maria Dantas, está em Brasília, onde já teve uma reunião com o secretário-executivo do MEC, Luiz Claudio Costa. Um dos principais motivos da reunião foi o pedido de recursos financeiros para a contratação de uma empresa de segurança privada, para atuar no controle do acesso ao campus Seropédica, como já é feito nos campus de Nova Iguaçu e de Três Rios. O MEC está sensível à questão e providências já estão sendo tomadas.

Nota-se que UFRJ e UFF têm enfrentado situações muito semelhantes.

Quanto a outras situações de violência ocorridas no campus Seropédica, a Administração Central da Universidade só toma conhecimento extraoficialmente e, por isso, não é possível um posicionamento mais efetivo. E pede que as pessoas diretamente afetadas se identifiquem, comuniquem os fatos imediatamente à DGV, para que sejam encaminhadas possíveis soluções. Estas são condições fundamentais para a tomada de providências.

A UFRRJ está aberta ao diálogo, entende que a segurança é prioridade e pede que toda a comunidade acadêmica colabore para o bem de todos.

*Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: Assalto, estupro, furto, infraestrutura, nota, reitoria, seropédica, violência

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