Jornal do Brasil

Quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Rio

Greves: dissidentes revelam a face frágil e política dos sindicatos de classe

Jornal do BrasilCláudia Freitas

Pela segunda vez em 2014 a capital fluminense é afetada por greves promovidas por categorias distintas. Em pleno carnaval, o Rio de Janeiro foi tomado por toneladas de lixo espalhadas pelas ruas principais, durante uma paralisação de garis que durou oito dias e foi encerrada após a prefeitura conceder um aumento de 37% no salário-base da classe. Desde a quinta-feira passada (8/5), a população carioca voltou a sentir os efeitos de uma paralisação, desta vez promovida por um grupo de rodoviários que rejeita o acordo feito entre o sindicato que representa os motoristas e cobradores e o consórcio Rio Ônibus, que responde pela classe patronal. 

Os dois casos trouxeram à tona questionamentos contundentes. O primeiro diz respeito aos conflitos de base sindical e as suas consequências para a sociedade. O segundo levanta a possibilidade de uma nova "tendência" adotada pelos trabalhadores para reivindicar os seus direitos, ignorando as entidades representativas.        

A procuradora do Ministério Público do Trabalho do Rio, Débora Felix, que intermediou a audiência de conciliação entre rodoviários, sindicato da classe e Rio Ônibus, na segunda-feira passada (12), considera desfavorável para o trabalhador essa fragmentação que tem se evidenciado entre as entidades representativas e seus associados. "Esse quadro revela uma fragilidade na liderança sindical, o que não é bom para o trabalhador. Isso pode estar acontecendo por uma infiltração de grupos políticos nos sindicatos, por um descontentamento dos trabalhadores com as atuações internas ou outros motivos. De qualquer maneira, vejo com preocupação essa nova tendência e lamento, porque ela enfraquece o trabalho dos sindicatos e não contribuiu para a solução dos impasses.", disse a magistrada.

A procuradora considera que a greve dos garis foi menos agressiva do que dos rodoviários, mas também contribuiu para esse novo perfil de protesto dos trabalhadores, que pode, inclusive, incentivar outras categorias a eleger o mesmo caminho. Na audiência envolvendo os rodoviários e representantes dos sindicatos, Felix conta que não houve "ambiente" para superar os impasses. O resultado foi sentido no dia seguinte pela população, que ficou sem 90% da frota de ônibus urbano que circula pela capital. Segundo Felix, foi possível perceber que existe uma divergência interna no Sindicato dos Rodoviários - "que só prejudica a classe".

O cientista político e professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), Marcus Ianoni, considera que a luta sindical também é uma luta política - "embora esse caráter político possa ser maior ou menor, dependendo das características da luta concreta que está em curso". Ianoni avalia que o conflito entre capital e trabalho assalariado é político e acontece no âmbito das relações trabalhistas. "O preço que os capitalistas pagam à força de trabalho no mercado é objeto de uma disputa política, que Marx denominava como sendo luta de classes. Essa disputa política de interesses é também mediada pelo Estado (Justiça do Trabalho, polícia, leis de greve etc)", explica o especialista.

De acordo com Ianoni, em alguns sindicatos há disputa política entre a direção e setores da base. "Temos um histórico de peleguismo que ainda não foi superado. As greves e manifestações atuais estão inseridas em uma conjuntura de eleições gerais e de realização da Copa do Mundo", diz o cientista político. Esse contexto, na avaliação de Ianoni, estimula as mobilizações, porque os "atores" acreditam que a situação é favorável para obter conquistas. "A decisão de entrar em greve tem caráter estratégico e um ponto importante na tomada de decisão é a conjuntura, seja a conjuntura da categoria como a conjuntura local, estadual e, até mesmo, nacional. Por outro lado, a questão do apoio ou não da população é delicada. Os demais sindicatos e movimentos sociais, por uma questão de solidariedade e consciência política, costumam apoiar", afirma ele.

Os efeitos das mobilizações na sociedade, mesmo nos segmentos da população mais distantes dos protestos, pode se traduzir em reclamações do sofrimento provocado pelas greves em setores essenciais. Para Ianoni, o tema é complexo e precisa ser debatido. "Sei que em Portugal tem havido greve dos transportes através da não cobrança das passagens, de modo que os grevistas optam por atingir apenas o cofre das empresas, deixando a população de fora e isso parece agradar os usuários. Por outro lado, reconheço que é importante o direito de greve e observo que os motoristas e cobradores são submetidos a condições de grande exploração. Os usuários  querem passe livre ou transporte barato, como vimos nas manifestações de junho. Por outro lado, os empresários querem lucros e acumulação de capital. Os trabalhadores das empresas de transporte ficam pressionados pelos dois lados", diz o especialista, descrevendo o atual empasse que atinge em cheio o transporte público no país.

Tags: decisão, onibus, paralisação, Rio, Tribunal

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