Jornal do Brasil

Sábado, 26 de Julho de 2014

Rio

UPP: a pacificação que não veio

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

Protestos, violência e insegurança. Enquanto o governo do estado do Rio de Janeiro anuncia um mundo ideal em suas propagandas de TV, pessoas morrem e desaparecem nas favelas cariocas. Os papéis se inverteram: antes, os traficantes andavam armados e disputavam os papéis de vilões e heróis entre os moradores da comunidade. Hoje, os policiais das Unidades de Polícia Pacificadora assumiram o comando do fuzil. Mas a esperada paz continua uma promessa distante, e as comunidades acabaram por se transformar num barril de pólvora prestes a explodir.

Este aumento na violência é facilmente constatado no último levantamento do Instituto de Segurança Pública (ISP). De acordo com o balanço divulgado na sexta-feira (2), o número de homicídios durante confronto com a polícia no Rio registrou um aumento de 59,3% no primeiro trimestre de 2014 em relação ao primeiro trimestre de 2013. Apesar de o ISP não confirmar nem negar que estes números se referem a regiões com UPPs, o assustador crescimento comprova que a cidade vive um clima de guerra.

Em 2010, quando foram inauguradas as primeiras UPPs, o cenário já mostrava uma prévia do que se repetiria muitas vezes. No dia 3 de março daquele ano, um grupo de traficantes incendiou um ônibus, ferindo pessoas e espalhando o terror entre a população da Cidade de Deus. Os criminosos continuavam morando na comunidade, mesmo com a pacificação. No mesmo ano, na madrugada do dia 26 de dezembro, policiais da UPP de Cidade de Deus, foram atacados na Travessa 15 por traficantes que ocupavam uma moto.

Um mapeamento independente, realizado por um morador da comunidade de Manguinhos, levanta dados junto aos moradores da comunidade para medir violações de direitos nos territórios com UPPs. Segundo apontado no próprio mapeamento, um dos objetivos é “gerar informações com o olhar de quem sofre as violações e também contrapor as informações”.

Violência contra moradores

O levantamento faz um trabalho de resgate de casos pouco divulgados de mortes de moradores. De fato, o caso Amarildo foi o primeiro grande escândalo a atingir a UPP. Embora a relação entre policiais e moradores não seja a ideal desde a instalação da primeira UPP, foi o desaparecimento do pedreiro que ganhou grande repercussão na mídia. A partir de então, os abusos de autoridade de policiais lotados em UPPs passou a chamar atenção.

O documento conta a história de outras vítimas da violência nas comunidades “pacificadas”.  Em abril de 2013, o jovem Aliélson Nogueira, de 21 anos, foi morto por policiais da UPP Jacarezinho. Segundo a página “Ocupa Alemão”, o rapaz, que trabalhava em um galpão de reciclagem, estava em uma localidade conhecida como Beira do Rio, quando foi assassinado com tiros pelas costas enquanto comia um cachorro quente. A polícia alega que Aliélson foi vítima de uma bala perdida. O jovem seria pai em poucos meses.

Em junho de 2011, André de Lima Cardoso, de 19 anos, foi morto por policiais da UPP Pavão-Pavãozinho. Segundo relatos de moradores, o jovem foi comprar um lanche para a esposa, grávida de 9 meses, quando foi abordado por policiais à paisana e alcoolizados. Após ser agredido com socos e chutes, o rapaz foi liberado. Quando chegou ao final do beco, o jovem foi morto com um tiro nas costas. Os policiais registraram o caso como um auto de resistência. A filha de André nasceu cinco dias após a morte do pai.

Aos 16 anos, Mateus Oliveira Casé foi mais uma vítima da violência policial. Em março de 2013, o adolescente morreu vítima de uma parada cardíaca após uma abordagem violenta de policiais da UPP de Manguinhos, com uso de uma arma teaser. Na ocasião, uma amiga do rapaz contou que eles estavam brincando quando Mateus disse “vai morrer”. Os policiais, então, acreditaram que o garoto se referia a eles e, por trás, deram um choque. Matheus caiu e bateu com a cabeça na calçada. Segundo a jovem, os PMs disseram que ele acordaria em duas horas, mas o adolescente já chegou morto à UPA. Na ocasião, moradores fizeram protestos. Mateus possuía seis anotações como menor infrator: duas por tráfico, duas por furto, uma por tentativa de motim e uma por ameaça.

Em dezembro de 2013, o idoso Joaquim Santana, de 81 anos, foi morto com um tiro no olho. Durante uma abordagem violenta a um grupo de jovens, moradores se revoltaram e causaram um tumulto. Para contê-los, um policial da UPP de Manguinhos deu três tiros para o alto, atingindo o idoso, que estava na sacada de sua casa.

No último dia 20, uma idosa de 72 anos foi baleada e morreu durante um confronto entre policiais e traficantes. Arlinda Bezerra de Assis voltava para casa, na comunidade da Grota, após comemorar o aniversário em um almoço de família. Em meio ao fogo cruzado, a idosa se atirou na frente do sobrinho, de 10 anos, para protegê-lo. Os disparos atingiram a barriga e a virilha. Oito dias depois, um rapaz de 17 anos foi assassinado durante uma operação da Polícia Militar. No dia seguinte, outro jovem, Carlos Alberto de Souza Marcolino (21), foi baleado no peito, também durante um confronto entre PMs e traficantes. Até o fechamento desta reportagem, Carlos permanecia internado em estado grave.

No último dia 22, Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, foi encontrado morto com um tiro e vários ferimentos, na comunidade Pavão-Pavãozinho. De acordo com a Polícia Militar, ele foi encontrado no pátio de uma creche no dia seguinte a um tiroteio entre policiais da UPP e criminosos da comunidade. A família do dançarino aguarda o laudo oficial da perícia para confirmar se houve tortura e se o disparo partiu da arma de policiais.

Em março deste ano, outro caso chocou o Brasil. Cláudia Silva Ferreira foi baleada quando saía para comprar pão, no Morro da Congonha. Após ser ferida, a mulher foi jogada no porta mala de uma viatura e levada para o Hospital Carlos Chagas. Contudo, durante o trajeto, o porta mala abriu e Cláudia foi arrastada por 350 metros. Um vídeo, gravado por um cinegrafista amador, registrou quando os policiais foram avisados e saíram do carro para, novamente, jogar a mulher dentro do porta malas.

No último dia 1° de maio, um tiroteio na comunidade da Rocinha matou uma pessoa e feriu gravemente outra. O episódio começou quando policiais da UPP foram surpreendidos por bandidos enquanto faziam o patrulhamento na Rua 2.

Protestos

Diante dos constantes casos de escândalo envolvendo as UPPs, moradores das comunidades têm realizado constantes protestos. A onda de manifestações começou quando o corpo de Douglas Silva foi encontrado dentro de uma creche. Revoltados, amigos do dançarino e moradores do Pavão-Pavãozinho foram para as ruas e entraram em confronto com policiais.

Durante o protesto, Edilson da Silva dos Santos - um rapaz de 27 anos, que sofria de problemas mentais e era irmão de criação de Douglas – foi morto com um tiro. O caso está sendo investigado. A manifestação teve repercussão mundial. Jornais como Le Monde, Washington Post, New York Times e El País deram destaque para a morte de Douglas e Edilson e questionaram a segurança e as políticas públicas do Rio de Janeiro, em uma época tão próxima à Copa do Mundo.

Após o enterro de Douglas, outro protesto levou amigos e parentes do rapaz às ruas. Os manifestantes seguiram caminhando do Cemitério São João Batista até a comunidade do Pavão-Pavãozinho. A polícia usou bombas de gás lacrimogênio e spray de pimenta. No sábado seguinte à morte de Douglas, outra manifestação tomou às ruas, pedindo paz.

Após a morte de Dona Arlinda, moradores do Complexo do Alemão também protestaram. Eles fecharam a Avenida Itaré, um dos principais acessos da comunidade. Após o ato, a UPP Nova Brasília foi atingida por dois tiros, que não feriram ninguém. A base de Pedra do Sapo também foi atacada, sem vítimas. 

Morte de policiais

O mesmo levantamento também aponta o lado social das mortes de policiais lotados em UPPs. De acordo com o documento, a maioria dos policiais de UPPs mortos em confronto com o tráfico é negra. A violência contra policiais coloca em dúvida a segurança destes profissionais nas comunidades “pacificadas”. Em março deste ano, o tenente Leidson Acácio Alves Silva foi morto após ser atingido por um tiro na cabeça. O subcomandante da UPP da Vila Cruzeiro fazia o patrulhamento na favela Parque Proletário quando foi surpreendido por bandidos armados.

A morte do tenente foi a quarta registrada em um período de um mês entre policiais que trabalham em UPPs. Em fevereiro, a PM Alda Castilho, da UPP Parque Proletário, foi baleada na barriga e morreu. Quatro dias depois, o PM Wagner Vieira da Cruz, da UPP Vila Cruzeiro, foi atingido por um disparo na cabeça e também não resistiu aos ferimentos. No dia seguinte, o PM Rodrigo Paes Leme, da UPP Nova Brasília, também foi ferido no peito e morreu.

No ano passado, o PM Melquisedeque Basílio, de 29 anos, da UPP Parque Proletário, no Complexo do Alemão, foi assassinado em frente ao contêiner, que funciona como sede da unidade. Houve troca de tiros com bandidos, ferindo quatro pessoas, entre elas, dois traficantes.  Também em 2013, o PM Anderson Dias Brazuna foi morto com um tiro no peito enquanto fazia uma ronda na Cidade de Deus.

Na manhã do dia 1º de maio, um policial da UPP Alemão foi baleado no rosto quando fazia um patrulhamento no Largo do Mineiro. O grupo foi vítima de uma emboscada e trocou tiros com os bandidos. Apesar do grave ferimento, o policial não corre risco de morte. 

* Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: comunidades, execução, guerra, morte, pacificação, tráfico, upp

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