Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Rio

Caso DG revela a rotina de medo e tensão na comunidade do Pavão-Pavãozinho

Jornal do BrasilAna Luiza Albuquerque* e Cláudia Freitas

O amigo do dançarino Douglas Rafael, o DG, que relatou na Polícia Civil que estava recebendo ameaças de um policial da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Pavão-Pavãozinho, dias antes da morte de DG, conta que a situação de tensão continua na comunidade da zona sul do Rio de Janeiro. O bombeiro civil Paulo Henrique dos Santos, mais conhecido como Hulk, diz que depois das denúncias feitas por ele publicamente contra um dos PMs, tem sido hostilizado por policiais da UPP. 

"No fim de semana estava passando por uma das ruas da comunidade quando um grupo de policiais da UPP passou por mim e me xingaram. Até alguns moradores estão me chamando de maluco e são contra a minha atitude de denunciar as ameaças que eu e DG recebemos. Eu realmente estou com medo do que eles [policiais] podem fazer comigo", desabafa Paulo.

Segundo Paulo, no dia 19 de abril um policial o abordou de uma forma agressiva, afirmando que ele e Douglas deveriam estar presos, porque andavam sempre na companhia de bandidos e que também estavam na marginalidade. "Eu não entendi o motivo dele falar isso da gente. Eu ainda perguntei se era algo pessoal ou uma ameaça. Ele não respondeu. Depois do enterro do DG, esse policial não apareceu mais aqui. Sumiu", conta Paulo.

No mesmo dia, Paulo avisou o amigo DG sobre a abordagem do policial e segundo ele, Douglas afirmou que já estava sendo "perseguido" por esse mesmo PM. "Tanto eu quanto o Douglas sempre defendemos a comunidade das injustiças. Porque aqui quando um policial flagra uma pessoa fazendo uso de drogas, por exemplo, ao invés de educar e orientar, eles partem para a agressão física. Até trabalhador leva botinada deles [policiais]. Eu e o Douglas, quando a gente via uma cena dessas, chamava a atenção do policial, dizia que aquela não era a forma correta de abordar. Mas eles querem impor a ordem deles. Teve uma vez que eu disse que ia chamar a impressa e eles ficaram mais tranquilos. Até o baile funk que acontecia aqui na nossa quadra, que por sinal é muito bonita, os policiais não deixam mais acontecer, acabaram com a diversão da comunidade. Eu sempre organizava com o Douglas essas festas", contou o bombeiro civil, que afirmou ainda que nos últimos dias tem dormido na casa de amigos e em hotéis por medida de segurança.

Para Paulo, os moradores do Pavão-Pavãozinho estão com medo de contar o que presenciaram no dia 22 de abril, quando Douglas foi baleado. "Algumas pessoas viram a ação da polícia e sabem que o DG foi torturado e morto. Tem moradores afirmando com toda certeza que não houve nenhum tiroteio, mas uma execução. Viram o DG pulando o muro e um policial atrás dele, que pulou também em seguida. Eles [policiais] dispararam sim, contra o transformador e ainda acertaram um fio. A comunidade ficou a madrugada toda às escuras e só na manhã seguinte que a Light esteve aqui para normalizar o serviço. Assim como o Douglas sempre estava do lado da comunidade, as pessoas agora, mesmo que de uma forma anônima, deviam contar a verdade para a Polícia Civil, para que a Justiça seja feita pela morte dele", disse Paulo.      

Nesta segunda-feira (28/4), Paulo recebeu o apoio dos taxistas que moram na comunidade. Paulo contou que os taxistas vão iniciar essa semana a campanha "Hulk não pode morrer", como forma de pedir as autoridades policiais mais proteção para as testemunhas do caso DG. "Eles vão andar com uma fitinha verde amarrada nas antenas dos veículos", explicou o bombeiro. 

Douglas e Paulo, além de amigos inseparáveis, também dividiam o sonho de brilhar nas telinhas do cinema e da TV. No ano passado, DG e Paulo participaram da produção de um curta metragem chamado "Made in Brazil", dirigido por Wanderson Chan. Douglas fez o papel de protagonista e a trama conta a realidade dos jovens nas comunidades do Rio de Janeiro, traçando uma relação com a Copa do Mundo. Na ficção, Douglas é morto por policiais militares na comunidade onde mora. As cenas foram gravadas no Pavão-Pavãozinho e na Baixada Fluminense. Douglas também recebe no curta o mesmo apelido da vida real: DG. 

"Quando resolvemos fazer esse filme, a gente queria mostrar a verdade sobre as comunidades pacificadas e também tinha o sonho de ganhar uma premiação no exterior. E quem sabe a oportunidade de participar de um Tropa de Elite 3", conta Paulo, que ainda espera viajar com o filme e divulgar o trabalho dele e de Douglas fora do Brasil.

Morador relata abordagem violenta um dia antes da morte de DG

Um outro morador da comunidade do Pavão-Pavãozinho está vivendo o mesmo drama de Paulo Henrique dos Santos, com uma rotina de medo e insegurança. O DJ Bruno Henriques, de 27 anos, conta que foi abordado de forma violenta pelos policiais da UPP da região, um dia antes da morte de Douglas Rafael. Segundo ele, a revista aconteceu quando estava descendo uma das vielas da favela, na madrugada de segunda-feira (21/4) e depois do episódio, passou a temer uma nova represália dos PMs.  

"Um deles [policial militar da UPP] pediu para o meu irmão levantar a camisa e depois para mim. Foi muito agressivo, ele ficou falando 'Vambora, levanta a camisa senão eu vou te matar!'. Eu disse que não precisava disso e aí ele atirou com uma pistola sobre o meu ouvido. Fomos revistados, eles desceram e atiraram com um fuzil três vezes para o alto. Consegui achar uma cápsula de bala de fuzil e meu irmão achou uma cápsula de pistola. Descemos para perguntar por que eles fizeram aquilo, mas não os encontramos", conta Bruno.

Após o fato, Bruno procurou a sede da UPP, no Cantagalo, onde encontrou quatro policiais que informaram que não tinha ninguém naquele momento responsável pelo atendimento. Com isso, Bruno disse que procurou a 13ª DP (Ipanema) para fazer o registro de ocorrência. "Eu estou com medo e vou continuar com medo de andar pela comunidade e receber alguma ameaça. Acho que é normal esse tipo de comportamento agressivo da polícia no Pavão, porque os moradores têm medo de denunciar. Na minha opinião a UPP é uma verdadeira maquiagem, dentro da comunidade não funciona nada. Entra um efetivo da polícia, que acaba conhecendo quem é quem. Aí de seis em seis meses entra outro efetivo. Nesse troca-troca, eles já abordam de outra forma, agem com violência. Não são todos, mas alguns são bastante agressivos", conta Bruno. 

Na opinião do DJ, a polícia teve participação na morte de Douglas Rafael e o desfecho poderia ser ainda pior. "Eu conhecia o Douglas e na minha opinião a polícia foi responsável pelo seu assassinato sim. Poderia ter acontecido que nem o Amarildo, darem um sumiço no corpo dele, mas não aconteceu", afirmou Bruno. Um caminho que Bruno encontrou para se sentir mais seguro na própria comunidade foi aderindo às campanhas contra violência policiais nas áreas pacificadas. Ele entrou na semana passada na lista do manifesto "Panela de Pressão", promovido pela ONG Meu Rio. O documento é assinado pelos cidadãos através das redes sociais e enviado pela própria ONG à Chefia da Polícia Civil e à Secretaria de Segurança Pública, para cobrar das autoridades policiais providências imediatas para a violência nessas regiões e em todo o Rio.

* Do programa de estágio do Jornal do Brasil

Tags: comunidades, dançarino, douglas, pavão-pavãozinho, upp

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