Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Rio

Niterói sofre com abandono e crescimento da criminalidade

Para especialistas e moradores, Rio é privilegiado pelo estado, que esquece cidades vizinhas

Jornal do BrasilGisele Motta *

Depois de um feriado tenso, em Niterói, a população da cidade, mais do que nunca, reclama da violência. Para sociólogo e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Eleonaldo Julião, a cidade de Niterói sofre, assim como outros municípios fluminenses, de abandono do poder público em prol do Rio de Janeiro, hoje centro das atenções por vir a sediar os mega-eventos esportivos: Copa do Mundo e Olimpíadas. Para ele, o perceptível aumento da criminalidade em Niteroi se relaciona também,  com uma migração de criminosos do Rio de Janeiro, que fogem das comunidades com Unidades de Polícia Pacificadora (UPPS), que por sua vez, não cumprem o papel que prometem que seria o de levar, além de policiamento dentro da favela, outras políticas públicas básicas: educação, segurança cidadã, saneamento, coleta de lixo, etc. 

>> UPPs: a paz para inglês ver

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Moradores denunciam a falta de policiais
Moradores denunciam a falta de policiais

Segundo relatório do Instituto de Segurança Pública (ISP), publicado no final de 2013, em comparação com 2012, entre os 20 diferentes tipos de registro de crimes, 17 sofreram aumento na cidade de Niterói, no acumulado janeiro-dezembro. As duas principais reclamações dos moradores batem com as estatísticas. "Eu já sofri tentativas de assalto, mas conheço várias pessoas que já foram assaltadas. O que a gente ouve falar é principalmente de assalto a carros e assalto a mão armada, mas também homicídios", diz Filipe Tadashi, estudante de Ciências da Matemática e da Terra da UFRJ, que mora na Rua Ernani de Melo, no Ingá, conhecida como "a rua do perdeu". Segundo o relatório, em relação ao número de roubo a transeunte, os registros aumentaram de 7.279 para 8.765, um aumento de 1.347 casos. Roubo a veículo passou de 2.993 registros para 4.340, um aumento  de 1486 casos. Homicídio e tentativa de homicídio também aumentaram. Passaram respectivamente de 407 para 536, aumento de 129 casos e de 380 para 440, aumento de 60 casos. 

Aracely Vianna, também estudante da UFF, aponta a universidade em si relacionada a esse problema. "O centro de Niterói gira muito em torno da UFF. Quando não tem aula na UFF, a cidade fica deserta", comenta ela, que já foi assaltada por dois menores na região, próximo ao Carnaval, quando a cidade estava vazia. 

A página do facebook Spotted: Icaraí, começou como um lugar onde jovens tentam encontrar outros jovens de Icaraí. Porém, se tornou também um canal de denúncias e avisos. "A página surgiu para uma coisa completamente diferente, mas acaba que surge muita mensagem de utilidade publica tipo onde está tendo tiroteio: aí as pessoas avisam se é um boato ou não e dão mais informações", explica um moderador da página, que pediu para não ser identificado. "Hoje em dia, pelo atual de estado de Niterói, isso se tornou cada vez mais comum". O moderador mora em Niterói desde 2005 e já teve sua casa invadida, na região oceânica, e foi assaltado no centro. "Acho que tudo piorou com o atual governo do estado, e especialmente depois das UPPs. Os bandidos correram direto para Niterói", comenta, fazendo coro com outros moradores. 

Moradores dizem que Niterói foi deixada de lado em prol do Rio, que sediará eventos
Moradores dizem que Niterói foi deixada de lado em prol do Rio, que sediará eventos

Para Eleonaldo, esse aumento de criminalidade na cidade de Niterói tem sim relação com as UPPs, e não é isolado. Ele acontece em diversas cidades do estado do Rio de Janeiro, por razões interligadas: "As UPPs têm relação com essa violência nas cidades vizinhas porque faz com que os criminosos tenham que migrar para evitar conflito". Para ele, o Rio de Janeiro vem sendo privilegiado por seu papel como cidade sede de eventos. "O Rio de Janeiro é o centro do mundo hoje, então é importante que o Niterói coloque essas questões de segurança para que se veja o que está acontecendo. É uma séria de políticas implementadas tendo como base o município do Rio e não o estado", comenta. 

Ele relembra que durante a Jornada Mundial da Juventude, em 2013, por exemplo, primeiro grande evento que o Rio de Janeiro recebeu, diversos policiais de Niterói foram direcionados para o Rio. "Muitas notícias diziam como esse policiais não retornaram à força de Niterói. A divisão das forças não é feita de forma proporcional. Não é só Niterói. Angra dos Reis, por exemplo, é uma das regiões onde têm aumentado a violência, assim como a Baixada Fluminense como um todo", completa. 

A desproporção entre os investimentos no Rio de Janeiro e em Niterói é percebida, há anos, pelos moradores. Para o presidente da Federação das Associações de Moradores de Niterói, Fabiano Maia, o sentimento de insegurança é geral e se deve muito a falta de policiais nas ruas. "A gente sempre tenta dialogar com a prefeitura, Secretaria de Segurança. A policia ficou muito no combate das UPPs. A gente entende que é um problema que deveria ser enfrentado no Rio. Até pelo tamanho, a gente reconhece que a cidade do Rio tem muito mais áreas de conflito, mas precisamos de policiamento aqui também", comenta. 

Segundo Maia, o problema se agravou em 2009, quase junto com o começo das implementações da UPP, em 2010, quando a Batalhão de Polícia Rodoviária Coronel Marcos Fázio Corrêa (BPRv), sediado em Niterói, assumiu o controle das áreas anteriormente sob responsabilidade do Batalhão de Policiamento de Vias Especiais, em 2009. "Quando isso aconteceu, pelo menos 250 policiais saíram de Niterói para policiar vias. Isso há cinco anos, quando a cidade já tinha um índice crescente de criminalidade. Foi aí que o cidadão de Niterói começou a sentir esse aumento da violência de verdade", comenta. A Polícia Militar foi contactada pela reportagem do JB, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem. 

Para conter a criminalidade em Niterói, na região metropolitana do Rio, a cúpula de segurança do estado anunciou medidas que incluem reforço do efetivo policial na cidade. No último fim de semana, houve um protesto contra operações policiais na favela do Caramujo. Os manifestantes incendiaram ônibus e carros. Dois jovens morreram na favela durante o feriado do fim de semana. Um foi baleado durante um tiroteio, quando voltava da vigília de Sexta-Feira Santa e outro bateu de moto no carro blindado da Polícia Militar.

Protestos contra operação da Favela do Caramujo, em Niterói
Protestos contra operação da Favela do Caramujo, em Niterói

De acordo com o secretário Estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, Niterói vai receber uma nova companhia de policiamento no bairro do Fonseca e uma reestruturação na companhia do Morro do Cavalão, em Icaraí. Mais 100 policiais militares devem ser enviados à cidade a partir desta quinta-feira, e operações das polícias civil e militar serão realizadas nos próximos dias. Em 10 dias, será feita uma avaliação dos resultados, e o governo não descarta pedir ajuda a tropas federais.

UPPS: problema dentro da solução

Para Ignácio Cano, especialista em  segurança pública do Laboratório da Uerj de Análise da Violência, a migração dos criminosos das UPPS não é o único motivo para o aumento da violência no estado do Rio. "A questão da UPP é sempre relembrada, mas não é só isso. Se não o aumento teria que ser maior antes, em 2011, logo depois que elas foram implementadas. Não é só as áreas em volta da cidade, mas a cidade em si, também viu aumentou a violência. Sempre há algum aumento por causa da migração dos criminosos, mas problema fundamental é que as politicas bem sucedidas nunca foram avaliadas. Elas foram deixadas no piloto automático", diz ele, referindo-se tanto as UPPS, quando ao sistema de metas policiais e premiações, que surgiram como estratégias para lidar com a criminalidade. "A primeira coisa a se fazer é avaliar essas políticas, fazer ajustes, que nunca foram feitos", completa. 

Para Eleonaldo, da UFF, a ocupação policial não era o objetivo e nem é suficiente "O simples fato da entrada dos policiais não é o suficiente. A política da UPP, na teoria, apresenta uma 'segurança cidadã', que não existe, que está se restringindo a entrada de policiais", explica. "Uma das questões que se tentou mostrar durante a ocupação da Vila Kennedy, por exemplo, era uma serie de ações, como a Comlurb limpando as ruas. Uma série de ações que estariam sendo organizadas junto com as UPPS, mas essas ações não estão se efetivando. E o que vai acontecer, é que as comunidades começam a ir contra isso, porque ela começa a se sentir lesada pelo que é a proposta e pelo que realmente acontece", completa.

 * Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil

 *Com informações da Agência Brasil

Tags: Favelas, isp, maré, Niterói, Rio de Janeiro, upp, violência

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