Jornal do Brasil

Sábado, 1 de Novembro de 2014

Rio

Revolta no enterro de Douglas: “Querem conferir o que fizeram? Meu filho morreu”

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

Após um longo e emocionado velório, o corpo de Douglas Ferreira foi sepultado nesta quinta-feira (24), no Cemitério São João Bastista, em Botafogo. Emocionados, amigos e parentes do dançarino cantaram enquanto erguiam o caixão acima da multidão. Após rezarem a oração do Pai Nosso, repertórios do Bonde da Madrugada, do programa Esquenta, funks sobre a violência na favela e canções religiosas foram cantados para homenagear Douglas. Sob forte chuva, o caixão foi acompanhado por uma multidão e, depois, encaixado em uma das gavetas. A dor, agora, dá lugar à revolta e ao desejo de justiça.

O velório do dançarino começou no fim da tarde desta quarta-feira (23) e terminou às 15h de hoje. No começo da tarde, uma manifestação pacífica saiu da comunidade do Pavão-Pavãozinho até o cemitério. Revoltados, amigos de Douglas pediam o fim da UPP: “Fora, UPP! Matou o Amarildo e o DG”. Reunidos em frente ao Cemitério, os manifestantes gritavam “chega de chacina! Polícia assassina”, enquanto viaturas cercavam o local com dezenas de policiais. A presença da polícia incomodou os enlutados, que provocavam: “Sem hipocrisia: essa polícia mata pobre todo dia”.

Diante da revolta pela morte de Douglas, o presidente do movimento O Rio pela Paz pediu para que as “punições sejam exemplares”. Rommel Cardozo também declarou que “a violência brutal, seja de manifestantes ou da Polícia, deve ser coibida a todo custo” e completou: “é hora de equilibrar a balança e governar para o povo, sem distinção de classe alta, média ou baixa. O governo é para todos nós, ricos ou pobres, assim como a lei tem que ser”.

Em 2013, Douglas participou do documentário “Made in Brazil”, dirigido por Wanderson Chan. No curta, ele interpreta um morador da comunidade Pavão-Pavãzinho que é assassinado por policiais militares. A cena acontece no alto do morro, na mesma rua em que, anteontem, seu corpo foi encontrado. Atualmente, Douglas não morava mais na favela, mas, segundo os amigos, costumava passar mais tempo lá do que em casa. A ex-mulher e a filha de Douglas ainda moram na comunidade

Presença de policiais

Contrariada com a presença da polícia nas proximidades do Cemitério, a mãe de Douglas, Maria de Fátima, contestou: “Por que tem tantos policiais aqui? Eu não convidei ninguém, eu não quero polícia aqui. A comunidade já está cansada, eu já estou cansada. Não tem traficante aqui. Querem conferir o que fizeram? Meu filho morreu!”.

O advogado, Rodrigo Mondego, que acompanha a família do dançarino também reprovou a presença dos policiais. “Foi uma manifestação fúnebre e pacífica que veio em direção ao cemitério. Desnecessário essa quantidade de policiais aqui resguardando um velório, um enterro”, questionou. Exaltados, amigos do cantor pediam para que a polícia se retirasse do local. “Aqui não tem traficante, os assassinos são vocês”, gritava um grupo.

Investigações

Embora a causa da morte do dançarino já tenha sido confirmada, a família de Douglas aguarda o laudo oficial do IML, que deverá sair em 30 dias. O advogado que acompanha o caso disse que, até o momento, não há dúvidas que Douglas morreu vítima de um disparo de arma de fogo, que entrou pelas costas e saiu pelo ombro. Em um primeiro momento, a Polícia Militar chegou a afirmar que a morte do rapaz teria sido decorrência de uma queda, que teria acontecido quando DG pulou o muro de uma creche para se esconder do tiroteio.

Durante o velório do dançarino, Mondego comentou as investigações. “A gente está assessorando a família nesse primeiro momento. Há indícios de houve grave violação dos direitos humanos. A mãe do Douglas, que é técnica de enfermagem, afirmou que o corpo dele havia muitas marcas de agressões e que o lábio estava escuro, o que pode ser um indício de que ele foi torturado por meio de afogamento ou sufocamento. Existem vários indícios e fatos que precisam ser esclarecidos. Nós estamos acompanhando tudo para que a justiça seja feita”, disse. A PM nega a acusação, alegando que as escoriações são decorrentes da queda do muro. Sobre a água, que molhou os documentos de Douglas, e que poderia indicar o afogamento citado pelo advogado, a PM acredita que DG possa ter passado por algum lugar molhado ou até mesmo se urinado. A Polícia Civil, contudo, disse que seguirá com as investigações para esclarecer esse e outros pontos.

Sobre os boatos de um possível envolvimento de Douglas com traficantes, o tio do rapaz, Alexandre Vieira, defendeu o sobrinho morto. “Cabe a quem acusar, provar. Tudo que estamos falando sobre ele aqui, nós temos testemunhas para provar. Cabe a outra parte, apresentar as suas testemunhas”. Alexandre também falou sobre a “índole maravilhosa” do rapaz: “Com ele não tinha essa de celebridade. O Douglas brigava pelos direitos dos outros. Ele sabia fazer da presença dele, algo especial”.

Abalada, a mãe de Douglas negou que o filho tivesse envolvimento com o tráfico. Ela declarou que não iria “deixar que manchem a imagem dele”. Fátima também lamentou a morte do filho e prometeu lugar pela justiça até que tudo seja esclarecido. “Ele era uma pessoa linda, maravilhosa, com sorriso cativante. Foi uma perda enorme para todo mundo. A Polícia Pacificadora é uma mentira. Ela não salva, ela mata, ela maltrata. A comunidade virou labirinto”, disse.

Revolta

Morador da comunidade do Cantagalo, Leandro Augusto era amigo de Douglas. Ele acompanhou a manifestação e se disse “absolutamente revoltado” com a morte de DG. Segundo Leandro, “as comunidades de Tabajaras, Pavão, Pavãzinho, Cantagalo, Babilônia e Chapéu Mangueira estão unidas por conta dessa injustiça, querendo justiça”. O amigo de Douglas comparou as UPPs às ditaduras e criticou: “O que houve na favela foi uma inversão: os traficantes antes andavam armados, hoje os policiais andam armados até os dentes. Apontam armas para a criança e para o morador. Às vezes o morador fica assustado e corre e, ao invés de averiguar, o policial primeiro atira para depois perguntar. Foi isso que aconteceu com o DG”. Leandro também criticou a atuação dos PMs nas favelas. Para ele “existe excesso, abuso de autoridade e despreparo. O governo fez um projeto com uma amplitude tão grande e não consegue preparar os policiais com o título que têm: Unidade de Polícia Pacificadora. Na verdade, a UPP traz a guerra, o terror e apavora o morador”.

Amigos há mais de 15 anos, os dançarinos do Bonde da Madrugada também estiveram no velório. O grupo existe há 10 anos e, atualmente, se apresenta no programa “Esquenta”. Charles de Souza, um dos integrantes, disse que ainda não sabe qual será o futuro do grupo, que foi idealizado por DG. “Agora é o momento de lembrar dele de uma forma carinhosa,  mas a verdade é que a gente está triste. Estou sem palavras. Não estamos acreditando realmente que ele não está mais aqui. É impossível esquecer o sorriso marcante dele. A gente quer a verdade, quer saber como aconteceu isso. Tiraram um irmão da gente. A ferida está aberta e não vai cicatrizar. O grupo está sem uma perna e não está conseguindo absorver isso. Esse vazio não vai ter como preencher”.

A apresentadora Regina Casé também compareceu ao Cemitério São João Batista. Ela cumprimentou a família do dançarino e se reuniu com o elenco do Programa. Emocionada, Regina declarou: “Não me interessa quem ele fosse, mesmo se eu não o conhecesse e visse os noticiários de ontem, eu ficaria chocada de qualquer maneira. O DG era um cara alegre, criativo e um trabalhador incansável. O tempo todo inventando coisas lindas, empurrando os outros meninos para frente. Ele não era mais um, ele era importantíssimo”.

Famosa pelos comentários ácidos que faz nos programas, Luane Dias desmontou a personagem para homenagear o amigo. Bastante abalada ela disse que se sente “impotente” por ter que esperar o julgamento para que a justiça seja feita. Sobre o amigo, ela foi sucinta: “Vai ser sempre um espaço vazio, mesmo que coloquem outra pessoa no lugar. Não vai ter ninguém para ocupar o lugar dele porque ele era único, ele era maravilhoso”.

A deficiente visual Nathália Rodrigues também dividia o palco do Esquenta com o dançarino. Ela lembrou o último contato que teve com Douglas: “a última vez que a gente esteve junto, ele me deu um abraço longo... parecia que estava se despedindo. Recentemente a equipe viajou e ele era o mais animado. A lembrança que a gente vai guardar dele é o sorriso, a alegria, gentileza. Ele tinha o sonho de crescer na vida e tiraram isso dele.”

Tags: bonde da madrugada, dg, douglas, esquenta, luane, morte, regina casé

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