Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Rio

Caso Douglas: "Foi a gota d'água", diz especialista em segurança pública

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

Após uma madrugada de tensão e confrontos, moradores da comunidade Pavão-Pavãozinho aguardam o fim das investigações sobre a morte do dançarino Douglas Pereira, o DG. O caso está sendo investigado em dois processos paralelos, na Corregedoria da Polícia Militar e também na 13ª Delegacia de Polícia (Copacabana). Policiais já estão sendo ouvidos. A mãe do jovem prestou um longo depoimento na tarde desta quarta-feira (23). As armas dos PMs que trocaram tiros com bandidos horas antes da morte do jovem também foram recolhidas para perícia. Os moradores passaram a madrugada inteira sem luz e a situação foi estabilizada durante apenas durante a tarde.

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Segundo laudo do Instituto Médico Legal (IML) a causa da morte de Douglas foi uma “hemorragia interna decorrente de laceração pulmonar decorrente de ferimento transfixante do tórax, ação perfuro-contundente”. Embora o documento não detalhe que objeto teria perfurado o pulmão do dançarino, criminalistas afirmam que “ação perfuro-contundente” é a expressão usada denominar a morte causada por arma de fogo. A justiça aguarda laudos e outras peças do inquérito para seguir com as investigações. O prazo estimado é de 20 a 30 dias.

Maria de Fátima lamenta a morte do filho e acredita em tortura policial
Maria de Fátima lamenta a morte do filho e acredita em tortura policial

Durante o depoimento que prestou hoje, a mãe de Douglas, Maria de Fátima, disse que recebeu denúncias de moradores da comunidade. Em entrevista à Agência Brasil, ela disse: “Tenho certeza absoluta de que ele foi torturado. Ele estava muito machucado. Alguma coisa perfurou ele no tórax e isso causou uma hemorragia interna. Tinha muita marca de bota”.

Para Ignácio Cano, especialista em segurança pública do Laboratório de Análise da Violência (UERJ), os confrontos da noite de ontem foram o ápice de um histórico de tensões entre policiais e moradores. “A reação da população mostra que há uma relação ruim entre as partes. O futuro depende da postura da corporação e do rumo das investigações. Se for determinado que a polícia matou o rapaz, haverá uma questão absolutamente difícil de se lidar, com muita revolta por parte da população. Já se for acusado que os policiais são inocentes, tudo dependerá da postura da corporação dentro da favela. Houve tiroteios, mortes e essa reação da comunidade não é só pela morte do rapaz. Foi a gota d’água”, analisa.

O presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, Wadih Damous, também comentou o protesto. "As UPPs têm reproduzido o modelo tradicional da segurança pública: violência contra os moradores. Por isso, não ganham corações e mentes nas favelas do Rio, pois viraram força de ocupação. Não era com esse tipo de atitude que elas foram anunciadas, anos atrás. O problema é que a PM enxerga os moradores dessas áreas como inimigos. Odeia pobres, embora os seus efetivos sejam recrutados entre eles. A "invasão social" nunca saiu do papel. Os policiais expulsam os pobres sem moradia de latifúndios urbanos abandonados e não os protegem de seus algozes, traficantes armados. Só pode dar no que deu no Pavão-Pavãozinho", disse.

Douglas Pereira será enterrado amanhã
Douglas Pereira será enterrado amanhã

Segundo o advogado que acompanha a família de Douglas, Rodrigo Mondego, a família do dançarino contou que ele reclamava da insistência de alguns policias em aborda-lo quando ele estava de moto. Ainda segundo Rodrigo, uma vez o motor da moto apareceu com areia e, em outra ocasião, a moto desapareceu. De acordo com o advogado, o dançarino costuma enfrentar os policias nessas abordagens, mas não procurou a moto com medo de represálias à sua família. Além de ser dançarino e assistente de palco do programa “Esquenta!”, apresentado por Regina Casé, Douglas era mototaxista.

O Jornal do Brasil entrou em contato com a UPP Pavão-Pavãzinho para pedir um pronunciamento sobre o caso. Contudo, foi informado que não havia ninguém autorizado para comentá-lo. Em nota, o governador Pezão determinou “empenho total na investigação da morte do dançarino” e afirmou que “aguarda resultado para tomar medidas cabíveis”. O corpo de Douglas foi embalsamado e será velado na Capela 7 do Cemitério São João Batista. O enterro acontecerá amanhã, às 17h.

Secretário de Segurança diz que "movimento foi arquitetado pelo tráfico"

O secretário de Estado de Segurança, José Mariano Beltrame, disse em uma entrevista coletiva na noite desta quarta-feira (23) que está acompanhando as investigações da Divisão de Homicídio da Polícia Civil da morte do dançarino Douglas Pereira. Beltrame afirmou que informações do Serviço de Inteligência revelaram que movimentações violentas em diversas comunidades estão sendo arquitetadas pelo tráfico de drogas e, especialmente, para banalizar a atuação da polícia.  O secretário confirmou ainda que o laudo sobre a morte de Douglas relata perfuração de arma de fogo na vítima e que esse foi o motivo da morte do rapaz. 

Beltrame disse que não descarta qualquer linha de investigação e que vai aguardar os resultados da perícia técnica para tomar qualquer decisão. Segundo ele 'somente testes poderão afirmar se o tiro partiu de armas de policiais'. O secretário também evitou qualquer tipo de julgamento sobre a postura dos policiais durante a ação que terminou na morte de DG. 

Segundo Beltrame, confirmou que houve um confronto entre policiais e marginais na madrugada de terça (22) no Pavão-Pavãozinho. Ele contou que os policiais da UPP receberam uma denúncia anônima de que o traficante Pitbull, libertado da prisão há 4 meses, estava acompanhado de um grupo na quinta estação do Teleférico, no alto do morro. Cerca de 10 policiais foram apurar a informação, mas foram surpreendidos na segunda estação, quando cerca de 6 homens fortemente armados entraram em confronto com os PMs, usando bombas caseiras. De acordo com Beltrame, houve um tiroteio e os policiais deixaram o local. 

>> Moradores reclamam de violência de PMs em abordagem no Pavão-Pavãozinho

O Jornal do Brasil vem recebendo denuncias anônimas de moradores da comunidade do Pavão-Pavãzinho desde o início desse ano. Os relatos são de confrontos e violência entre policiais da UPP e traficantes que atuam na região, especialmente nas proximidades das estações do Teleférico. 

* Do Projeto de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: dg, esquenta, investigação, morte, regina casé

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