Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Rio

Violência e incêndios em reintegração de posse de imóvel no Engenho Novo

Ação de desapropriação de terreno ocupado gerou confronto entre polícia e moradores 

Jornal do BrasilRafael Gonzaga

De acordo com a polícia, 25 pessoas foram detidas na confusão que marcou a reintegração de posse do terreno da Oi que teve início por volta das 4h45 desta sexta-feira (11/4) no Engenho Novo, zona norte do Rio de Janeiro. A Polícia Militar declarou que o policiamento vai ser reforçado nos próximos dias para que os moradores desalojados não retornem ao terreno. A propriedade estava inutilizada há mais de dez anos.

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O governo do Estado informou em nota que a desocupação foi iniciada com respaldo legal, cumprindo uma decisão judicial expedida no último dia 4 pela juíza da 6ª Vara Cível da Comarca Regional do Méier, Maria Aparecida Silveira de Abreu, que deferiu liminar para reintegração de posse do imóvel localizado na Rua Dois de Maio, no Engenho Novo. Foram mobilizados cerca de 1.600 policiais do 3º BPM (Méier), do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Batalhão de Choque (BPChq) para o processo de remoção dos ocupantes do terreno.

O local, que já estava sendo chamado de Favelinha da Telerj, estava sendo ocupado desde o dia 31 de março. Segundo a polícia, o local contava com 2.400 pessoas, mas de acordo com estimativas dos próprios moradores já viviam ali cerca de 6 mil pessoas. Os ocupantes já estavam criando ligações clandestinas de energia elétrica e buscando água em cisternas. A maioria dos ocupantes justificou a ocupação como uma fuga da alta dos aluguéis.

A desocupação começou pacífica: os policiais anunciaram em um megafone que os habitantes desalojados seriam encaminhados para abrigos da prefeitura. Moradores se reuniram atrás de um cordão de isolamento e começaram a efetuar a saída do imóvel sem reagir.

Pouco após 6h30, quando uma retroescavadeira da polícia começava a derrubar os barracos construídos no local, os moradores ofereceram resistência incendiando pedaços de madeira e o clima ficou tenso na região. Uma das lideranças dos manifestantes foi presa e o confronto entre a polícia e os manifestantes cresceu. Policiais utilizaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral para dispersar o grupo, que ergueu barricadas. Algumas pessoas atiraram pedras nos policiais.

Duas agências bancárias foram depredadas. Um Centro Integrado de Educação Pública (Ciep), localizado na Rua Álvares de Azevedo também foi atingido por pedradas.

Incêndios

Por volta das 7h20 da manhã teve início um grande incêndio no último andar do prédio principal do terreno, dando origem a uma extensa coluna de fumaça. Alguns minutos depois, um carro da Polícia Militar e dois ônibus também foram incendiados nos confrontos. Mais tarde, um caminhão também foi incendiado. A Rio Ônibus disse em nota que quatro coletivos foram incendiados no total e outros 11 foram depredados. Os registros de veículos queimados foram feitos na 25ª DP (Engenho Novo) e na 24ª DP (Piedade). No começo da tarde, dois outros focos de incêndio também surgiram.

Cerca de 80 homens do Corpo de Bombeiros estavam em atividade no combate dos focos de incêndio durante o confronto.

Trânsito e comércio

Várias vias do Engenho Novo foram interditadas e motoristas precisaram seguir por desvios, de acordo com o Centro de Operações da Prefeitura. As principais ruas do entorno do terreno, Dois de Maio e Sousa Barros, onde há inclusive uma Unidade de Pronto Atendimento (Upa 24h), foram interditadas. As ruas Baronesa do Engenho Novo, a Bernardo Nunes e a Brandelina Batalha também foram fechadas na operação. O fechamento das ruas causou lentidão no trânsito em ruas como a Avenida Marechal Rondom.

Todas as atividades do comércio no entorno do terreno foram encerradas.

Feridos

Durante o confronto, 13 pessoas precisaram de ajuda médica, entre elas três menores: uma jovem de 13 anos e uma criança de nove que foram encaminhados ao Hospital Salgado Filho, no Méier, além de um bebê de seis meses.

Nove policiais também se feriram no confronto. Três foram encaminhados também para o Hospital Salgado Filho e os outros seis foram para o Hospital Central da Polícia Militar, no Estácio.

Moradores denunciaram truculência policial e chegaram a falar na morte de três crianças, mas a polícia não confirma as informações. Alguns moradores acusam a polícia de já ter entrado no terreno atirando balas de borracha e cápsulas de arma de fogo também foram encontradas.

Apreensões

De acordo com informações da 25ª DP (Engenho Novo), um manifestante foi preso por dano ao patrimônio e lesão corporal após, segundo a polícia, ele depredar um ônibus e agredir o motorista. Outros dois foram presos em flagrante por furto qualificado ao saquearem um supermercado e a outras 21 pessoas estão sendo investigadas nesse caso.

Mais duas apreensões por desacato e resistência foram feitas na 23ª DP (Méier) e na 26ª DP (Todos os Santos).

Agressões à imprensa

Jornalistas que cobriam a ação também sofreram ataques. Três veículos de emissoras de televisão (TV Globo, SBT e Record) foram depredados. O repórter Bruno Amorim, do jornal O Globo, foi detido por policiais após realizar filmagens com um aparelho celular. Segundo o jornalista, um policial o deteve com uma chave de braço e atirou o celular no chão. Outros repórteres e fotógrafos que participam da cobertura relataram agressões físicas e verbais por parte dos policiais.

Eduardo Paes

Na parte da manhã, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) teria, segundo a assessoria do político, cancelado a sua agenda e convocado uma reunião interna no gabinete da prefeitura. O prefeito estava programando participar da inauguração de um Centro de Atenção Psicossocial em Bonsucesso, voltado para o atendimento da população do Complexo da Maré, ocupado recentemente por forças de segurança.

Nota Rio pela Paz

O presidente do movimento Rio pela Paz, Rommel Cardozo disse não acreditar na invasão de prédios comerciais como caminho para resolução de problemas habitacionais.

"Nada contra quem está se manifestando, mas todos nós temos problemas, todos nós temos uma reivindicação social, e nem por isso saímos invadindo prédios, ateando fogo em ônibus e gerando o caos na cidade, impedindo os cidadãos de trabalhar", afirmou Rommel Cardozo.

* Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: confronto, engenho novo, Incêndio, Rio de Janeiro, violência

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