Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Rio

"O prefeito quer enganar a gente", diz moradora da Maré

Paes se reuniu com presidentes das associações de moradores do Complexo da Maré e fez promessas

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

De portas fechadas para a imprensa, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, se reuniu nesta quarta-feira com representantes do Complexo da Maré. Paes analisou a ocupação da favela e fez promessas de melhorar os serviços prestados pela Prefeitura. Durante a reunião, ele discutiu com uma moradora, que se retirou da sala. Janaína Monteiro, presidente da Associação de Moradores da Vila Pinheiro, disparou: “O prefeito quer enganar a gente”. A Prefeitura ainda não se manifestou para negar ou confirmar o comentário de Paes.

Segundo Janaína, durante o encontro, que aconteceu no Colégio Municipal Bahia, Paes fez uma declaração que gerou revolta. “Ele disse que ninguém vira bandido porque o poder público não está presente, vira porque quer. A verdade não é bem essa. Foram anos de descaso total com os moradores da Maré, anos deixando a gente sem a assistência necessária. Precisa de projeto social para as nossas crianças e adolescentes. Eles precisam ver que existe outro caminho na vida”. Perguntada sobre o tema da reunião, Janaína disse: “Ele está lá dentro, prometendo aquele monte de coisa que ele sempre promete. Eu não acredito nele, ou melhor, eu só acredito vendo”. Janaína alegou que começou a discutir com Paes, mas ele teria elevado a voz e ela preferiu se retirar para não se exceder.

Janaína também narrou um episódio de violência que viveu há duas semanas. Segundo ela, policiais entraram em sua residência, quando ela não estava, e quebraram diversos objetos. Ela conta que viu quando o grupo saiu de seu apartamento, mas que preferiu não enfrentá-los. “Eles quebraram tudo, até o estojinho que meu filho usa pra ir para a escola. Não sei por que fizeram isso, mas sabe como é: a gente fala muito”, disse.

Após a reunião com as associações de moradores, Paes deu uma coletiva de imprensa. Ele disse que, desde 2011, vem conversando com os presidentes e afirmou que a Prefeitura tem “uma presença muito forte” na comunidade. Segundo Paes, a Maré tem trinta escolas municipais, nove unidades de saúde, coleta diária de lixo, ruas urbanizadas e iluminação pública. “Agora vamos buscar qualificar esse serviço. As unidades são ruins e faltam três clínicas na família aqui. Outra discussão é em relação ao trabalho da Comlurb. Já tem um coleta diária, mas estamos estudando maneiras de melhorar. Por exemplo, a quantidade de caminhões que entram na Maré para jogar entulho nas áreas públicas é um absurdo. Então tem que fiscalizar melhor isso”, declarou. Paes também comparou a coleta de lixo de um bairro da Zona Sul com a de um dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro: “O Leblon tem coleta três vezes por semana. A Maré só não tem coleta aos domingos, são seis por semana”.

Segundo Paes, a Prefeitura já licitou a construção de 19 novas unidades de ensino na comunidade, com o objetivo de oferecer escolas de ensino integral. A construção das três clínicas da família também já teriam sido licitadas.  “A gente deve começar essas obras dentro de um mês e entregar dentro de um ano, mas é preciso lembrar que a Maré já tem esses serviços”, disse. Porém, quando perguntado sobre os benefícios da pacificação, o próprio prefeito admitiu que “a Maré tem muito serviço, mas a qualidade é baixa. A gente vai melhorar e a pacificação ajuda muito nisso”. O prefeito prometeu também fazer o Bairro Maravilha para melhorar a infra estrutura urbana, mas ressaltou: “Bairro Maravilha não é para pessoas que vivem em condições que não devem permanecer. Baixo de viaduto não é para ninguém. É um projeto de urbanização das áreas públicas dessas comunidades”.

Charles Guimarães, presidente da Associação de Moradores da Baixa do Sapateiro, comentou as promessas feitas por Eduardo Paes. “A gente vem mantendo contato com as autoridades através da rede ‘Maré que queremos’. Espero que dessa vez saia alguma coisa. Eu acho que sai, a gente precisa acreditar. Mas ainda é muito cedo para falar em pacificação, ainda mais sendo ano eleitoral”, disse.

A esperança que as promessas feitas pelo Prefeito sejam cumpridas também é compartilhada por José Carlos Barbosa, presidente da Associação de Moradores do Parque da Maré. “O governador nos mostrou um plano de trabalho. O que nós mais esperamos com a ocupação são as ações sociais positivas. A gente espera que o Estado esteja presente, atendendo nossos idosos, crianças e jovens”, declarou. Sobre o clima de medo dentro da comunidade, José Carlos diz: “É uma coisa nova e ainda existe apreensão. Não vamos ver as mudanças agora, nesse momento. Estamos caminhando ainda. Em 10 ou 15 anos vamos sentir a diferença”.

* Do Projeto de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: eduardo paes, Favelas, maré, medo, moradores, ocupação, pacificação, Rio de Janeiro, upp

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