Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Rio

Atrasos comprometem mais uma vez despoluição da Baía de Guanabara

A dois anos das Olimpíadas, meta de 80% da baía despoluída está longe de ser cumprida

Jornal do BrasilGisele Motta * 

Uma das principais apostas do governo para a despoluição da Baía de Guanabara terá a inauguração mais uma vez adiada. A Unidade de Tratamento de Rios (UTR) do Rio Irajá, que foi primeiramente prometida para novembro de 2013, adiada para março de 2014, teve o prazo novamente transferido, agora para julho. A Baía de Guanabara será um dos principais locais de competição nas Olimpíadas de 2016 e a poluição nas suas águas já repercutiu até na equipe de vela da Alemanha. Eles publicaram um texto num blog intitulado "Bem-vindo à lixeira que é o Rio de Janeiro". Lá, postaram fotos do local e questionam: "Permanece a questão de como exatamente os organizadores dos Jogos de 2016 vão resolver esse problema. Não é apenas o lixo que já está na água: toneladas de esgoto continuam sendo levadas para as águas. Sem estações de tratamento, a situação não vai ficar melhor". 

O governo brasileiro prometeu ao Comitê Olímpico Internacional (COI) entregar a Baía de Guanabara 80% saneada para as competições de vela que vão acontecer no local, nas Olimpíadas de 2016, colocando esse ponto como um dos legados dos jogos. Porém, até agora, poucas melhoras foram observadas. O biólogo Mário Moscatelli, coordenador do Projeto Olho Verde, que monitora as áreas verdes da Região Metropolitana e do Litoral Sul do estado do Rio de Janeiro, acompanha os ecossistemas do estado há mais de dez anos, em voos de helicóptero. “Posso dizer que 60% da Baía de Guanabara está podre. Toda a parte do Rio de Janeiro, inclusive. A parte que não está completamente poluída é aquela no fundo da baia, a partir dos municípios de Itaboraí, Guapimirim e Magé, que têm uma baixa ocupação urbana. Mesmo essas áreas estão agora ameaçadas por causa do Comperj”, comenta o biólogo, mencionando o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro que, ao ser finalizado, deve atrair moradores para a área. 

Margens da Baía de Guanabara 
Margens da Baía de Guanabara 

Enquanto o governo aposta nas UTRs para melhorar a qualidade da água da Baía, o biólogo Moscatelli diz que só isso não basta: “A UTR é uma solução para curto prazo, são estações dentro do rio que bloqueiam esgoto e lixo. A médio e longo prazo, se não tiver política de habitação transporte e saneamento, não adianta”. 

Um evento teste de velas vai acontecer ainda em agosto deste ano. O Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos 2016 informou, através de sua assessoria de imprensa, que não há possibilidade de os jogos não acontecerem lá, nem dos testes. "O Governo faz um estudo de acompanhamento da água e temos condições para o evento acontecer. Para nós, é primordial a saúde dos atletas." A assessoria ainda acrescentou: "O legado é uma parte importante dos jogos, sem ele não faria sentido um país receber a competição. O governo se comprometeu e nós acreditamos que eles vão apresentar os resultados". A Confederação Brasileira de Vela confirmou que eventos acontecem na Marina da Glória regularmente. 

Manchas de esgoto na enseada de Botafogo
Manchas de esgoto na enseada de Botafogo

Para  Moscatelli, o risco existe: "A não ser que o lixo tenha cérebro e o COB [Comitê Olímpico Brasileiro] consiga dar aulas para que nem o lixo nem os coliformes fiquem na frente dos atletas, eles estarão correndo risco", satiriza o biólogo. "Se eles não forem vacinados contra Hepatite A, esse é um dos riscos. A Marina da Glória é esgoto puro. Se um atleta desses cai dentro da água com a boca aberta, você já sabe o que ele vai engolir", alerta. O biólogo ainda vê outros riscos. "Se esse atleta conseguir sair da competição sem se molhar, ele pode trombar com uma cama, com uma armação de televisão, um tudo de imagem e com o plástico de todo o tipo e acontecer algum acidente", completa. 

"O que eu acho é que esses compromissos feitos com o COI foram só um engodo. O que corremos o risco é fazer o puxadinho ambiental. Você, nas vésperas, coloca um barquinho para limpar a Baía. Ao em vez de evitar que o lixo chegue a baia, você vai catando o lixo", alerta Moscatelli. 

Foz dos rios Sarapui e Iguaçu, em Duque de Caxias
Foz dos rios Sarapui e Iguaçu, em Duque de Caxias

URTs

As UTRs funcionam como um dique e um filtro e são uma das doze ações que integram o Plano Guanabara Limpa. Segundo a Secretaria de Estado do Ambiente (SEA), a Rio Águas solicitou uma alteração nas obras da UTR do Rio Irajá, que estavam concluídas. Será necessário que a unidade sofra um “alteamento”, ou seja, fique mais alta para melhor escoamento da água. Das seis UTRs planejadas, somente esta está pronta. As outras (Rio Sarapuí e Rio Pavuna,em Duque de Caxias; Canal do Cunha e Canal do Mangue, no Rio; e a do Imboaçu, em São Gonçalo) não começaram a ser construídas. Todas estão esperando liberação de verba, exceto a do Rio Pavuna, que está em fase de detalhamento para a aquisição de equipamentos.

Outras 11 ações do governo estão relacionadas de alguma forma com a despoluição e revitalização da Baía, como o Projeto Sena Limpo, que visa despoluir seis das principais praias do Rio até 2014: Praia da Bica (na Ilha do Governador), Urca, Leme, Ipanema e Leblon (Zona Sul) e São Conrado (Zona Oeste); O Programa Lixão Zero, que busca o fim dos lixões no estado, transformando-os em aterros sanitários ou centrais de tratamento de resíduos (CTRs); ainda ecobarreiras em diversos pontos, e o mais significativo em termos de longo prazo e "legado": o Programa de Saneamento Ambiental (Psam), que prevê a aplicação de cerca de R$ 1,3 bilhão, até 2016, em obras de esgotamento sanitário e em projetos de saneamento nos 15 municípios do entorno da Baía de Guanabara.

Abaixo assinado

Um abaixo assinado foi formulado pela Ong My Green, que defende várias causas ambientais dentro da cidade do Rio de Janeiro e abraçou a Baía de Guanabara como mais uma delas. O presidente da ONG, Alfredo Pirafibe, diz que a petição busca fazer pressão no poder público e será anexada a uma denúncia ao Ministério Público, que está sendo formulada. Ela já tem quase três mil assinaturas e vai ficar cerca de um mês no ar, com expectativa de chegar a 30 mil. 

"Faremos essa denúncia porque queremos que se cumpra a lei. Já existe uma norma que diz que não se pode despejar esgoto sem tratamento no mar", comenta o presidente da ONG. "O outro ponto é pedir esclarecimento sobre os projetos, saber como o dinheiro está sendo aplicado. No Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), por exemplo, algumas estações de tratamento foram feitas e a rede de esgoto não chega até lá, como é a Estação de São Gonçalo" lembra Pirafibe. Ele espera que com o Psam, a estação seja reativada e que as obras sejam concluídas a tempo para os jogos. "Do contrário, vão ter que velejar no esgoto", finaliza. 

* Do Projeto de Estágio do JB

Tags: baía de guanabara, despoluição, Jogos Olímpicos, MEIO AMBIENTE, Rio de Janeiro

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