Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Rio

Massacre de Realengo: famílias das vítimas reclamam de falta de apoio 

Falhas na segurança e no atendimento médico e psicológico são principais reclamações

Jornal do BrasilAna Luiza Albuquerque*

Há exatamente três anos, no dia 7 de abril de 2011, o destino de dezenas de famílias do Rio de Janeiro foi modificado para sempre. Naquela manhã, a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, foi invadida pelo ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos. Munido com dois revólveres, o jovem matou 12 crianças, feriu outras e cometeu suicídio. Um episódio que os sobreviventes nunca esquecerão. 

As dificuldades enfrentadas pelas famílias das vítimas, por sua vez, também são um obstáculo para a superação da tragédia. Desde o último domingo (6), estão sendo realizados atos para relembrar o acontecimento e reivindicar o preenchimento de lacunas na segurança e no tratamento médico e psicológico.

"O atendimento psicológico ainda existe, mas outras necessidades deixaram de ser atendidas. Antes, era avisado que iria ter médico em tal unidade e que o motorista iria buscar. Hoje falta transporte e marcação da consulta. Minha filha tem problema na coluna e machucou o pé. Ela estava fazendo acompanhamento, mas foi interrompido", conta Nilson Oliveira Rocha, pai de Renata de Lima Rocha, atingida por um tiro nas costas. "Disseram que o atendimento aconteceria até quando fosse necessário, mas eu havia entendido que seria até quando fosse necessário para a gente. Parece que eles não acham mais necessário", continua.

Homenagem às vítimas um ano após o massacre
Homenagem às vítimas um ano após o massacre

Nilson também fala sobre o trauma que o episódio pode ter causado, mas diz estar satisfeito com o atendimento psicológico. "A Renata ficou mais apreensiva com certas coisas, porque o que aconteceu com essas crianças, hoje adolescentes, fica marcado. Não imagino o trauma que elas viveram na época, um louco atirando a todo custo em quem estava pela frente. Fica difícil apagar da memória. A Renata decidiu não ir mais na psicóloga, mas ela era boa. Disse que podia voltar quando quisesse", completa.

Adriana Silveira, presidente da Associação dos Familiares e Amigos dos Anjos de Realengo e mãe de Luiza Paula Silveira Machado, assassinada aos 14 anos, discorda quanto à eficácia do atendimento psicológico. "Existe o atendimento, mas tem que melhorar. O psicólogo é de 15 em 15 dias e o psiquiatra de dois em dois meses. Há condição de uma pessoa com um psicológico totalmente comprometido ser tratada dessa forma?", questiona.

Outro ponto destacado é a suposta falta de segurança nas escolas. "A luta da associação é essa, para que essa violência não aconteça mais em escola nenhuma. Fica um apelo para nossos governantes acordarem e colocarem a guarda municipal nos colégios. Nossa luta é pelas crianças que estão indo estudar. O que aconteceu foi um fato único na história do Brasil e que continue assim", defende.

Protesto por melhorias na segurança na semana seguinte ao atentado
Protesto por melhorias na segurança na semana seguinte ao atentado

O problema da segurança também foi citado por Cristina Nascimento, tia de Alex Domingos, de 15 anos, sobrevivente do massacre. "A segurança da escola continua péssima. Fizeram obra, a escola está muito bonita, mas a segurança continua na mesma. O Alex mesmo reclama. Às vezes ele fala que tem um pessoal meio estranho circulando por lá. Disse que uns meninos estavam na porta da escola, com arma, em motos, fazendo vandalismo", ressalta. 

Procurada, a Secretaria Municipal de Educação afirma ter dado suporte às famílias por meio do Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Escolas (Niap), formado por psicólogos, assistentes sociais e pedagogos. Acrescenta que professores, alunos e parentes receberam apoio da equipe em encontros semanais e visitas domiciliares. Quanto à segurança, a Secretaria garante trabalhar em conjunto com o Grupamento de Ronda Escolar da Guarda Municipal. Segundo a assessoria, a Ronda Escolar atende 1.430 escolas da rede, com guardas e viaturas exclusivos. Na Escola Tasso da Silveira, especificamente, a atuação aconteceria 24 horas, com quatro agentes por turno, totalizando oito guardas diariamente.

*Programa de Estágio do JB

Tags: assassinato, crianças, escolas, homícidio, massacre de realengo, realengo, Rio, Tragédia

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